A PERIFERIA NOS FAZ ENTENDER O CENTRO

7 julho, 2022

Em entrevista concedida a jornalistas nesse início do mês de julho o Papa Francisco, de maneira muito clara, convocou as pessoas e as nações a se deslocarem para as periferias não apenas sociais, mas também existenciais. Ao fazer esse chamado mostra à Igreja da América Latina e do Caribe esse movimento em direção às periferias em prol do papel emancipador de uma região vítima do imperialismo explorador. O sonho de unidade que motivou pessoas como San Martín e Simon Bolívar ainda está por ser realizado, nos diz o Papa.

De maneira muito explícita lembrou à Igreja dessa região para não esquecer sua história de proximidade com a população pobre. Também é preciso lembrar que houve momentos em que se desnaturalizou tornando-se uma “Igreja de gerentes de fazendas, com agentes pastorais que mandavam”. É preciso libertar a Igreja latino-americana dos “aspectos de sujeição ideológica em alguns casos”.

Essa região foi fortemente colonizada pelo imperialismo central e tem “uma Igreja que pôde e pode expressar cada vez melhor sua organização popular”. O Papa enfatiza ainda mais que “a Igreja Católica é forte” nesses países que compõe essa região. E convida a Igreja presente nos países centrais a se deslocar para a periferia, concordando ou não, pois “se você quer saber o que um povo sente, vá para a periferia”. Desta forma, sem o deslocamento físico, psíquico e espiritual para a periferia torna-se quase sempre muito difícil compreender os reclames do povo da periferia do mundo.

Um dos pecados mais marcantes da história da Igreja está em ter olhado para o mundo tantas vezes a partir de si mesma, a partir de sua localização geográfica e existencial. Sem o movimento para fora, em saída, não há como entender o que se passa com as pessoas ao redor do mundo. É a partir das periferias que o povo se mostra. Assim, por exemplo, para um grupo de pessoas situado numa paróquia de classe média e alta entender e compreender o que se passa com o povo sem ir até ele, nas ruelas, nos botecos, nos lixões, nos territórios de consumo de crack, é impossível entender a real necessidade dessas pessoas. Sempre falará e agirá a partir de seu imaginário, de seu centro umbilical.

O que frequentemente se vê nesses bairros nobres é as pessoas querendo se livrar de seres, que mais parecem bichos, em situação de rua e dos consumidores de crack. O centro socioeconômico sempre olhará para essas pessoas como responsáveis por deixar as ruas mais feias.

Esse movimento pode ser feito pelos diversos tipos de pastoral, não apenas pela pastoral do povo de rua. A própria liturgia proposta pelo Concílio Vaticano II tem essa diretriz. Contudo, há muitos líderes religiosos que insistem numa liturgia a partir de um lugar central, muitas vezes representando em suas vestimentas aspectos da nobreza medieval, quando a venda de cargos sagrados conhecida como simonia era muito comum. Naqueles tempos fazia-se a transposição de elementos e símbolos do mundo dos nobres para dentro da Igreja com muita facilidade.

Em uma Carta Apostólica ao Povo de Deus – Desiderio desideravi – publicada no dia 29 de junho deste ano, o Papa retoma a reforma da liturgia proposta pelo Concílio Vaticano II buscando o “significado profundo da celebração Eucarística tal como emergiu”, evitando desvios ou retomadas pré-conciliares, e mostrando como é tão importante a comunhão eclesial em torno do rito resultante daquela reforma litúrgica. É salutar lembrar que as primeiras divisões ou cismas na Igreja Católica foram resultantes dos desvios litúrgicos e não tanto doutrinários como nos mostra a história da separação da Igreja Ortodoxa em 1054.

Para os dias atuais a Constituição Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II nos exige uma Igreja que esteja em sintonia pastoral e celebrativa com “as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem”. Pois “são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”

O Decreto Ad Gentes aponta ainda mais claramente o caminho da Igreja no mundo e determina: “Trabalhem os cristãos e colaborem com todos os outros para estruturar com justiça a vida econômica e social […] Além disso, associem-se aos esforços dos povos que procuram com afinco melhorar as condições de vida e firmar a paz no mundo, combatendo a fome, a ignorância e as doenças”.

Na Conferência Episcopal Latino Americano de Medellin em 1968, os bispos afirmavam que ainda se vive nessa região sob o signo trágico do subdesenvolvimento que afasta as pessoas do gozo dos bens materiais impedindo sua realização humana dignamente. Apesar dos esforços, ainda estão conjugados a fome e a miséria, as doenças generalizadas e a mortalidade infantil, as tensões entre as classes sociais, os surtos de violência e escassa participação do povo na gestão do bem comum. O que mudou nesse cenário depois cinquenta anos?

O sonho de José de San Martín e Simon Bolívar esbarrava no século XIX no desafio de constituir uma sociedade civil independente sobre a qual fosse possível erigir instituições democráticas fortes e duradouras. A força da região deveria ser constituída a partir desse objetivo macro, para romper com o imperialismo explorador. A independência havia sido proclamada, mas faltava essa construção.

O que se via era um amálgama de forças sociais com uma maioria oprimida de indígenas, negros e mestiços, uma aristocracia rural que era contrária a independência da região, que temia um poder nas mãos dos pardos. Os novos caudilhos militares defensores de seus interesses particulares enquanto corporação buscaram sufocar os ideais de autonomia e liberdade. Os caudilhos e as oligarquias locais impediram na época a realização do sonho de unidade da américa latina de Bolívar

Tendo em vista o olhar do Papa Francisco a partir dessa periferia geográfica onde nasceu e se formou, suas palavras ganham em força e importância. Os sonhos de San Martín e Bolívar continuam ainda a serem realizados. Os segmentos sociais evoluíram muito pouco e qualquer tentativa de superação dessa força estagnadora é taxada de comunista. Trata-se, conforme o Papa, de trabalhar para alcançar a unidade latino-americana onde cada povo viva e sinta sua identidade sem prescindir da identidade do outro. Sabemos que não é fácil, mas esse é o caminho para uma solidariedade continental entre nós latino-americanos.

Edebrande Cavalieri

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