A questão da secularização

17 junho, 2021

Edebrande Cavalieri

Em preparação para o momento de escuta da I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, o Documento para o caminho, disponibilizado no site do evento, orienta o povo de Deus para um olhar sobre a realidade da Igreja no hoje de nossa história. Um dos pontos ali apresentados se refere ao avanço da secularização nos países da América Latina, já constatado no Documento de Aparecida como “sérias tendências de secularização”.

Hoje podemos afirmar que o processo cresceu e se agravou. Em que consiste a secularização? Ouvíamos falar sempre que esse processo estava presente na realidade europeia. E hoje constatamos um crescimento muito presente entre os adolescentes e jovens de nossa sociedade. Em pesquisa do Instituto Datafolha de 2020 com jovens entre 16 e 24 anos, apenas 13% se diziam católicos. Também entre os evangélicos essa faixa etária é a que apresenta menor percentagem de cristãos, em torno de 19%.

Em termos de América Latina as últimas pesquisas confirmam o crescimento do fenômeno dos “sem religião”. Por ocasião da vinda do Papa ao Chile em 2018, foi divulgada uma pesquisa mostrando que esse país tinha em torno de 35% de sua população que se considerava sem religião, seguido pelo Uruguai com 31%, El Salvador com 30% e República Dominicana com 28%. Nessa pesquisa o Brasil aparece com 14% de pessoas sem religião.

Em 1980 era apenas de 1.5% de pessoas sem religião segundo dados do IBGE. Também é bom registrar que nesse continente já são quase 10 países onde a Igreja Católica tem menos de 50% da população, mostrando que não apenas o fenômeno da secularização lhe toca profundamente, mas também a migração de seus fiéis para outras denominações, especialmente as chamadas Igrejas pentecostais e neopentecostais. No Chile e no Uruguai a queda do número de católicos não indicou como consequência o aumento das Igrejas pentecostais, mas aumento do percentual de pessoas sem religião. Ou seja, nesses países a secularização se mostra mais forte e consistente.

Como podemos compreender esse fenômeno que não mais se restringe ao mundo europeu e penetra em países que tiveram uma história marcadamente católica, fruto do acordo entre Igreja e países colonialistas chamado Padroado? Alguns fatores podem ser mencionados a partir de pesquisas realizadas nos diversos centros de estudos sobre religião.

Tem diminuído significativamente a transmissão da fé cristã no seio familiar, e assim adolescentes e jovens passam a viver de maneira bem distante e indiferente em relação à religião. Há até uma atitude de crítica e oposição à Igreja Católica, considerada conservadora e pouco aberta a novos desenvolvimentos das ciências. Há uma desorientação generalizada em relação aos princípios da fé.

O Papa Francisco tem alertado frequentemente a Igreja sobre o aumento da secularização. Aos bispos poloneses em 2016 ele dizia que a cultura secularizada está conduzindo ao crescimento de cristãos “órfãos”. E alerta ainda mais: está crescendo uma espiritualidade sem Cristo, uma “espiritualidade gnóstica”. O desejo de romper o movimento de secularização com esse modelo de espiritualidade está levando a uma descristianização da sociedade

Um fator que atinge praticamente todas as Igrejas em relação ao abandono dos fieis é uma certa insatisfação com a instituição a que pertence, muitas vezes até em relação às lideranças que a conduzem. Tem crescido entre nós o número de pessoas chamadas de “desigrejadas”, que afirmam que “a igreja sou eu, é você, somos nós”. Alguns estudiosos tratam como “igreja orgânica”. O crescimento desse fenômeno, bem como o aumento de pequenas Igrejas sem vínculos maiores em termos institucionais, mostram que a religiosidade não combaliu. Há sim um crescimento da vinculação institucional.

Conforme dados do IBGE de 2010, há no Brasil mais de 10 milhões de pessoas sem vínculo denominacional. As projeções apontam maior crescimento até 2040. Os fatores que levam as pessoas a romperem com suas denominações são diversos, e os principais são: a maior ênfase na cobrança dos dízimos em nome da fé em vista de grandes construções arquitetônicas ou empresas de comunicação; a ascensão de líderes manipuladores, discurso e práticas contraditórias, demagogia, superficialidade das pregações, escândalos financeiros e morais cada vez maiores. A má formação humana e teológica de tantas lideranças acaba maculando o conjunto dos ministros da Igreja.

Para o grupo dos desigrejados, a instituição seria desnecessária e acreditam que a fé cristã poderia ser exercida desvinculada da comunhão da Igreja. Nesse caso, haveria cultos e orações não mais feitos nos templos, mas nas casas. Assim, o próprio dízimo desapareceria como obrigação eclesial. Professa-se uma forma de fé para além da instituição. Trata-se de um fenômeno crescente que exige estudo para entender as causas e as motivações. Entre os evangélicos o crescimento é maior, mas nota-se um crescente na Igreja Católica também. Os desigrejados abrem o caminho para a secularização, sem dúvida, pois vai enfraquecendo os laços eclesiais de comunhão e participação.

A insatisfação religiosa das pessoas que abandonaram a instituição deve ser compreendida no contexto de fieis que tiveram longa andança pelas Igrejas ou numa mesma Igreja. Isso não significaria apenas a queda no ateísmo, mas principalmente um enfraquecimento das crenças tradicionais. A ausência de comprometimento a partir da prática religiosa já é um forte indicativo desse enfraquecimento religioso. Até mesmo a relação com os dogmas religiosos vai denotando um enfraquecimento no vínculo com a religião.

Uma pesquisa realizada pelo Datafolha em 2007 constata no meio católico que 95% das pessoas são favoráveis aos anticoncepcionais ou utilizam sem maiores dificuldades, 72,2% são favoráveis ao divórcio e 70,6% são favoráveis à mudança da Lei sobre o aborto, de modo a permiti-lo em situações mais relevantes. Há um discurso dogmático que não se relaciona com a prática. É o caso das doutrinas relativas a questões morais e sociais. A reação tradicionalista autoritária que alguns grupos tentam mostrar e impor para barrar esse enfraquecimento não atinge o grupo que tem vínculo eclesial enfraquecido. Ao contrário, fortalece ainda mais o desejo de afastamento religioso das pessoas.

Até mesmo a politização das questões morais acaba fortalecendo o movimento de secularização. O crescimento da Direita Cristã vai enquadrando a religião na esfera política, tornando-se um verdadeiro partido. A aproximação da religião com a política traz consequências nefastas para a fé e torna ainda mais tênues os laços que unem as pessoas a uma determinada denominação religiosa. O domínio político instrumentalizando a religião em seu benefício quase sempre esbarra no enfraquecimento da fé.

O apego aos modelos tradicionais de impor a fé na sociedade com que alguns grupos tentam exercer a liderança abre um fosso ainda maior na perda da autoridade e da influência da religião sobre os indivíduos. O uso da religião como instrumento de controle e de poder como acontecia nos tempos da cristandade não surte mais eficácia. Aumenta mais o distanciamento da cultura religiosa imposta pelas Igrejas em relação ao mundo. Não é por causa desses grupos tradicionais que a secularização será estancada. Ao contrário, isso provoca uma maior reação e desilusão em relação à própria Instituição. As pessoas não tomam decisões a partir dos catecismos ensinados ou das cartilhas doutrinais impostas.

No Brasil, os impactos provocados pelo crescimento das Igrejas pentecostais e neopentecostais e a atração exercida pelas lideranças midiáticas podem nos enganar achando que com isso estaria estancada a secularização. Mas alguns estudiosos entendem que não apenas o crescimento do mundo evangélico, como o consequente pluralismo religioso e a incorporação da religião no espaço do palanque político devem fortalecer esse desencantamento das pessoas com a instituição religiosa levando ao aumento da secularização. Não se deveria criar Igreja como se criam partidos políticos. A vida útil dos partidos políticos é muito pequena. Já imaginaram esse caminho na vida das Igrejas? O desencantamento com um partido político teria assim como equivalente o desencantamento com uma determinada Igreja ou mesmo com a própria religião.

Uma questão merece ser aprofundada: até que ponto os movimentos de reavivamento da vida religiosa com práticas até estranhas ao Concílio Vaticano II e restauradoras de tempos passados podem estancar o crescimento da secularização? No caso católico, esse movimento acabou aproximando muitas vezes a cultura católica tradicional da cultura pentecostal. Isso tem enfraquecido a identidade católica, favorecendo a migração religiosa, com o abandono da Igreja na qual recebeu os sacramentos de Iniciação Cristã.

É inegável a sede espiritual do homem contemporâneo, mas nem sempre essa sede leva esse mesmo homem para o poço de água viva que é Cristo. Para o Papa, é preciso que a Igreja saia de si mesma, vá para fora, entre o povo, para as periferias, próxima às pessoas e disposta a “perder tempo” com elas. E lembra o exemplo de São João Paulo II que no magistério universitário “dava aula aos jovens e depois saia com eles para as montanhas; isso é proximidade. Ele os escutava, ele ficava com os jovens”.

Nesse momento do primeiro passo da Assembleia Eclesial conhecido como “VER” é muito importante que as pessoas sejam ouvidas a respeito dessa questão, dizendo como a secularização se apresenta em seu cotidiano, em sua comunidade, em sua família. Que essas vozes sejam enviadas para que ecoem durante o evento da Cidade do México, sob o olhar de Nossa Senhora de Guadalupe.

 

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