No dia 11 de setembro passado, o Papa Francisco recebeu os membros recém-eleitos que compõem a Presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe, ocasião em que o Pontífice ouviu dos bispos as alegrias, esperanças e também angústias do continente latino-americano.
Na linha do Concílio Vaticano II, o encontro dos Bispos com o Papa demonstra a importância da colegialidade episcopal e da sinodalidade, trazida por Francisco ao coração da Igreja. Ainda durante o Concílio, o Papa João XXIII manifestou de maneira veemente seu desejo que o povo de Deus, através dos bispos do mundo inteiro, fosse o verdadeiro protagonista do processo histórico. Portanto, não se trata de uma visita protocolar dos bispos latino-americanos e caribenho com o Papa Francisco. Ali tiveram ocasião de apresentar ao Papa as realidades vividas nas diversas conferências episcopais e os projetos em vista dos próximos quatro anos.
Um quadro sucinto do panorama do catolicismo nessa parte do continente nos mostra que 80,2% são de católicos perfazendo um total de 452 milhões de pessoas. Hoje o México é o país mais católico, ficando o Brasil em segundo lugar com 106 milhões de fiéis. Contudo, a diminuição do catolicismo no Brasil atinge a cifra hoje de 50% da população, com o veloz crescimento do pentecostalismo, neopentecostalíssimo e pessoas sem religião.
Os bispos puderam destacar para o Papa a força da vida religiosa feminina e dos leigos e leigas. Registraram que o maior destaque é com o ministério dos catequistas com 956.792, contudo em muitas Igrejas particulares esse ministério não está sendo implementado com reconhecimento explícito. Em tempos de sinodalidade, essa realidade requer que se reflita sobre o que Deus espera da Igreja nesse continente.
Partindo da realidade descrita pela Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil, vemos que diante de nós são apresentadas doze realidades que cada católico deveria considerar no seu agir missionário como Igreja em saída. Numa Igreja em processo sinodal, esses pontos indicam como todo o conjunto eclesial (bispos, padres, diáconos e leigos e leigas) deveria conduzir seu cuidado pastoral.
De imediato nos salta aos olhos a necessidade de reconhecer e valorizar o papel dos jovens nas comunidades eclesiais. Onde eles estão? O que fazem? No Primeiro Sínodo Arquidiocesano de Vitória e na escuta sinodal recentemente percebe-se um alto grau de esvaziamento da presença dos jovens nas comunidades. Sem eles, a Igreja definha e morre.
Outra realidade dura e antievangélica é a situação das vítimas de injustiças sociais e eclesiais nos processos de reconhecimento e reparação. O Papa Francisco tem demonstrado sempre grande preocupação com as injustiças eclesiais de maneira muito transparente.
O terceiro ponto destacado pela CNBB se refere à promoção da participação ativa das mulheres nos ministérios, órgãos governamentais, discernimento e tomada de decisões eclesiais. Não se trata apenas de reconhecer sua participação, mas de garantir sua inclusão nas instâncias de discernimento e decisão. Ainda nos chama a atenção esse ponto o apoio que deveria ser dado às mulheres nos órgãos governamentais.
A arquidiocese de Vitória está retomando a missa com os “políticos católicos”, porém o Arcebispo Dom Dario Campos enfatiza que “é necessário convocar a todos e todas a crescerem na direção de um verdadeiro e concreto amor social, capaz de construir e apontar novos rumos na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária”. Particularmente pude acompanhar as missas em anos anteriores com os políticos católicos, contudo a presença feminina como “políticas católicas” era bem ínfima. Está aí um grande desafio para as próximas eleições.
Essa decisão da Arquidiocese está em plena sintonia com outro desafio apontado pelos bispos do Brasil que é a promoção da participação dos leigos em espaços de transformação cultural, política, social e eclesial. Esse ponto também foi apresentado ao Papa pelos Bispos do CELAM. Trata-se de caminhar nas trilhas da Encíclica Fratelli Tutti, da melhor política, que seja capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos. Os interesses particulares e corruptos enfraqueceram muitas instituições fundamentais da sociedade latino-americano. É preciso agora uma política capaz de reformar essas instituições.
Ainda dois pontos merecem ser destacados no quadro latino-americano e caribenho apresentado ao Papa Francisco e explicitado pela CNBB de maneira bem radical. Na escuta sinodal também estiveram muito presentes essas duas realidades.
Em primeiro lugar é preciso aumentar a formação sobre a sinodalidade para erradicar o clericalismo. Não se trata apenas de reprodução de um discurso propagado, mas de uma vivência diária, em cada lugar em que se está. Não é um aprendizado mental sobre a sinodalidade, mas uma prática eclesial. Há muitos clericalistas que proferem discursos bonitos sobre sinodalidade.
O segundo ponto em destaque proposto pela CNBB é “reformar os itinerários formativos dos seminários onde são formados os novos sacerdotes, incluindo temas como ecologia integral, povos nativos, inculturação e interculturaldiade e pensamento social da Igreja”. Em muitos lugares há uma preocupação excessiva com conteúdo com pouca ou nenhuma aderência eclesial. São mais voltados para aspectos conservadores e tradicionalistas, pré-conciliares.
Por fim, a tarefa desafiadora dos novos tempos da América-Latina e do Caribe é a “promoção de um encontro pessoal com Jesus Cristo encarnado na realidade do continente”. Uma fé desencarnada, mais preocupada com usos tradicionais da vida litúrgica e sem aderência à realidade dura e cruel de nosso povo, não está em sintonia com o caminhar sinodal da Igreja conduzida pelo Papa Francisco em conjunto com os Bispos do mundo inteiro.
Edebrande Cavalieri

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