Amizade social entre irmãos

Amizade social entre irmãos

Edebrande Cavalieri

Doutor em Ciências da Religião

O Papa Francisco acaba de publicar sua mais nova Carta Encíclica, Fratelli Tuttti – fraternidade e amizade social, destinada a todo o povo de Deus especialmente aos católicos, fazendo ecoar esse grito de amor a partir de um lugar, o túmulo de São Francisco em Assis, celebrado no dia 04 passado. Daí nasceu também a inspiração para a Carta Encíclica Laudato Si’. Contudo, Fratelli Tutti também recebeu um novo estímulo: o encontro com o Grande Imã Ahmad Al-Tayeb, de Abu Dhabi.

A título de informação Imã é o sacerdote islâmico considerado ungido de Alah e guia de uma comunidade que se reúne na Mesquita. Em diversas oportunidades o Papa Francisco em viagens pelo oriente encontrou-se com este Imã. Trata-se de uma grande referência no mundo islâmico e juntos assinaram em 2019 a Declaração de Abu Dhabi sobre a Fraternidade Humana em prol da paz mundial e a convivência comum. Al-Tayed dizia quando se encontrou com o papa: “A humanidade deveria enfatizar o valor da paz, da justiça, igualdade e direitos humanos, independentemente da religião, cor, raça ou linguagem”.

O título “Fratelli Tutti” retoma a forma com que São Francisco de Assis se referia aos seres humanos e a toda a terra. Todos irmãos! Fraternidade e amizade social não são apelos românticos ou sentimentalistas, mas um fato que implica uma saída, um descer do cavalo, e uma ação, como fez o Samaritano ao encontrar um homem caído. O ódio fundamentalista usa o nome de Deus para eliminar o outro, o diferente. “De quem me faço irmão?” Essa é a grande questão que está presente na Encíclica. A pergunta de Deus em Gênesis 4, 9 feita a Caím é a mesma pergunta que Ele faz a cada um de nós nos dias atuais. “Onde está Abel, teu irmão?” E a resposta de Caim é a mesma dita hoje por tantas pessoas: “E eu com isso? Ou: E daí?”. Caim dizia: “Não sei; sou eu o guarda do meu irmão?”

No retorno da viagem em 2019 após a assinatura da Declaração o Papa disse que aquele documento foi muito bem pensado tanto no mundo muçulmano como no mundo católico, “porque para mim existe um grande perigo agora: a destruição, a guerra, o ódio entre nós. E se nós, crentes, não conseguirmos estender nossas mãos, nos abraçar, nos beijar e até rezar, nossa fé será derrotada. Esse Documento nasce da fé em Deus que é o Pai de Todos e Pai da Paz e condena toda destruição, todo terrorismo”.

A Encíclica Fratelli Tutti nasce assim de uma experiência concreta de diálogo inter-religioso entre o mundo católico e o mundo muçulmano. Todos nós sabemos ou deveríamos saber a história dos conflitos e tantas mortes entre essas duas grandes religiões que hoje compõem dois terços da população mundial. E todos também deveríamos saber um pouco das dificuldades para esse diálogo.

É nesse contexto que surge a mais nova Carta Encíclica que nos propõe um projeto que é de fato uma necessidade: constituirmos a humanidade como um “nós” que habita a casa comum. Nasce da fé que acredita na dimensão universal do amor, que nasce da Trindade. Segundo o Papa, a Covid-19 deixou expostas nossas falsas seguranças, mostrando nossa incapacidade de agirmos em conjunto. E nos ensinou que ninguém pode enfrentar a vida isoladamente. Precisamos de uma comunidade que nos apoie e que nos auxilie.

Não estou propondo um resumo da Encíclica, mas apenas trazendo algumas informações motivadoras para a sua leitura. Todo católico deveria ler e meditar, pois se trata de um linha de ação proposta pelo sucessor de Pedro. Leitura, meditação e oração!

Chamou-me muito a atenção o capítulo 2 com o título “Um estranho no caminho”. O amor cristão que Jesus apresenta nos Evangelhos tem um modelo bem paradigmático na parábola do Samaritano. Diz-nos o Papa: “Ao amor não lhe interessa se o irmão ferido vem daqui ou dacolá. Com efeito, é o ‘amor que rompe as cadeias que nos isolam e separam, lançando pontes; amor que nos permite construir uma grande família onde todos podemos nos sentir em casa. […] Amor que sabe de compaixão e dignidade”.

O modelo mostrado na parábola do Bom Samaritano não é algo intrínseco a uma determinada Igreja ou religião. Trata-se de um caminho de todos os cidadãos do próprio pais e do mundo inteiro. O mundo precisa de um novo vínculo social. Novos laços sociais. Os laços partidários, ideológicos, que alguns grupos religiosos professam não servem ao amor, mas ao ódio, à guerra. Levam espadas nas mãos e não a cruz da misericórdia.

É a partir do objetivo da busca do bem comum que se pode reconstruir a ordem social e política, o tecido das suas relações. O ícone iluminador do Bom Samaritano nos mostra que a existência de cada um de nós está ligada à dos outros, pois a vida é o tempo do encontro. No cenário da parábola, ficam claros os caminhos que se tem à frente: agir como aquele homem que desce do cavalo e vai cuidar do ferido, ou estar do lado dos salteadores que quase mataram aquele homem, ou passar indiferente diante do sofrimento do estranho. Temos assim cotidianamente tantos estranhos em nosso caminho. Tantas pessoas à espera de um cuidado. A mudança vai ocorrer quando a luta for contra todo tipo de exclusão, quando se age para reabilitar as pessoas caídas, para que o bem de fato seja comum. Isso não é comunismo, mas Evangelho de Jesus Cristo.

A recuperação do conceito de fraternidade amplia o horizonte da própria solidariedade, pois inclui os diferentes como irmãos. Inclui o estranho. Inclui o estrangeiro. A solidariedade é muito importante, mas muitas vezes ela se estrutura num planejamento de ação social baseada na proximidade geográfica ou racial, ou religiosa. O dizer que todos somos irmãos sendo diferentes, estranhos, estrangeiros, tem um alto valor político, pois afirmamos a cidadania de todos, com direitos e deveres iguais. E todos podem usufruir dos bens da justiça. Somente a fraternidade nos dará base para a “amizade social”. Não podemos confundir as coisas: a amizade no contexto da fraternidade e a amizade no contexto da solidariedade. A Encíclica nos remete para a amizade com os diferentes! Com os estranhos! Essa foi a diferença na atitude do bom Samaritano. O exemplo que vem de Assis nos mostra uma fraternidade radical.

A Encíclica se compõe de sete capítulos com 287 parágrafos, que tratam de um mundo aberto, um coração aberto ao mundo inteiro, uma política melhor, um novo encontro. O que me chamou muito a atenção foi o capítulo VII que convoca as religiões para o serviço da fraternidade no mundo. Temos visto crescer um sentimento particularista dentro de uma mesma religião ou Igreja. Grupos fechados em si mesmos. Grupos em luta uns com os outros. Grupos até de combate ao Papa Francisco por trilhar os caminhos evangélicos. Como é possível um diálogo com os muçulmanos se nem dentro da própria Igreja conseguimos constituir um laço de fraternidade?

O Papa conclui a Encíclica transcrevendo o apelo à paz, justiça e fraternidade que assinou junto com o Imã Abu Tayed e traz, além da memória de São Francisco de Assis, outros irmãos que não são católicos mas que lutaram e deram a vida pela paz: Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Mohandas Gandhi e muitos outros. E inclui outra pessoa de profunda fé, de intensa experiência com Deus, que realizou um caminho de transformação até se sentir irmão de todos: Beato Carlos de Foucauld.

Enfim, o modelo de santidade vivido por Santa Clara e São Francisco requer posturas radicais em relação ao que Deus nos chama. A fraternidade é uma dessas decisões radicais. “Se a música do Evangelho parar de vibrar nas nossas entranhas, perderemos a alegria que brota da compaixão, a ternura que nasce da confiança, a capacidade da reconciliação que encontra a sua fonte no fato de nos sabermos sempre perdoados-enviados”. É preciso repercutir a mensagem do Evangelho nas casas, nas praças, nos postos de trabalho, na política e na economia.

Boa leitura, com meditação e oração!

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