AS CATEQUESES SOBRE LUMEN GENTIUM DO PAPA LEÃO XIV

17 julho, 2026

Em fevereiro desse ano, o Papa Leão XIV retomou as catequeses nas Audiências Gerais proferidas às quartas-feiras. Ele se propôs a realizar um conjunto de reflexões sobre a Constituição Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, que trada da identidade da Igreja, da vocação dos leigos, da vida consagrada, Maria e o Fim dos Tempos.

As catequeses formam um conjunto de ensinamentos que todos os católicos, de direita e de esquerda, de centro ou de lugar nenhum, devotos e não praticantes, deveriam reservar um momento para ouvir atentamente. Enquanto alguns insistem em negar o Concílio Vaticano II criando um cisma (divisão) dentro da Igreja, o Papa Leão XIV nos convida a participar da renovação apontada pelos padres conciliares.

Qual a identidade da Igreja? Ela é, antes de tudo, um mistério de comunhão. A escolha da palavra “mistério” para designar a Igreja não quer dizer que ela seja algo obscuro ou incompreensível. Ao contrário, segundo a Carta aos Gálatas, por mistério deve-se entender aquela realidade que antes estava oculta e que agora é revelada. A revelação é o dado fundamental para todo cristão.

O mistério é o plano de Deus de unir todas as criaturas em Jesus Cristo, ação realizada por meio de sua morte na cruz. É na celebração litúrgica em que a assembleia se reúne que as diferenças quase desaparecem, são relativizadas. Por isso, o que importa nesse mistério e em sua participação é estarmos juntos e atraídos pelo Amor de Cristo.

A liturgia eucarística deve ser o prazer antecipado daquele banquete celestial que ansiamos e está no centro da autocompreensão da Igreja. O resto é organização, é forma, é ética social, é moral, é desenvolvimento teológico. Não é possível haver divisão nesse modo de nos identificarmos como Igreja.

O apego ao tradicionalismo de alguns cristãos, hoje cismáticos, não tem nenhum sentido. Ao contrário, é uma negação da origem da Igreja a partir do Mistério Pascal que se faz presente em cada Missa de forma única e inquestionável. É profundamente triste vermos um caminho cismático decorrente do modo de realizar a Eucaristia. Como é possível pensar numa “missa tridentina”? Qual a relação com o Mistério Pascal sendo momento de negação de uma ação da Igreja no Concílio Vaticano II? Parece-nos contraditório.

O Papa nos diz que não há uma oposição entre catolicismo e protestantismo, pois a mensagem cristã é universal. “Precisamente por que a Igreja é obra de Deus, esta convocação não pode se limitar a um grupo de pessoas, mas está destinada a se tornar a experiência de todos os seres humanos. A união com Deus se reflete na união dos seres humanos. Esta é a experiência da salvação”.

Entre os vários temas abordados nas catequeses, destacam-se o protagonismo de cada batizado, o serviço na hierarquia, a missão dos leigos, o chamado universal à santidade. A figura de Maria é apresentada como imagem perfeita da Igreja que escuta, que acolhe e gera Cristo para o mundo.

Enquanto cristãos temos o compromisso de seguir esse modelo, Maria, gerando Cristo em cada cantinho, nas esquinas das cidades, nas periferias geográficas e existenciais, nos encontros com as feridas do mundo, na morte dos inocentes, nos migrantes expulsos de suas pátrias. O Cristo comungado nas missas celebradas deve ser o mesmo a ser distribuído pelos cantões do mundo.

É com esse modelo de Igreja, Maria, que teremos uma Igreja cada vez mais missionária, sinodal, aberta ao diálogo e comprometida com a justiça, a paz e a unidade da família humana. O Papa nos lembra que “não existe uma Igreja ideal e pura separada da terra, mas apenas a única Igreja de Cristo encarnada na história. O mistério da Encarnação do Verbo não é um ato mágico de um deus super-herói, mas a expressão de um Deus Trino, Comunhão e Caridade.

A tarefa dos cristãos é viver segundo esse modelo indicado pela Lumen Gentium: “A Igreja está em Cristo como um sacramento ou como um sinal e instrumento tanto de uma união muito íntima com Deus quanto de unidade de toda a raça humana”. É fácil esquecer que a Igreja se fundamenta no mistério revelado por Jesus Cristo.

Em tempos de crescimento das divisões e polarizações, a religião tem sido usada para justificar os mais diversos tipos de políticas. Nas eleições, é instrumentalizada para angariar votos. Ataques aos sucessores dos Apóstolos, o Papa e os Bispos, que conduzem a Igreja, como temos visto, é a profanação do Corpo Místico de Cristo. O caminho da vida partidária e polarizada aniquila o poderoso chamado à unidade que está no coração da autocompreensão da Igreja, que se manifesta sobretudo na Missa, celebração do Mistério Pascal, sinal de unidade e comunhão.

Edebrande Cavalieri

 

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