Candidaturas religiosas em debate

16 outubro, 2020

Edebrande Cavalieri

As eleições estão se aproximando, propaganda eleitoral nas mídias e nas ruas, e uma constatação: a quantidade grande de candidatos a prefeitos e vereadores pelo Brasil a fora com título religioso. Esse fenômeno tem chamado a atenção dos estudiosos de Ciências da Religião e Ciência Política. Conforme o TSE há 4.426 candidatos com o perfil de pastor/a, 3.561 como irmão/ã, 203 bispos, 190 missionários, 157 pais, 109 padres, 42 apóstolos, 12 reverendos e 2 reis.

A questão principal é por que motivo os religiosos estão buscando o voto nos rebanhos das Igrejas? Chama ainda mais a atenção a predominância de títulos cristãos. Haveria assim um movimento de cristianização da política? Uma nova cristandade? Será que através dos palanques o Evangelho penetraria mais facilmente que através dos púlpitos?

Esse fenômeno não é novo no Brasil. Até a Proclamação da República com a vigência do Padroado, era comum os padres participarem ativamente da política, inclusive liderando revoluções, como ocorreu na “Revolução dos Padres” ou Revolução Pernambucana de 1817. Mas com a separação entre Igreja e Estado praticamente vai desaparecendo a participação dos clérigos na vida partidária e política. No meio católico o Código de Direito Canônico restringe muito a participação de clérigos na política partidária.

A primeira vez que religiosos de natureza evangélica aderiram à campanha política ocorreu com a convocação da Assembleia Constituinte em 1986, pois temiam que a nova Constituição devolvesse à Igreja Católica antigos privilégios. Temiam também a inclusão da defesa dos homossexuais, dos comunistas, das feministas, da liberação do aborto, do uso de drogas, do viés ecumênico do ensino religioso nas escolas. Em muitos desses temas os evangélicos tiveram o apoio de grupos católicos de linha mais conservadora. Assim, algumas Igrejas mantiveram-se alheias à vida política e outras, de modo especial a Igreja Universal e a Assembleia de Deus, passaram a incentivar seus membros pastores na luta política fortalecendo a Bancada Evangélica.

A pauta moral e ideológica passou a integrar os programas de campanhas eleitorais. Ao mesmo tempo a narrativa evangélica passou a alinhar essa pauta com uma fundamentação bíblica. “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”. O ritmo de crescimento foi maior nos últimos quatro anos. Como se dá esse caminho eleitoral pelo viés religioso?

Trata-se de uma tendência crescente em países como o Brasil. Ficou ainda mais forte com a expansão da chamada Direita Cristã que tem como base o governo norteamericano. Os diversos grupos de evangélicos em união com grupos católicos buscam influenciar as políticas públicas, propondo Leis e influenciando decisões do Governo. Dessa forma, possuem uma visão de mundo muito forte, às vezes radical e até fundamentalista, e nesse perspectiva procuram influenciar os governos em todas as instâncias.

O sucesso tem a ver com a capacidade de mapeamento feito por especialistas (marqueteiros) do sistema de crenças que guia as pessoas. O meio evangélico de cunho pentecostal é o que mais cresce em termos da população brasileira. Tendo claro o sistema de crenças, de preferência usando a relação com a Bíblia, especialmente o Antigo Testamento, os candidatos religiosos encontram um caminho mais fácil de chegar às Câmaras Municipais, às Assembleias Legislativas e ao Congresso Nacional.

Percebe-se também que o número de candidatos aos executivos não é tão grande. Parece que há um certo receio de assumir o governo. Melhor é ter alguém de sua confiança, uma espécie de ungido. A eleição de Marcelo Crivela no Rio de Janeiro é uma experiência a ser analisada para as campanhas ao executivo.

Com o mapa de crenças em mãos, os candidatos que se apresentam com títulos religiosos pensam que terão menos trabalho para atingir seus eleitores. Há uma espécie de atalho rápido e assim se dá a conquista do voto do eleitor. O título religioso tem uma significância muito grande num país tão religioso como o Brasil. Em nossa cultura parece haver uma correlação direta entre um título religioso e a dignidade moral. Como as pessoas se guiam por um sistema de crença não há maiores questionamentos a respeito da vida moral e pessoal do candidato.

Os candidatos religiosos para grande parte dos eleitores guiados pelas crenças representam a vontade de Deus. Assim como Deus não impediu que Davi continuasse no poder mesmo diante do grave pecado cometido levando à morte Urias e ficando com sua esposa, pensa-se que o mesmo Deus aceitaria que determinados governantes mesmo pecando permaneçam no poder. Acreditam que os governos religiosos se mantém no poder apesar de seus pecados, pois foram ungidos. Por isso, até cabe chamar o presidente de “profeta”. Seria a restauração do regime monárquico de Direito Divino?

Até que ponto esse caminho político se sustenta? Até que ponto o sistema de crença garante força e continuidade? Aqui está a grande questão. O sistema de crenças pode ser implodido, de dentro de si mesmo, ou a partir de fora. Para impedir essa implosão do sistema religioso/político será fundamental estancar os caminhos e atalhos críticos presentes na cultura. Por isso, o sistema democrático tende a representar um perigo para a manutenção política dos grupos religiosos presentes na política. Daí o alinhamento do poder com forças conservadoras, tradicionalistas, fundamentalistas.

Alguém poderia se contrapor perguntando se os líderes religiosos não poderiam participar da vida partidária como candidatos. Todo cidadão que goze de plenos direitos garantidos pela Constituição pode se candidatar. Não há nenhum ilícito nisso. Então por que tem crescido o movimento que pede aos pastores que voltem para suas Igrejas?

Mesmo estando em suas Igrejas, a união entre púlpito e palanque não tem respaldo ético e muitas vezes nem respaldo moral. O que acontece de errado? Muitos líderes religiosos, mesmo não sendo candidatos, aproveitam do espaço do altar e do púlpito em redes de rádio e televisão e divulgam imagens para suas candidaturas políticas. Tornam-se verdadeiros coronéis com base religiosa. Isso não é permitido do ponto de vista jurídico e muito menos moral. O TSE discute isso como “crime de abuso do poder religioso”. Trata-se de uma propaganda irregular, proibida, passível de cassação da candidatura divulgada.

Por fim, a questão mais delicada se refere ao uso do espaço político para beneficiar apenas seu segmento religioso, sua própria Igreja ou grupo de Igrejas. Isso tem acontecido e crescido muito no Brasil. As trocas de favores como negociação de dívidas das Igrejas ou apoio econômico para publicidade em meios de comunicação religiosos são imorais e afetam o Estado Democrático. Nenhum agente público pode beneficiar um grupo em detrimento de outros. Na Democracia todos devem ser contemplados com o mesmo direito, com o mesmo bem. O espaço político institucional não é extensão das Igrejas. Nenhum presidente, governador ou prefeito é ungido como messias num Estado Democrático.

Dessa forma, o maior benefício para o Estado e para as Igrejas sempre foi e sempre será considerando as duas esferas de maneira separada. A história está repleta de exemplos dos perigos quando se une a esfera política com a esfera religiosa. O debate nas candidaturas religiosas então se situa na maneira como a pessoa utiliza do poder político para beneficiar seus interesses religiosos particulares. Ninguém é contra as candidaturas religiosas, mas contra o uso do espaço público e político para beneficiar interesses religiosos particulares, de suas respectivas Igrejas.

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