Capitalismo de vigilância: como fica a vida ética?

Edebrande Cavalieri | 

Nesses meses de pandemia fui obrigado a comprar algumas coisas pela internet, algo do tipo um livro, uma cadeira para escritório, um aparelho de ar condicionado. E, como sempre faço, entro na página do Google ou de alguma loja conhecida e busco a mercadoria do meu interesse. E logo começaram a chegar ofertas daqueles produtos em qualquer entrada na rede de internet.

Depois de dois meses de pandemia, não resisti à vontade de ir a um restaurante comer uma “bela moqueca”. Chegando lá, meio às escondidas, me vejo sem acesso à internet e peço a garçom a senha do Wi-Fi que prontamente me diz que é acesso pelo facebook. E no mesmo dia diversos amigos meus já sabiam que eu tinha ido àquele restaurante. Como?

Assim qualquer busca na internet principalmente de produtos do mercado incluindo viagens e passagens aéreas vai resultar numa avalanche de retornos de ofertas e preços. Então me pergunto: como sabem que estou procurando isso? Como meus amigos ficaram sabendo que eu estive naquele restaurante? Eu pensava que estivesse escondido! Doce ingenuidade a minha! Eu procurei ao máximo nesse período não me expor nas ruas, ficando em casa. Mas não fiquei despercebido. Foram encontrar-me exatamente na via dos meus desejos.

Se tantas pessoas souberam que eu estive no restaurante e tantas lojas comerciais sabiam dos meus interesses comerciais, tem alguma coisa estranha nisso tudo. No restaurante só havia duas mesas com pessoas. Mas foram muitos amigos que me viram. Vem à memória a imagem medieval dos tempos do Imperador Carlos Magno que nomeava algumas pessoas para serem os “olhos e ouvidos do Rei”. Esses funcionários percorriam todo o império e relatavam ao imperador tudo o que tinha visto e ouvido. Hoje estamos sendo vigiados por entes que funcionam como “olhos e ouvidos” do capital. Quem me viu no restaurante? Como tantas lojas ficaram sabendo do meu interesse em algum produto?

Somente eu não sabia que havia um sistema me vigiando e dizendo para os meus amigos que aquele restaurante poderia ser uma opção para eles também. Indicava até o mapa e a distância! Olha só! Através de mim, no meu modo escondido de agir, eu acabei fazendo uma grande propaganda para o dono do restaurante. E ele nem me agradeceu! Somente eu agradeci o grande favor que ele me concedeu ao permitir acesso ao Wi-Fi do seu negócio.

E após as procuras por mercadorias no Google e empresas interligadas nessa ferramenta, parece que todo mundo sabia das minhas necessidades, dos meus interesses, e começou a chover oferta de produto cada uma mais tentadora que outra. As ofertas até hoje não param de aparecer logo que tomo o celular (smarthphone) ou ligo o computador. Criamos um costume de acordar e logo olhar as horas no celular, ou ver se alguém enviou algum recado para a gente. E o que recebo imediatamente é imagem de algum produto do meu interesse, do meu desejo.

Esse cenário não é particular, mas envolve o mundo todo. A indústria virtual é a que mais prospera e se baseia da capacidade de extrair dados pessoais, interesses, desejos, mostrados em cada movimento, em cada perfil configurado, em cada busca de internet, em cada foto publicada, enfim, capacidade de se infiltrar em nossa vida prevendo futuros comportamentos, e vendendo tudo isso para os anunciantes de produtos. A grande vitrine da propaganda hoje é o nosso próprio perfil, construído por cada usuário de alguma rede social. Não apenas a tecnologia é capaz de prever comportamento, mas também de modificar os comportamentos humanos.

É assim que nasce o capitalismo da informação ou da vigilância. O controle das pessoas é feito de maneira bem sutil e isso é o que gera mais lucros. Não se refere a algum produto da tecnologia. Nós somos o produto a ser vendido. Somos produtos gratuitos. E achamos um grande favor obter a permissão de acesso ao Wi-Fi do restaurante.

O mundo está abrindo as portas para a internet 5G – quinta geração de rede de internet móvel – capaz de tornar tudo conectado como celular, automóveis, casas, geladeiras, máquinas de lavar, câmeras de segurança. Enfim, uma cidade conectada, também chamada de cidade inteligente, numa velocidade que vai de 10 a 20 vezes maior que a atual.

É nos supercomputadores que são armazenadas as informações sobre cada um de nós que está conectado. Esses supercomputadores serão o novo cérebro do mundo. Através de vários processos analíticos as informações não precisam estar explicitadas nos perfis, pois podem ser deduzidas com alta margem de segurança. E ainda mais: a possibilidade de se criar novos perfis, novos personagens, incluindo o que vem sendo chamado de robots.

Então até mesmo a prática política pode ser objeto de consumo, de previsão de comportamento e até de construção de uma realidade virtual capaz de modificar um cenário concreto. É o desastre da democracia!? É a sua sepultura? A ação das milícias virtuais dá a impressão de estarmos diante de uma multidão de pessoas. Na verdade, trata-se de uma multidão de perfis (muitas vezes falsos) que tem a força de mudar os comportamentos eleitorais. A propaganda eleitoral não depende mais tanto do tempo de rádio e TV.

Temos assim uma economia de vigilância onde cada um de nós se torna um “produto” a ser vendido. Ou seja, somos uma espécie de espaço geográfico onde se extraem as riquezas das empresas. Nasce aqui um dos maiores desafios dos tempos atuais dessa economia de vigilância: até onde é ético proceder dessa forma? As empresas de internet exploram nosso território pessoal levando para as usinas de inteligência artificial que fabricam previsões de comportamentos a serem vendidos para os clientes reais. Os novos mercados comportamentais geram a grande riqueza nesse capitalismo de vigilância.

Há uma revolução enorme no desenvolvimento econômico da humanidade. Não estamos conseguindo acompanhar e nossos sistemas educacionais tão pouco conseguem desenvolver uma certa consciência crítica para que as pessoas possam sobreviver nessa avalanche tecnológica. Não basta resistir decidindo não entrar nas redes. Se você for a um médico, você já estará conectado. E o mundo vai planejando como lidar com novas formas de doenças e como auferir lucros maiores na indústria farmacêutica.

Tenho a impressão que nosso maior e imediato compromisso como cidadãos é desenvolver padrões de comportamento ético que possam moldar essa cultura num mínimo de razoabilidade. Assim como na Revolução Industrial foi necessário um movimento ético em defesa dos operários, das mulheres e das crianças, resultando numa legislação trabalhista, agora também temos necessidade de estabelecer limites de ação desse capitalismo para preservar um mínimo de vida ética entre nós.

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