Construindo ponte com o hinduísmo

12 novembro, 2020

Edebrande Cavalieri

No dia 14 de novembro comemora-se na tradição religiosa hinduísta o “festival das luzes” do Deepavali, que significa “fileira de lâmpadas de óleo” recordando a vitória da luz sobre as trevas, da verdade sobre a mentira, da vida sobre a morte e do bem sobre o mal. Apesar de nos sentirmos tão distantes dessa religião, vemos que tais temas são bem conhecidos entre os cristãos. Os Evangelistas a eles se referem em diversos momentos.

A origem da festa Deepavali situa-se há centenas de anos antes da era cristã. E estava relacionada aos festivais da colheita, quando os primeiros frutos maduros surgiam. Os diversos sentidos da festa não são estranhos à fé cristã. Ao mesmo tempo na cultura hindu, nesses dias, é o momento de se vestir com roupas novas, comer doces e soltar fogos de artifício. Bem parecido com a nossa festa ocidental do Revéillon?! O fundo da festa é de alegria, de esperança, e de convivência pacífica e solidária.

Os festejos se prolongam por cinco dias e tem início na noite mais escura do ano, quando são acendidas as lâmpadas de argila com óleo, tendo como mensagem espiritual: “Venha, deixe-nos remover a escuridão da face da terra”. Em toda a Índia e outros países, inclusive no Nepal de tradição budista, se celebra essa grande festa da luz, da prosperidade, da abundância, da riqueza. O ocidente parece conhecer apenas o lucro do turismo dessa festa, mas ela tem um sentindo espiritual muito profundo.

O Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, do Vaticano, como tem feito ao longo dos últimos 25 anos, enviou uma Mensagem aos hinduístas convidando cristãos e hinduístas “a se unirem a todas as pessoas de boa vontade para construir uma cultura de positividade e esperança no coração de nossas sociedades, não apenas nestes dias difíceis, mas também no futuro que está por vir”.A mensagem traz como tema: “Cristãos e hindus – reacendamos um clima positivo e de esperança durante a pandemia da covid-19 e depois”.

Essa notícia foi veiculada pelo site Vatican News e compartilhado nas redes sociais. Após ler a notícia passei a ver os comentários das pessoas nas redes sociais e não apenas me chamou muito a atenção, mas me deixou profundamente angustiado. Fui verificar os sites dos diversos organismos da Igreja do Brasil, como CNBB, e redes católicas de comunicação, e vi que a notícia estava sendo assumida por esses organismos.

Mas qual o motivo de minha angústia? Entre tantos comentários elogiando a iniciativa do diálogo inter-religioso, vi também muitos comentários de pessoas que parecem católicas, afirmando que “a aproximação com as religiões não católicas está gerando um caos”, “ecumenismo não é coisa de Deus”, “diálogo inter-religioso não leva a nada”. Outros comentários são ainda muito piores, pois atacam o Papa Francisco de maneira desleal e despudorada.

Confesso que já ouvi inclusive padres afirmando que os católicos não devem se conduzir pela pauta do diálogo, pois as outras religiões não procedem da mesma forma. Para eles, trata-se de uma guerra e a fé cristã católica precisa se sobrepor às demais religiões ou credos.Esses ainda não chegaram ao Concílio Vaticano II.

Para muitos estamos numa guerra de religiões, inclusive pela ocupação do espaço público. E nisso vejo o maior perigo para a humanidade, pois conhecemos pela história tantas guerras fratricidas, tantas mortes, tanto sofrimento. O muro que divide as religiões precisa ser derrubado para a construção de pontes. Esse é o ensinamento do Magistério do Papa Francisco.

Diante daquelas ponderações e críticas, me vem muitas perguntas aos adversários do diálogo inter-religioso e do próprio Magistério da Igreja conduzida por Francisco. Que conhecimento desta festa os opositores ao diálogo inter-religioso possuem? Leram a mensagem do Pontifício Conselho?

Como provavelmente não devem ter lido nada, passo a apresentar de maneira bem sintética o que essa festa representa e quais os pontos principais da Mensagem do Pontifício Conselho. E assim podermos avaliar como seria possível a construção de pontes para uma vida de paz com os hinduístas.

Um dos críticos a essa Mensagem perguntava de maneira incisiva: “Como aqueles que não creem no verdadeiro Deus, que não receberam a graça do Espírito Santo pelo batismo, podem compartilhar da mesma esperança cristã? Ou os cristãos estão se deixando nutrir por uma esperança não cristã”?

Que inquietação complexa e honesta! Não duvido da sinceridade dessa pessoa. E gostaria muito que nas Igrejas os padres na hora da homilia fizessem uma explicação maior sobre essa questão. Muitos católicos têm insegurança e dúvida. A catequese não se completa com a Primeira Eucaristia, e essa preocupação reflete a incompletude do processo catequético. É preciso educar na fé permanentemente. Sem catequese permanente fica muito difícil se construir pontes.

Vamos ver como a Mensagem do Conselho ajudaria a essa pessoa.Com esses tempos de Pandemia que afetaram toda a humanidade, os homens não podem estar separados entre muros políticos, religiosos ou culturais. Todos temos o compromisso de “remover as nuvens do medo, da ansiedade e de todo receio e encher as mentes e os corações com a luz da amizade, da generosidade e da solidariedade”. O que haveria de errado nisso, unindo cristãos e hinduístas? Em que contraria o projeto de Deus para a humanidade? Em que a luta contra a mentira, contra a morte, contra o mal, contra as trevas, afetaria a fé cristã?  A remoção dos diversos tipos de escuridão do mundo me parece ser também uma tarefa cristã, pois está no Evangelho de Jesus Cristo.

O Conselho explicita o objetivo das Mensagens: “visam reconhecer, preservar e cultivar as coisas boas presentes nas duas tradições religiosas e em nossos patrimônios espirituais”. Trata-se de uma cooperação inter-religiosa para a promoção do bem das duas religiões e de toda a humanidade. E nesse momento de Pandemia, é preciso encorajar um “espírito positivo e esperança para o futuro, mesmo diante de obstáculos aparentemente intransponíveis, desafios socioeconômicos, políticos e espirituais e ansiedade, incerteza e medo generalizados”. Em outras palavras, cristãos e hinduístas estão num mesmo barco. A “esperança e o sentido de positividade correm o risco de se dissipar nas situações trágicas causadas pela pandemia”.

Voltando ainda às mensagens presentes nas redes sociais acusando e condenando o movimento católico em prol do Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso, podemos tecer alguns argumentos. As pessoas que atacam e agridem a Igreja e o Papa estão no caminho equivocado, pois lhes faltam a fidelidade requerida e o sentido da comunhão apostólica, essencial. São injustos e cruéis, e até perversos, pois sentem-se como os únicos merecedores da graça e da salvação de Deus.

Aos que apenas são contrários, poderíamos perguntar: já houve um tempo em que na Europa e na América predominava uma Igreja. Eram os tempos da Cristandade. Então, era de se esperar uma vivência profundamente cristã sem nenhuma prática contrária ao Evangelho. E não é isso que conhecemos da história. Como se explicam as Cruzadas, a Inquisição, o Cesaropapismo, a compra de cargos eclesiásticos, a venda das indulgências, a fogueira queimando mulheres, judeus e ciganos?

É preciso repensar a salvação. Que Deus poderia separar a humanidade somente a partir dos limites das paredes das nossas Igrejas? A tese de que “fora da Igreja não há salvação” foi totalmente reformulada pelo Concílio Vaticano II. É preciso ler a “Lumen Gentium”. E não falar bobagens ou fazendo uso político de argumentos belicosos e intolerantes.

Então, na construção de pontes e não de muros temos a direção do timoneiro desse barco, o Papa Francisco. Ele nos diz que é preciso construir essa ponte e fazer o “contágio da esperança”, com gestos de cuidado, afeto, gentileza e compaixão. Não poderia ignorar a Encíclica do Papa Bento XVI que tem por título “É na esperança que fomos salvos”. Por meio da esperança podemos enfrentar o nosso tempo tão difícil. E por que não uma ponte positiva unindo a fé cristã fundamentada na esperança com a tradição hinduísta da festa das luzes? A esperança torna-se o grande lumieiro da humanidade em seu conjunto nos dias que correm. Mais luz para esse mundo! Menos escuridão!

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