CORPUS CHRISTI: DEUS ENTRE NÓS

5 junho, 2023

Estamos diante de uma das festas mais fortes do catolicismo tanto em termos de conteúdo como de simbolismos. Tem crescido a prática de enfeitar as ruas, mas é muito pouco celebrar dessa forma apenas para “Deus passar”. O Papa Francisco nos diz que essa solenidade nos convida para sair e levar o Senhor para a vida cotidiana, entre as alegrias e os sofrimentos. Jamais poderia ser uma passagem de certa forma indiferente à realidade das ruas.

Historicamente falando essa devoção tem início com Santa Juliana de Mont Cornillon (1193-1258) que teve uma visão divina de solicitar à Igreja a inclusão de uma festa no calendário litúrgico para comemorar o sacramento da Eucaristia. Tem início na Bélgica e em 08 de setembro de 1264 o Papa Urbano IV decreta para toda a Igreja. Com o Concílio de Trento houve maior incentivo ainda para fazer frente ao movimento de Martinho Lutero que negava a transubstanciação.

É bom também registrar que nessa época a prática da comunhão eucarística era mais reservada para os momentos finais da vida. Daí a ideia da comunhão espiritual. Então a festa de Corpus Christi tem várias motivações e não apenas a devoção e adoração.

Na verdade, trata-se de uma festa devocional, pois a verdadeira festa da Eucaristia é aquela em que Jesus celebra a chamada última ceia com seus apóstolos, na quinta-feira santa. No Brasil essa festa foi trazida pelos portugueses; na região de Ouro Preto teve início a prática de enfeitar as ruas para a procissão realizada com muita pompa.

É muito significativo celebrar em forma de procissão a fé eucarística seguindo o ostensório com o Corpo de Cristo pelas ruas das cidades, não para ostentar, não para se mostrar ou fazer proselitismo. Conforme nos diz o Papa Francisco, “as procissões com o Santíssimo Sacramento, que nesta Solenidade acontecem em toda a Igreja Católica, são expressões de fé eucarística do povo santo de Deus”.

Quando o Papa São João Paulo II esteve na Catedral de Orvieto na Bélgica em 1990, lugar onde teve início esta festa, disse que “Jesus se converteu em nosso alimento espiritual para proclamar a soberana dignidade do homem, para reivindicar seus direitos e suas justas exigências”.

Então presenciamos nas procissões o Corpo de Cristo no meio de tantos outros corpos. Não é um corpo que fica indiferente aos sofrimentos daqueles que o acompanham. Trata-se de um corpo que nos convoca para a comunhão. “Porque não podes partir o Pão do domingo, se o teu coração estiver fechado aos irmãos. Não podes comer este Pão, se não deres o pão aos famintos. Não podes partilhar deste Pão, se não partilhas os sofrimentos de quem passa necessidade”, nos faz refletir o Papa Francisco.

Em toda a história da Igreja essa teologia sobre a Eucaristia é muito forte e presente. Diante do ostensório não estamos como se ali houvesse um objeto mágico que resolve nossos problemas. É nossa sede Deus que nos leva ao altar, que nos chama para a procissão. E nossa sede de Deus é sede de justiça, de vida, de comunhão, de paz.

No século IV, São João Crisóstomo fazia uma pergunta muito simples: “Você poderia me dizer como é que você é rico”? Na reflexão, ele dizia que cada um poderia buscar mil e uma explicação para a sua riqueza, o seu bem-estar. “Contudo você não consegue demonstrar que a sua riqueza seja justa. Não se pode negar que tudo começou com uma injustiça. Porque Deus no início não criou a um rico e a outro pobre. E não deixou que um descobrisse tesouros, ao passo que escondeu estes para outros. Deus deu a todos a mesma terra para ser cultivada. Deus distribuiu tudo a todos como se todos fossem irmãos dele”.

O Corpus Christi que celebramos nos convoca para a solidariedade entre os corpos todos no altar da vida. A Eucaristia nos leva à transformação de nossa realidade através do testemunho, da partilha, da solidariedade. Ao comungar o Corpo de Cristo estabelecemos um pacto, um compromisso com os corpos explorados, manipulados, usados, escravizados. Corpos famintos e desfigurados também caminham na procissão celebrativa. Somente assim a Eucaristia se torna fonte de Graça e de luz que ilumina os caminhos da vida, sustento nas dificuldades e conforto no sofrimento de cada dia.

Nessa festa renovamos a surpresa e a alegria pelo maravilhoso dom do Senhor que é a Eucaristia. O nosso “Amém” tantas vezes pronunciado nas celebrações deve expressar nossa gratidão ao Corpo de Cristo “para que o dinamismo de seu amor transforme a nossa vida em oferta pura e santa a Deus e para o bem de todos aqueles que encontramos no nosso caminho”, sintetiza o Papa Francisco. E quanto recebemos na comunhão o Corpo de Cristo e dissermos “Amém” que ele seja dito de maneira consciente, não mecânica, como concordância na força que recebemos para viver e partilhamos como pão de justiça e solidariedade.

Edebrande Cavalieri

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