DIA DE COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

20 janeiro, 2025

Dia 21 de janeiro foi instituído como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa através da Lei 11.635 de 2007. Esse dia traz como lembrança o sofrimento da Mãe Gilda, fundadora do Terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum em Salvador, BA. Ela teve sua casa e terreiro invadidos por um grupo de pessoas de outra religião. Lutou até a morte pela melhoria de sua comunidade, seu bairro.

Esse é um entre tantos episódios de intolerância religiosa no Brasil. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos, somente em 2023 houve 2.124 denúncias contra atos de intolerância. No primeiro semestre de 2024 houve 1.227, representando um aumento de 80%.  As religiões de matriz africana são as maiores vítimas, principalmente a Umbanda e o Candomblé. Contudo, volta e meia vemos notícias de depredação de lugares sagrados, objetos de culto e até profanação, relativos a outras denominações religiosas.

Podemos definir a intolerância em geral como falta de compreensão, aceitação ou habilidade para reconhecer e respeitar as diferenças de opinião, crenças, cultura, valores, sexo, contextos, etc. Trata-se de uma rejeição ao que é diferente, aversão às novidades, que resultam em violência, quase sempre.Tem crescido uma prática intencional de cunho político relativo à intolerância religiosa entre nós.

É um fenômeno que nasce do isolamento e da cultura do medo. Crises políticas e econômicas fortalecem grupos que defendem comportamentos intolerantes. Atualmente vivemos diversos tipos de crise, gerando medo e buscando culpados, que acabam se tornando bodes expiatórios.

As redes sociais deixaram as ações intolerantes mais evidentes. O perfil das pessoas que sofrem a intolerância religiosa são mulheres e negros em sua grande maioria. É nesse contexto que cresce o discurso de ódio que desqualifica, desumaniza, destrói grupos e pessoas.

A polarização que se desenvolveu a partir de 2017, chegando a níveis alarmantes, favoreceu muito o ambiente de intolerância religiosa. As redes sociais favorecem a polarização. Contudo, a aproximação entre a política e algumas Igrejas ou grupos religiosos, fundamentalistas, tem contribuído para o aumento deste tipo de violência. Em determinados momentos, parece-nos que estamos regredindo aos séculos passados das Guerras de Religião quando a terra foi coberta de sangue. A intolerância quase sempre leva à exclusão do diferente, do outro.

A questão da intolerância religiosa foi objeto de reflexão por parte de alguns filósofos. John Locke escreveu a “Carta sobre a tolerância” que vale a pena se lida e estudada, demarcando a separação entre os poderes civil e religioso. Para ele, a tolerância é um princípio limitador do papel dos indivíduos, do Estado e das instituições religiosas para o estabelecimento e manutenção da paz social, o respeito à liberdade de culto e o respeito às diferenças crenças.

Outro filósofo importante foi Voltaire que publicou o “Tratado sobre a tolerância”. Para ele a intolerância é uma intransigência das pessoas. Ao ser perguntado sobre o que é a tolerância, responde dizendo que era o “apanágio da humanidade. Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices”. Segundo esse filósofo, os gregos eram mais sábios e mais humanos que nós, pois chegaram a construir um altar ao Deus desconhecido. Já possuíam muitos deuses em seu panteão, mas também olharam para a existência de outros deuses dos povos estrangeiros. “A tolerância jamais suscitou guerra civil, enquanto a intolerância cobriu a terra de chacinas”.

O Papa Francisco nos diz que a liberdade religiosa é a valorização dos outros em suas diferenças. “Como é possível que hoje muitas minorias religiosas sofram discriminação ou perseguição? Numa sociedade altamente civilizada não cabe a perseguição de pessoas por professar publicamente sua fé. Isso não só é inaceitável, é desumano, é insano”.

Não se trata apenas da liberdade de culto. “A liberdade religiosa está ligada ao conceito de fraternidade, e para isso é essencial o respeito ao outro, a valorização em suas diferenças e o reconhecimento como verdadeiros irmãos. Está na hora de pararmos com a prática de demonização de outras religiões! Por outro lado, é necessário distinguirmos a esferas religiosa e política. Um Estado que perde sua estrutura laica, derrete a democracia e subverte o interesse público.

O Dia de Combate à Intolerância Religiosa deveria nos levar a uma reflexão profunda de nosso ser social e cidadão, e fortalecer nossa prática de fraternidade entre os diferentes e não apenas entre “os irmãos” da Igreja. Todos somos irmãos.

Edebrande Cavalieri

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