“DILEXIT NOS”, “DILEXI TE” – ELE NOS AMOU, EU TE AMEI

10 novembro, 2025

Duas Cartas Encíclicas dirigidas pelo Papa Francisco e Papa Leão XIV a todos os bispos da Igreja Católica e também a todos os fiéis. Como tocam na questão do amor do Sagrado Coração de Jesus e aos pobres, esse ensinamento pontifício deve repercutir em toda a humanidade.

O Papa Francisco, em outubro de 2024, publicou a Encíclica falando do amor que se expressa no Sagrado Coração de Jesus com a declaração “Ele nos amou”. Um ano depois, o Papa Leão XIV assume como herança outra Encíclica deixada ainda inconclusa pelo Papa Francisco considerando-a como sua. Gesto lindo entre dois Papas! Expressão da mesma fé que move a Igreja.

As duas Encíclicas fazem uso do verbo latino “deligere” sendo traduzido pelo verbo “amar” em português. Chama-nos a atenção que há outro verbo mais comum na língua latina para se referir ao nosso “amar”, que é “amare”. Então, porque a Igreja, na pessoa dos dois papas, prefere falar de amor com o verbo “deligere” e não “amare”? São duas expressões diferentes de amar?

O amor que brota do coração de Jesus não é qualquer amor, que pode ser encontrado em qualquer pessoa e em qualquer momento de paixão ou admiração. A Encíclica do Papa Francisco aponta um caminho para a Igreja que é aprofundar o amor ainda mais que reformar as estruturas. O Sagrado Coração nos chama à reparação em “ações e palavras de amor” e não ao choro de autopiedade.

Com o mesmo verbo “deligere”, o Papa Francisco parece manifestar a conclusão do caminho de amar e o Papa Leão XIV agora completa o ensinamento para toda a Igreja, tendo por objetivo levar a todos os cristãos a perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento para o amor aos pobres, a fim de nos tornarmos mais próximos deles.

Ele ressalta em sua primeira Carta Encíclica que os cristãos, muitas vezes, se deixam levar por atitudes e ideologias enganadoras que conduzem ao desprezo ou à ridicularização do exercício da caridade como se fosse coisa de “comunistas”. E nos diz que é preciso retomar à leitura do Evangelho para não o substituir pela mentalidade mundana. É preciso retornar ao núcleo incandescente da missão da Igreja. Esquecer os pobres nos leva a sair da corrente viva da Igreja que brota da Evangelho. A opção pelos pobres não é marxismo e nem ideologia. É Evangelho vivo.

O Papa Leão afirma, de maneira bem direta, que está convencido “de que a opção preferencial pelos pobres gera uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade”. Dificilmente, sem ouvir o clamor dos pobres, seremos capazes de nos libertar dos males da autorrefencialidade e do clericalismo.

O amor aos pobres e o amor do Sagrado Coração de Jesus são expressos como o mesmo verbo latino – deligere. Esse amor envolve uma escolha, uma alta consideração, profunda estima e apreço. É um amor muito mais profundo. Não é coisa emocional de momentos. O amor que Deus nos pede não é feito de momentos, de ações esporádicas. Ele nos envolve em nosso ser, nosso corpo, nossa alma e nosso espírito.

O mesmo verbo “deligere” está presente na palavra “diligente”. O que seria um amor diligente que nos coloca no mesmo movimento do amor do Sagrado Coração? É um amor que age com muito cuidado, muita dedicação. Nasce de um movimento de escolha consciente e se expressa como ação feita com esmero. Não é um amor que está presente numa esmola que se dá a um pedinte que encontramos na rua como se assim nos livrássemos de seu implorar. A caridade nasce e se expressa como amor diligente, que cuida, que escolhe com muita atenção.

A grande e urgente mensagem que as duas Encíclicas querem nos orientar na caminhada é: “Há um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres”, conclui o Papa Leão. Onde estão os pobres em nossa ação pastoral? Onde estão os pobres em nossas grandes manifestações religiosas?

Edebrande Cavalieri

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