Dom Dario: “Em Vitória foi a primeira vez que destacaram minha cor”

20 novembro, 2020

O Arcebispo de Vitória, dom Dario Campos, conversou com o site da Arquidiocese sobre o Dia da Consciência Negra e falou sobre sua surpresa ao ser mencionado pela mídia capixaba como o 1º arcebispo negro da Arquidiocese de Vitória. Segundo dom Dario essa foi a 1ªvez que ele foi tratado dessa forma. Confira a entrevista abaixo.

O senhor acha que o Brasil precisa de um dia para pensar a consciência negra?

Quando iniciamos essa busca de ter um dia para a consciência negra significa que há uma necessidade, que isso não está assumido plenamente pela sociedade, pelos irmãos e pelas irmãs. Há uma necessidade do negro de se expressar, falar do seu modo de agir, da sua cultura, do seu modo de ser, na sua arte, na sua religiosidade. O Dia da Consciência Negra é para despertar algo em nós, para que não fique adormecido aquilo que cada um traz, principalmente, no Brasil.

Sabemos que racismo é resultado de um momento histórico não superado. Como ou o que fazer para que as pessoas mudem essa memória coletiva?

Penso que a primeira coisa que deve ser dita é que todo o estudante, a começar no primário, mas toda a sociedade, deve ter em mente que o Brasil tem uma grande dívida com a África. Enquanto isso não for assimilado por toda a nossa população brasileira fica difícil. Tudo que o Brasil tem de construções: as estradas de ferro, os prédios,  e até as antigas colheitas de café, tudo foi feito pelos nossos irmãos negros. Eu penso que há uma dívida do Brasil para com a África que nunca será paga, e isso não se fala. Então uma maneira de superar é fazer com que nossos irmãos negros e negras ascendam com os estudos. Sem estudo não há ascensão.

E a Igreja, tem racismo na Igreja Católica?

Tem ou não tem é muito categórico. A vida religiosa veio quase toda da Europa. Quando aqui no Estado surgiu a Congregação das Irmãs de Jesus na Eucaristia, a fundadora disse, ‘agora nasce uma congregação genuinamente brasileira’, porque até ali todas eram europeias e a Europa trazia isso de não receber ninguém negro. A gente poderia dizer que a Igreja não recebia negros, mas as dioceses recebiam, quantos padres e santos negros nós temos? São muitos. Esta semana mesmo um santo vai ser canonizado em Três Corações (MG), temos bispos negros. Então não podemos dizer tem ou não tem, a questão é muito mais profunda. Por exemplo, o 1º frade negro na minha província (Província Franciscana) veio a entrar em 1970, mas nessa época não se levantava essa questão. Então, querer julgar a história de hoje comparando com o passado também é ser um pouco injusto e comparar o passado com hoje também é um pouco injusto. É complexo.

E hoje?

Hoje o problema não existe mais na Igreja é só ver quantos padres negros e seminaristas temos aqui.

O senhor passou por alguma situação constrangedora fora ou dentro da Igreja que possa nos contar?

Não. É muito interessante, mesmo depois que fui nomeado bispo eu sempre participei na CNBB do grupo dos bispos, padres e diáconos negros, mas os meus irmãos bispos brancos achavam que eu não deveria participar e perguntavam o que eu estava fazendo lá. Com a minha nomeação para Vitória é que essa situação do 1º arcebispo negro, saiu. Eu nunca tinha passado por isso, nunca me perguntaram sobre isso em todo o meu percorrer religioso, sacerdotal e episcopal. Aqui em Vitória é que isso veio. como coisa do outro mundo.

Na sua prática como padre, bispo e agora arcebispo, negritude, consciência negra é uma pauta de seu governo?

Não, de jeito nenhum, porque eu acho que a primeira coisa é que nós somos todos e todas filhos e filhas de Deus, independente da cor. Se temos negros que não fazem coisas direitas, temos também brancos. Acho que cabe a nós evangelizar sem querer priorizar. Agora se algo acontece de errado a um branco eu tenho que denunciar, se acontece algo de errado a um negro eu tenho que denunciar. Ele é filho e filha de Deus e o sangue que Jesus derramou na cruz, Ele derramou por mim, por você, por todos. Eu acho que temos que ter sempre essa consciência primeira no Brasil: não podemos esquecer da nossa irmã e mãe África, como o Movimento da Negritude chama ‘mãe África’. Nós temos uma dívida e temos que tentar pagar essa dívida, não sei quando, mas vamos ter que pagar.

Qual a mensagem do senhor para o Dia da Consciência Negra?

Que eles tenham liberdade de celebrar o seu canto, a sua dança, o seu modo de ser. Que esse modo de ser não seja um modo estranho para nós, para os brancos e que o modo de ser dos brancos não seja um modo de estranheza para os negros. Mas que a gente possa conviver na paz. Acho profunda a dimensão que o Papa Francisco coloca, principalmente, na última encíclica: somos todos irmãos, filhos de Deus.

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