Dom Luiz Mancilha: Missa de 7º Dia

30 agosto, 2022

Na noite festa segunda-feira, 29, nosso Seminário fez-se presente na Missa do sétimo dia do falecimento de Dom Luiz Mancilha Vilela, ss.cc, Arcebispo Emérito de nossa Arquidiocese.

Contando com a participação de vários padres, diáconos, religiosos e religiosas, seminaristas e leigos e leigas advindos de diversas paróquias de nossa Arquidiocese, a Celebração Eucarística foi presidida pelo Pe. Jorge Campos, Reitor de nossa Casa de formação e Vigário geral da Arquidiocese.

Após a Missa, Pe. Jorge procedeu, ainda, a benção da sepultura de Dom Luiz, na cripta da Catedral.

Homilia proferida na missa de sétimo dia de Dom Luiz Mancilha Vilela, SSCC

Prezados irmãos presbíteros, Religiosos, Religiosas, Diáconos, Seminaristas, amigos e familiares de Dom Luiz – querido Povo de Deus.

A palavra que me vem ao coração e que desejo refletir com vocês nessa Missa, in memorian, de nosso grande pai, amigo e irmão, Dom Luiz, é silêncio.

Encontrei essa palavra quando me preparava para cumprir essa importante solicitação feita pelo Senhor Arcebispo, Dom Dario, quando me encarregou de presidir essa Missa. Com carinho e reverência eu me vi diante do jazigo de Dom Luiz. E, ao faze-lo, senti em meu coração uma paz profunda, silêncio e calmaria; que inundaram meus sentidos ecoando em meu coração a Palavra de Deus, que nos consola e nos enche de esperança sobre os que partiram para a eternidade:
“A vida dos justos está nas mãos de Deus. Os insensatos pensavam que a partida dos justos do nosso meio era um aniquilamento, mas agora eles estão em paz” (Sb 3, 1.3).

Na verdade, essa calmaria, experimentada próximo ao túmulo de Dom Luiz, o qual se encontra na cripta dessa Catedral, aqui, bem perto de nós, é um misto de silêncio e palavra. Nesse silêncio ecoa especialmente uma palavra de Dom Luiz pronunciada com tanta altivez e força, escutada inúmeras vezes por todos nós: “sede santos!”. Sejam padres santos, sejam religiosos e religiosas santos e santas, sejam diáconos santos, sejam seminaristas santos, sejam todos, homens e mulheres, dispostos a viver a santidade.

Nesse silêncio de despedida e de partida estão gravadas em minha memória as suas palavras nos ensinando a pedir ao Pai santas vocações. Rezávamos com ele: “Senhor, renovai a Vossa Igreja fazendo surgir crianças, adolescentes e jovens dispostos a viver a santidade como consagrados e consagradas diante de Deus, no mundo e para o mundo. Santificai os Diáconos, Presbíteros e Bispos da Vossa Igreja! Concedei-nos a graça de uma renovação profunda de nosso clero, convocando discípulos missionários para o ministério sagrado”.

A palavra de Dom Luiz tem essa força para continuar a ecoar em nossos ouvidos e corações porque foi plantada e vivida por ele mesmo, com a Graça Divina, no silencio daquele coração que se deixava ser moldado e guiado pelos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.

Nesse momento de recolhimento, reverência e respeito com a morte e sepultura de nosso Arcebispo Emérito a atitude mais adequada para lhe prestar homenagens e rogar preces a Deus é o silêncio… silêncio… silêncio… Como ele mesmo pedia em muitos momentos quando presidia solenemente a Liturgia da Santa Missa. Silêncio…

Trago, para nos ajudar a refletir sobre o silêncio e sua importância e força evangelizadora, a palavra do Papa Emérito, Bento VXI. Ele escreveu, em 2012, uma mensagem para o 46º Dia Mundial das Comunicações sociais, intitulada “Silêncio e Palavra: Caminho de Evangelização”.

Para o Pontífice, “o silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo. O Deus da Revelação Bíblica fala também sem palavras: “Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu silêncio…. No silêncio da Cruz, fala a eloquência do amor de Deus vivido até ao dom supremo”.

Nesse sentido, o silêncio junto ao túmulo de nosso Arcebispo Emérito não é um silêncio mórbido: da desesperança e do fracasso diante da morte. É um silêncio que nos remete à memória das palavras, dos gestos e do testemunho de Dom Luiz.

Palavras e gestos que nos provocam a sair, após o luto, com forte ardor missionário, comprometidos com a urgente tarefa de evangelizar; de levar esperança aos desesperançados, de socorrer os milhões de irmãos a quem são negadas e roubadas suas necessidades básicas, como direito à alimentação. Há pessoas com fome na rua, no bairro, na cidade, no país em que habitamos.

Diante dessa realidade, certamente, Dom Luiz diria em alto e bom som nessa noite: “sejamos profetas! O mundo que Deus quer para seus filhos não comporta desigualdade, violência, fome miséria. Sejamos ‘timoneiros da esperança'”, como definia a si próprio.

Caríssimos, hoje celebramos o Martírio de São João Batista. O que a vida e a morte de São João Batista têm a nos ensinar sobre a fecundidade do silêncio e a força da Palavra? O que a morte de um profeta tem a nos ensinar sobre a morte de um sucessor dos apóstolos, um bispo?

Lembremo-nos de que João Batista viveu no deserto. Portanto, é homem do silêncio. O deserto é muito mais que um lugar geográfico. É uma categoria teológica, espiritual. Nessa categoria se insere a vida dos santos.

Não há itinerário para a formação de um santo no qual não esteja presente o deserto, lugar de passagem, de purificação da consciência, de busca do essencial, de superação das tentações e das experiências mais desoladoras. E, não obstante, é lugar também das ocasiões mais confortadoras.

O Senhor “no deserto fez descer pão do céu, o maná” (Ex 16,4) e “fez água sair de uma rocha para que o povo não perecesse” (Ex 17,6). Da boca de João Batista – esse homem formado no silêncio e na aridez do deserto, porta voz da Palavra de Deus – saia uma palavra forte que conclamava o povo à penitência, à conversão, à austeridade, à solidariedade, à mudança de vida e ao discernimento da consciência moral e da vontade de Deus.

Corajosamente, João Batista dirige-se a Herodes, chamando-lhe à atenção e não titubeia em dizer-lhe: “não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão” despertando-lhe o ódio. O Rei, instigado pela filha de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, degolou o profeta na prisão.

João Batista, ao cumprir sua missão, se une de forma antecipada ao Mistério da Paixão do Senhor. João é sepultado por seus discípulos e jaz no sepulcro. Aguarda silenciosamente o dia da ressurreição.

Dom Luiz, esse incansável operário da Messe do Senhor, depois de uma vida inteira oferecida a Deus, cuidando do rebanho a ele confiado, também jaz no sepulcro e aguarda silenciosamente a realização da promessa do Senhor. “Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (Jo 11,25-26).

Esse silêncio – o qual partilho com vocês – encontra sua expressão mais profunda no Sábado Santo; quando a Igreja celebra a sepultura do Senhor e recolhe-se silenciosamente aguardando a sua ressurreição.

Permitam-me compartilhar uma pequena parte dessa meditação presente no Ofício das Leituras do Sábado Santo; para mergulharmos mais intensamente no mistério do silêncio sagrado na morte de Cristo: diz o texto: “Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos”.

Como todos os que jazem no sepulcro, Dom Luiz aguarda o chamado do Senhor; que lhe tomará pela mão e lhe dirá: “Luiz, ‘acorda tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Saí! Vinde para a luz! Levantai-vos! Saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa'”. Assim seja. Amém!

Padre Jorge Campos Ramos.

 

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