Dom Luiz, um Arcebispo que teve pressa

30 agosto, 2022

No último dia 25/08, nosso Reitor, Padre Jorge Campos Ramos, presidiu uma das Santas Missas de exéquias de Dom Luiz Mancilha, às 6h, na Catedral Metropolitana.

Ainda nas primeiras horas da manhã de quinta-feira, os seminaristas e fiéis recitaram o Ofício Divino (Laudes) diante do féretro do Arcebispo Emérito.

 

A cerimônia foi marcada pelo silêncio, pela comoção dos presentes e pelo sentimento de saudades. Durante a homilia, Padre Jorge, proferiu as seguintes palavras:

Dom Luiz Mancilha Vilela, SSCC, um Arcebispo que teve pressa

Dom Luiz foi um Arcebispo que teve pressa. Pressa de quê? O que era sempre tão urgente? Para que tanta pressa?

Desde meu primeiro contato com a Palavra de Deus, sempre me chamou muito à atenção a passagem bíblica de Lucas: “Maria subiu apressadamente a uma região montanhosa da Judéia” (Lc 1,39). A pressa de Maria indica a urgência da chegada do tempo messiânico. Sinaliza para o fato de que “o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3,2), “completou-se o tempo” (Mc 1,15). Maria tem pressa para colaborar com a chegada do Reino de Deus.

Nos passos de Maria, Dom Luiz também não costumava deixar serviço para depois, para o amanhã. Para o Sr. Arcebispo, não existia o “depois eu faço” ou o “ veremos isso mais tarde”. Dom Luiz era um Bispo que nos desinstalava do comodismo e nos lançava urgentemente na Missão de Evangelizar.

Não obstante, é bom lembrar, não era um Arcebispo que ficava cobrando, interpelando insistentemente para saber se a missão havia ou não sido cumprida. Ele confiava em nós, seus colaboradores. E, geralmente dizia: “esta demanda está aos seus cuidados, não vou me preocupar mais com isso”. Também se mostrava bastante compreensivo quando, em nossas limitações ou nos entraves do caminho, não era possível resolver determinada situação ou demanda. Para ele, cada encontro era uma situação nova, mostrando que é preciso avançar diante dos desafios.

Às vezes, quando o encontrava na Cúria ele dizia: “Quero ir ao seminário falar com os seminaristas”. Então eu lhe perguntava: “quando o senhor deseja encontrar-se com os seminaristas”? Ele respondia: “hoje”. Simplesmente assim: “hoje”!

Sim, a pressa era uma constante na vida desse Arcebispo. Entretanto, em algumas ocasiões, pude perceber que Dom Luiz também cultivava o silêncio, a calmaria, a demora em deixar certos lugares e situações. Eram sempre, na medida do possível, solenes e bem vividos: os momentos de interioridade com Deus na capela, os momentos de partilha fraterna e de escuta aos Seminaristas no Seminário, entre outros.

Minha família reside em Afonso Cláudio, município do interior do Estado do Espírito Santo. Certa vez, dormi na casa de meu irmão e, no dia seguinte, devido a uma reunião marcada para as 8h com Dom Luiz, em Ponta Formosa, Vitória-ES, para não me atrasar devido ao trânsito intenso ao chegar na capital, saí de madrugada da casa de meu parente, fazendo uma viagem tranquila.

Cheguei ainda pela madrugada. Estava escuro em Vitória. Ao entrar na área dos jardins de Ponta Formosa, próximo à residência do Sr. Arcebispo, percebi que estava em um local que dá para ver o interior da capela na qual Dom Luiz rezava. Na ocasião, a janela estava aberta. Lá se encontrava o Sr. Arcebispo, sentado diante do Santíssimo Sacramento. Senti, naquele momento, que Dom Luiz, na verdade, apesar das muitas atividades em sua agenda, consegue criar oportunidade para estar a sós com o Senhor. Não presenciei aquela habitual pressa.

Também me chamavam à atenção as vezes que o via chegando na Cúria. Não subia para despachar em seu escritório sem, antes, fazer uma visita e silenciar diante do Santíssimo Sacramento. No atendimento aos padres também não percebia pressa, mesmo quando tinha de sacrificar seu horário de almoço.

Nas oportunidades em que pude estar com ele no Conselho Presbiteral jamais percebi pressa em avaliar e refletir superficialmente sobre qualquer assunto. Quando sentava com seus conselheiros no Conselho Presbiteral não havia pressa para terminar a reunião.

No Seminário Arquidiocesano, conversando com os Seminaristas, nas audiências promovidas, batia papo sobre assuntos diversos. Nessa oportunidade, assistíamos, ouvíamos, ficávamos próximos a um Pastor que tinha satisfação em sentar e dialogar, despreocupadamente e sem pressa, com os seus seminaristas.

Por fim, especialmente quando subia ao Altar para presidir a Santa Missa, Dom Luiz parecia transcender a todos os desafios e inúmeros problemas que faziam parte do cotidiano de um Arcebispo, mantinha-se calmo e sereno.

Conviver com Dom Luiz, para mim, foi aprender a equilibrar a urgência da Missão, com todas as suas prerrogativas e pressas em atender ao próprio Cristo na pessoa daqueles que estavam à nossa frente, com a constante necessidade de calma, de serenidade diante Daquele que nos chama ao Serviço; mas que também nos quer muito próximos e íntimos dele: Nosso Senhor Jesus Cristo.
Obrigado, Dom Luiz, por esses anos de convivência fraterna!

Pe. Jorge Campos Ramos

 

 

 

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