É PRECISO ESCUTAR A VOZ DO PASTOR

10 maio, 2022

“O Senhor é a Palavra do Pai e o cristão é ‘filho da escuta’, chamado a viver com a Palavra de Deus ao alcance da mão”. Essa afirmação foi proferida pelo Papa Francisco no segundo domingo de maio desse ano cujo Evangelho se refere a uma das imagens mais belas e ternas registradas por Jesus Cristo para mostrar como se dá a relação com Deus. A metáfora do “bom pastor” é profundamente significativa, mostrando toda preocupação de Deus com cada ovelha.

É bom também registrar que nessa metáfora se deduz que existem também pastores que não são bons ou completamente bons. São maus pastores. Aqui fica o desafio das ovelhas em reconhecer qual é o Bom Pastor para ser ouvido e seguido. Nenhum mau pastor traz escrito na testa o que ele é. Pode ser um lobo vestido de cordeiro.

O segundo desafio que se põe às ovelhas é como reconhecer a voz que chama: seria do bom ou do mau pastor? Uma diferença está naquilo que o Papa Francisco chama a atenção desde antes de ser escolhido pelo Colégio de Cardeais e se considera um grande mal na Igreja. Deus chama com a mediação de seus ministros. Porém, há aqueles que falam em nome de si mesmos, de maneira autorreferente. Todo ministro autêntico busca sempre chamar em nome de Deus. A iniciativa é sempre e toda de Deus. A comunhão a que somos chamados é com Deus e parte sempre da sua graça. Não é a lua que tem luz própria, mas o sol. A lua reflete sempre a luz do sol. Essa é a relação entre Deus e sua Igreja. Mistério da lua!

Como escutamos a voz do Bom Pastor? A voz de Deus? O mundo está congestionado de palavras. Informações de todos os lados. Notícias verdadeiras e muitas mentiras, muitas fake News. Onde encontraremos a voz de Deus? Como será que Deus se faz ouvir? Que atitudes a ovelha deveria ter para poder ouvir a voz do Pastor? Esse cenário é muito desafiador, confuso, e até desanimador algumas vezes. Imaginamos ouvir a voz do Senhor e nos enganamos, nos perdemos em tantos desvios, em tantos barulhos.

A atitude do ouvinte de Deus tem características bem marcantes. O Papa nos diz que a escuta do Bom Pastor requer disponibilidade, docilidade e tempo dedicado ao diálogo. Estar disponível é uma atitude de abertura completa e não apenas para algumas coisas. Além disso, a escuta requer eliminar a raiva, o ódio, a prepotência, a arrogância e outros males que a cultura atual tem incutido na mente e na vida das pessoas. A escuta de Deus requer uma purificação desses males, chegando ao que Francisco chama de docilidade. Também poderia ser a mansidão. E por fim, a disponibilidade para o diálogo. Francisco nos diz que se não soubermos ouvir o nosso irmão que vive ao nosso lado, convive conosco, com teto ou nas ruas, não teremos condições propícias para ouvir a voz de Deus.

Estamos sobrecarregados de palavras. Inflacionados. E temos muita pressa para estar sempre dizendo, falando, fazendo alguma coisa. Até parece que o silêncio seria a morte. Queremos curar nossas depressões com as palavras, falando pelos cotovelos. Adoecemos no barulho de nossas palavras. E pioramos ainda mais nos dias atuais produzindo palavras com nossos dedos, digitando desesperadamente nos celulares cada vez mais rapidamente. Esquecemos que há pessoas ao nosso lado, em torno da mesa, na própria casa. Estamos deixando de conviver com os presentes corporalmente, para falar com os dedos em grupos virtuais, nas redes sociais. Temos pavor do silêncio. Dormimos falando virtualmente, com o celular do nosso lado anunciando cada sinal de alguém distante na linha.

Então fica a pergunta: como essas ovelhas deixam espaço para Deus falar? Alguns dirão que indo à igreja aos domingos é que se deixa o Pastor chamar. Parece que as igrejas estão se transformando em “escutatório” único de nossas vidas. Deus nos chama em qualquer lugar, em qualquer horário. Na vida cotidiana Ele nos chama. Nas pastagens da vida é que encontramos o Bom Pastor. Muitas vezes, não são mais verdes pastagens, lindos rios. Tenho a impressão que estamos deixando Deus falando sozinho nas queimadas, nos desertos, nas ruas poluídas, nos rios desaparecidos, nos sem teto que moram nas ruas. Acreditamos que vamos encontrar Deus apenas em templos suntuosos.

O Pastor reconhece e conhece suas ovelhas. Nunca nos deixa sós. Contudo, o Papa questiona: “Eu me deixo ser conhecido pelo Senhor? Eu lhe abro espaço em minha vida, levo-lhe o que eu vivo?” Muitas vezes nos enganamos achando que estamos ouvindo a voz de Deus e na verdade estamos apenas ouvindo a nós mesmos. A perversidade humana impede o reconhecimento do outro, o reconhecimento de Deus, o reconhecimento do mundo. Vivemos juntos, amontoados nas cidades, nos prédios, mas vivemos sem os outros, sem Deus, sem o mundo.

Por fim, após ouvir a palavra do Bom Pastor, reconhecê-la, é preciso seguir. Quem escutar verdadeiramente e se descobrir verdadeiramente tem condições de seguir o Pastor. Seguir implica sempre ir para onde Ele for, na mesma direção, na mesma estrada. Muitos andam indicando desvios, atalhos, outros caminhos. E o Papa nos alerta mais uma vez: “Seguir significa interessar-se pelos que estão longe, carregar no coração a situação dos que sofrem, saber chorar com os que choram, estender a mão ao próximo, carregá-lo sobre os ombros”.

A Igreja do Brasil, através da CNBB, convoca os fiéis para a VI Semana Social Brasileira (2020-2023) com o tema Mutirão pela Vida: por Terra, Teto e Trabalho. Essa é uma convocação para toda a Igreja e se coloca de maneira concreta no contexto da reflexão trazida pelo Papa Francisco. O desafio atual é ouvir o grito da terra devastada, ouvir o grito de Deus nos rios poluídos, ouvir as pessoas que estão sem teto e perambulam pelas ruas; ouvir a voz dos milhões de desempregados ou subempregados. E nisso todos saberão que somos seus discípulos. Sem escutar a voz verdadeira do Pastor, a voz que clama a partir das periferias existenciais e geográficas, torna-se muito difícil esse reconhecimento de discípulos.

Edebrande Cavalieri

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