ECONOMIA DE FRANCISCO: DA CASA EM RUÍNAS À CASA COMUM

28 setembro, 2022

Depois de três anos de espera chega-se ao encerramento do grande encontro convocado pelo Papa Francisco direcionado aos jovens do mundo inteiro; de 120 países vieram para discutir uma nova economia sob a inspiração de Francisco de Assis. Por que os jovens foram convocados? Porque a geração adulta deixa uma herança triste e de muita dor, uma casa em ruínas com tantas guerras, tantos desmatamentos, uma economia que mata, um planeta desprotegido. A geração adulta deixou muitas riquezas, mas sem cuidado com o planeta, com as pessoas. Assim, o Papa Francisco convoca os jovens para se tornarem os artesãos e construtores da nova casa comum. Torna-se urgente construir uma nova economia, pois a atual está em ruínas.

A inspiração para esse movimento vem de São Francisco de Assis, que em 1205, ao rezar numa capelinha de São Damião na Itália ouve do Crucificado um chamado forte: “Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está em ruínas”. Daí em diante aquele jovem nunca mais foi o mesmo. Logo teve seus passos seguidos por outra jovem, Clara. Então dois jovens, Francisco e Clara, iniciaram um movimento que mudou tantas coisas na Igreja. Daí nasceu a inspiração para esse evento – economia de Clara e Francisco. Deve ser assim uma economia amiga da terra e uma economia da paz. Uma economia para a solidariedade dos homens entre si e dos homens com a natureza.

O chamado feito pelo Papa Francisco aos jovens não apenas visa reparar a casa que somos, a Igreja e suas reformas, mas também “ao meio ambiente, que tem necessidade de uma economia saudável e de um desenvolvimento sustentável que cure as nossas feridas”. Quanta dor sente o mundo com as queimadas criminosas, com a mineração ilegal, com a destruição das matas e dos rios!

É preciso construir um pacto ecológico integral como está bem definido na Encíclica Laudato Si’ e um pacto social como está proposto em Fratelli Tutti. A terra deixará de ser um lugar de ausências para se tornar uma casa de convívio solidário, comunitário. Se a geração adulta deixou tantas ruínas, o Papa confia aos jovens a tarefa de recriar uma nova maneira de ser, de viver e de fazer. Assis representa o ponto de convergência de jovens do mundo inteiro, conectados entre si, que buscam novas práticas no ambiente local, estadual, nacional e internacional.

Nesse encontro o Papa aponta em três direções a reconstrução da casa em ruínas: que os jovens olhem o mundo com os olhos dos mais pobres; que invistam em criar trabalho digno para todos; e que concretizem esses ideais para que se transformem em ação.

No encerramento do encontro o Papa Francisco firmou um Pacto com assinatura dos jovens em prol de uma economia a serviço das pessoas, das famílias e da vida, que respeite cada pessoa, homem, mulher, criança, idoso, especialmente os mais frágeis e vulneráveis.

Esse compromisso dos jovens necessita de imediato impactar o conjunto das sociedades, especialmente as escolas onde estão sendo formadas as futuras gerações. Sem uma educação para a reconstrução da casa comum não haverá um futuro de paz no mundo. É preciso estancar a sangria causada pelas destruições do ambiente e da sociedade. Ilusória é a economia que aposta no sucesso favorecendo a produção de armas de destruição e produtos que devastam o ambiente.

O chamado do Papa Francisco é direcionado aos jovens para que no exemplo do Francisco e Clara de Assis sejam os reconstrutores de uma nova casa, mesmo a partir das ruínas deixadas por seus pais, erguendo pontes e viadutos. No lugar da pólvora, o cuidado. Sobre o ódio, a ponte do amor. Do descarte e da indiferença deve brotar a dignidade em sua amplitude. De cada grupo discriminado, rejeitado, que se erga o mundo com pedras angulares. Pontes inúmeras interligando todas as culturas, todas as tradições, todos os povos. Que a ponte ética nas relações econômicas sirva assim como caminho para a transcendência. Espiritualidade com o jeito de Clara e Francisco!

Que a economia inspirada em Assis conduzida pelos jovens busque salvar a todos os que caíram pelo caminho, foram assaltados pelas tocaias traiçoeiras das pessoas que se acham com direito a tudo, inclusive o direito de roubar a vida dos outros. Então nessas novas relações haja trabalho digno para todos. Que os países do mundo inteiro, cada comunidade local, possa receber esses jovens construtores de pontes, reconstruindo a casa comum sobre as ruínas do chão onde maus pés pisaram e pisam cotidianamente.

Por fim, é preciso dizer que o mundo está na UTI. Urgência! É preciso começar imediatamente a reconstrução da casa comum. Fico a imaginar nesse momento um chamado aos jovens e crianças das comunidades eclesiais, das escolas da grande Vitória e do interior, para uma visita silenciosa e contemplativa na devastação provocada pelo incêndio na Reserva Paulo César Vinha, ocorrido há poucos dias.

O nome da reserva traz a lembrança do martírio dessa pessoa, assassinada aos 36 anos ali mesmo no parque porque denunciava crimes ambientais. Era colaborador do Greeanpeace e atuava na demarcação de terras indígenas em Aracruz. Paulo César foi morto porque estava “atrapalhando” a exploração de areia para a construção dos prédios da cidade.

Agora grande parte daquela reserva foi devastada pelo fogo impiedoso, criminoso (?). Tudo leva a crer que o início se deu em região próxima do Parque e com a seca o fogo se alastrou rapidamente. É preciso reconstruir a terra equivalente a 600 campos de futebol que ferveu em chamas. Muitas vidas se perderam nesse momento. Ali devem surgir pontes de solidariedade com o ambiente, com a vida. Uma economia inspirada em Assis não pode ficar indiferente às ruínas como essa, que estão pertinho de cada um de nós. Mãos às obras!

Edebrande Cavalieri

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