Em nome de Deus?

25 agosto, 2021

Depois de vinte anos de ocupação do Afeganistão, os Estados Unidos foram deixando esse país e imediatamente um movimento fundamentalista extremista em menos de um mês retomou o controle político da nação e impôs a lei da Sharia. Que norma é essa que está provocando uma fuga descontrolada de homens, mulheres e crianças que chegam a pular sobre os aviões caçando espaço para fugir do próprio país? Muitos nem voltaram para casa nesse dia. Parece que a lembrança do período entre 1996 e 2001 quando esse grupo governou com punhos de ferro o país não é das melhores.

A Sharia representa o sistema jurídico do Islã, extraído do Alcorão e de palavras de Maomé que viveu no século VII e alguns de seus sucessores. Portanto, essas leis nasceram de um contexto histórico e cultural de mais de mil anos atrás. Trata-se de um sistema ou da forma de sua aplicação concreta, que não acompanhou a evolução da humanidade, mas ficou petrificado no tempo. Não se espera que haja alguma possibilidade de o Talibã flexibilizar esse sistema jurídico adequando-o aos tempos atuais. Outros grupos fundamentalistas seguem esse mesmo caminho nos dias atuais em vários lugares.

Na verdade, existe ao redor do mundo vários países árabes que seguem com maior ou menor rigor a lei da Sharia, e também há diversos grupos na Europa, principalmente, vivendo em comunidades afastadas, que vão criando escolas e formando as novas gerações de acordo com essa lei. Meninos e meninas são educados de maneira separada, e desde novos aprendem a negar os valores da República e da Democracia política.

Os ideais de liberdade e igualdade, de direitos humanos, de convivência democrática numa pluralidade são queimados como verdadeiras heresias e seus defensores são eliminados em praça pública. O problema não é apenas o uso da burca pelas mulheres como se imaginou há tempos na França. Estamos diante de um contexto cultural bem distinto daquele que conhecemos no mundo ocidental herdeiro dos ideais da Revolução Francisca, iluminista e racional.

A educação das mulheres é praticamente nula no contexto do grupo Talibã. Elas são obrigadas a cobrirem todo o corpo com a burca; proibidas de assistir televisão, ir ao cinema e ouvir música. São confinadas em suas casas, pois para saírem precisam ser acompanhadas por um homem ou obter autorização de um ente masculino. As mulheres que desobedecerem poderão ser punidas severamente com apedrejamentos e mortes. São execuções públicas para que todos possam ver o destino de quem não seguir a lei. Serve de exemplo. Daí entende-se o desespero na fuga de afegãos de sua terra natal deixando tudo para trás e tentando sua sorte em países europeus como refugiados.

A sociedade como um todo também é enquadrada na lei da Sharia que inclui tudo. Não se conhece ou se aceita a separação entre Estado e Religião. Tudo é uma coisa só. Desconhece-se a figura do Estado laico. O fundamentalismo religioso ganha assim um poder extraordinário. As pessoas sob seu domínio devem seguir rigidamente as práticas diárias de orações, de jejum e de doações para os pobres que é uma espécie de dízimo entre os muçulmanos. Em geral, os espaços institucionais da sociedade são separados por gênero. As punições são severas como a amputação de partes do corpo de quem praticar roubos ou apedrejamento e morte no caso de mulheres que forem acusadas de adultério.

A ONU condena todo tipo de punição sob a forma de tortura, tratamento cruel, desumano e degradante. Mas isso parece não ser obedecido por grupos que seguem a Sharia de maneira radical. Há algumas reações no interior do próprio Islamismo para uma nova interpretação das leis oriundas dos tempos de Maomé, mas o movimento fundamentalista islâmico acredita que isso contraria a vontade de Allah (Deus).

Esse grupo tem origem no Egito com Said Qutb, que é o ideólogo da Irmandade Muçulmana. Suas características principais são a intolerância com os outros, com os diferentes de si, avesso ao capitalismo e ao socialismo, oposição radical ao imperialismo especialmente o norte-americano, contra o secularismo como governar o país baseada na Constituição e oposição às ideias progressistas. Esse grupo acredita que seu país será muito melhor se for governado tendo como guia o Livro Sagrado do Alcorão.

Ao mesmo tempo quem controla, o governo atual age combatendo todas as pessoas que não estiverem comprometidas com sua causa e para isso vão de porta em porta procurando cristãos, ou quem trabalhou ao lado dos americanos nesses vinte anos, por exemplo. Querem afastar o mundo islâmico de qualquer influência ocidental, considerando todos os elementos ideológicos e políticos do ocidente como decadentes.

No Afeganistão há menos de oito mil cristãos. Difícil saber, pois nem capelinhas há. Somente no interior da Embaixada Italiana há uma capela cristã. A Caritas, filial italiana, já comunicou que está fechando as portas. Em suma, terra arrasada.

Os relatos do que vem acontecendo no Afeganistão são de horror. Mulheres que trabalhavam em bancos e hospitais foram mandadas para casa com a recomendação de nunca mais retornarem a seus lugares de trabalho. As poucas jornalistas que ainda conseguem trabalhar, fazem tudo às escondidas. Temem não apenas perderem o lugar de trabalho, mas a própria vida.

Nesse ponto toda perspectiva fundamentalista é muito perigosa, pois transpõe de um passado distante e de culturas diferentes algum tipo de norma ou lei alegando ser a vontade de Deus, pois está escrito no Alcorão ou na Bíblia dizem seus adeptos. Os cristãos fundamentalistas também adotam o mesmo procedimento da interpretação literal dos textos bíblicos, fora dos contextos históricos e culturais em que foram escritos ou transmitidos pela tradição oral. É preciso reconhecer que tantas vezes ao longo da história os cristãos também mataram em nome de Deus, escravizaram em nome de Deus alegando que isso seria necessário para apagar as manchas dos pecados cometidos pelas gerações passadas.

Por fim, só me cabe perguntar: Que Deus é esse que impõe a dominação do homem sobre a mulher? Que Deus é esse que renega o mandamento do amor? Que vontade de Deus é essa que não se importa com tantas mortes? Ao mesmo tempo é preciso que cada um de nós não reduza o Islamismo, que compõe um terço da população mundial, a esse tipo fundamentalista. Em outro momento podemos e devemos mostrar a riqueza presente nessa tradição religiosa. Há tempos atrás fizemos uma pesquisa tentando descobrir o sentido que essa tradição conferia à prática do dízimo, conhecido como Zacat. Que riqueza de solidariedade pode-se ver nessa teologia, bem ao estilo do cuidado com a casa comum!

O Papa Francisco, em diversas oportunidades, fez questão de construir pontes abrindo o diálogo com os grandes líderes muçulmanos. Por esse motivo, as primeiras coisas que ele propôs nessa crise é a oração e a solidariedade com os refugiados e sofredores. E nos diz o Pontífice: “O diálogo inclusivo representa o instrumento mais poderoso para alcançar a paz”; e exorta a todos para “reconhecer e defender o respeito à dignidade humana e aos direitos fundamentais de cada pessoa, incluindo o direito à vida, à liberdade de religião, o direito à liberdade de ir e vir e de reunião pacífica”. E faz um apelo à comunidade internacional: “passar das declarações à ação”. Esse é o desejo de Deus para todos, é o desejo de Allah e não a violência e a morte.

Edebrande Cavalieri

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