ENCOLHIMENTO DAS FAMÍLIAS

30 junho, 2023

O Censo 2022 do IBGE começa a ser conhecido com a divulgação de alguns resultados e um dos primeiros dados que nos chama a atenção se refere à relação entre o número de pessoas e os domicílios. No Censo de 2010 o Estado do Espírito Santo apresentava uma média de 3,19 pessoas por habitação. Agora esse número cai para 2,13 numa população total de 3.833.486 habitantes.

Junto a esse dado, a taxa de crescimento anual da população brasileira é de 0,52%. Estamos diante da menor taxa de crescimento populacional. Isso significa que não se repõe nem mesmo o número atual da população. Estimava-se que a população do Brasil chegasse a 213 milhões de pessoas, mas na verdade chegamos apenas a 203 milhões. A taxa de crescimento decaiu de 1,17% em 2010 para 0,52%. A queda é muito grande para apenas dez anos. Ainda podemos destacar as maiores quedas que foram na região sudeste com 0,45% e nordeste com 0,24%. Apenas a região centro-oeste cresceu acima de 1% (1,23%).

Esse quadro pegou de surpresa os especialistas em geografia humana. Esses dados foram considerados inesperados e inusitados, mas são reveladores de muitas questões que deverão nortear nossos cuidados nas diversas ações de planejamento e educação. De maneira muito especial, esses dados deverão ser observados pelas lideranças religiosas que atuam com pastoral familiar.

Teremos uma tendência nas próximas décadas de redução da população brasileira. Ao mesmo tempo já podemos perceber a diminuição da população do Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Belém. Crescem, contudo, as cidades próximas a essas capitais. Trata-se de um dado muito significativo para os gestores de políticas públicas. Estamos criando cidades periféricas, municípios periféricos e não apenas periferias nas grandes cidades. Não apenas há um movimento populacional para cidades próximas como também uma reprodução dos mesmos problemas enfrentados nos grandes centros urbanos.

Com esses dados, vai desaparecendo aquela imagem de se entrar numa casa e encontrar muitas pessoas morando. Eram famílias com elevado número de filhos. Algumas questões podem ser feitas e refletidas e colocadas sobre a mesa de diversas organizações principalmente as Igrejas. Como iremos pensar a pastoral familiar nesse novo contexto social?

Cresce o número de casais que fizeram a opção de não ter filhos. Como então podemos pensar uma família com a ausência de filhos? Nem filhos adotivos estão presentes nessa nova configuração familiar. Vamos ter em breve uma sociedade envelhecida demais, numa espécie de desiquilíbrio habitacional. Teremos então a necessidade de pensar políticas públicas com os olhos voltados para essa sociedade de idosos.

Temos visto a preocupação da Igreja na pessoa do Papa Francisco com a presença dos avós e idosos nas famílias. Neste ano, a mensagem do Papa fazia referência ao texto bíblico – “De geração em geração, a sua misericórdia” (Lc 1, 50). Como dar-se-á doravante o desafio da continuidade geracional? Na história houve época próxima ao ano 1000 em que as pessoas escolhiam não se casar e nem ter filhos, pois compreendia-se que o fim do mundo estaria chegando. Foi preciso a Igreja mudar radicalmente sua ação pastoral junto à sociedade.

Morre-se sem deixar herdeiros, uma nova geração! Parece muita loucura pensar nisso, porém a pesquisa do IBGE serve para que olhemos com mais cuidado para a nova realidade habitacional que vai crescendo entre nós e não fiquemos com imagens de um tempo que não existe mais.

Outra questão que brota desse encolhimento familiar se refere ao fato de termos muitas residências com apenas um morador. Nem mais se fala em família a partir da moradia; cresce a configuração habitacional de uma pessoa isolada, vivendo na solidão cercada de paredes. Os quadros de doenças mentais decorrentes desse contexto são muito grandes e complexos. A solidão pode ter crescido muito entre nós. E junto com ela a amiga inseparável, a depressão. E nos casos mais graves a interdição da vida.

O que está levando as pessoas, os casais, as famílias a reduzirem o número de filhos, levando a essa situação de decrescimento populacional? Será que se trata apenas de uma escolha subjetiva, baseada num comodismo? Estamos atentos mesmo com a realidade social de nossas cidades? Ou estamos colocando a pobreza debaixo do tapete e olhando apenas a violência das armas de fogo atingindo prédios mais próximos?

Penso que devamos ampliar o horizonte de nossa análise desses dados demográficos. Há um conjunto de fatores que estão interferindo diretamente no modo de organização de nossa sociedade e sua geração. A crise econômica aliada com a dificuldade de mercado de trabalho tem afetado de maneira muito forte. As pessoas não estão encontrando emprego e quando conseguem o salário é muito pequeno. A maioria dos concursos públicos das prefeituras brasileiras não consegue oferecer nem dois salários mínimos para um profissional de nível superior. A maioria delas optam por processos seletivos, com rotatividade grande de empregados.

Outro impacto que afeta nosso quadro demográfico refere-se ao crescimento dos custos com educação dos filhos e com saúde. Os cenários de violência nas escolas com ataques pelo país causam muitos impactos na estrutura social familiar. Durante muito tempo desenvolveu-se uma narrativa que questionava o fato de se colocar filho no mundo sem as devidas condições socioeconômicas. Isso foi esvaziando o projeto de constituição familiar. A grande verdade agora é que as famílias encolheram.

A Igreja, sempre atenta à história, terá nesse novo cenário demográfico resultante da pesquisa do Censo 2022, pelo IBGE, o desafio de pensar um projeto pastoral afastando posturas românticas ou abstratas, desligadas da realidade concreta. O Papa Francisco no dia 30 de maio deste ano lançou o Pacto Global pela Família afirmando que “não podemos ficar indiferentes ao futuro da família”.

Nessa proposta ele aponta a necessidade de se aproveitar os estudos e pesquisas desenvolvidos principalmente nas universidades católicas a respeito das temáticas familiares em diálogo com o trabalho pastoral de modo a favorecer a cultura da família e da vida na sociedade. Tais estudos deveriam servir para ajudar as novas gerações em tempos de carestia de esperança a estimar o matrimônio, a vida familiar com seus recursos e desafios, a beleza de gerar e proteger a vida humana. E conclui sua mensagem no lançamento desse Pacto solicitando que se use de criatividade e confiança, ajudando a repor a família no coração do compromisso pastoral e social da Igreja.

Edebrande Cavalieri

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