Enfrentando a interrupção de vida

9 setembro, 2021

Estamos iniciando o mês de setembro com uma campanha na cor amarela que teve início em 2015 visando um dos maiores desafios da sociedade que é cuidar das pessoas para que não cheguem ao ponto final da vida antes da hora. Nossa cultura sempre olhou de maneira pejorativa para esse fato, remetendo quase sempre para a esfera da perdição e da falta de fé. Na verdade, perdem-se pessoas próximas, entes queridos, em pleno vigor da vida.

Segundo dados do Ministério da Saúde, a maior prevalência de casos notificados está na faixa etária entre 20 e 49 anos de idade. No geral, atinge todas as idades da vida. Entre os fatores que mais incidem no risco e favorecem a interrupção da vida são o uso abusivo de álcool e drogas em geral, presença de sofrimento psíquico especialmente a depressão, vulnerabilidade financeira e social. Há fatores situacionais como a pandemia que podem potencializar ações suicidas.

Deve-se também registrar que a Lei 13.819 de abril de 2019 instituiu a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio a ser implementada pela União, Estados e Municípios. Trata-se de uma política pública contendo nove objetivos, com destaque para a promoção da saúde mental e acesso à atenção psicossocial das pessoas em sofrimento psíquico agudo ou crônico.

Merece atenção também o último objetivo que prescreve a necessidade de promover a educação permanente de gestores e de profissionais de saúde em todos os níveis de atenção quanto ao sofrimento psíquico. No campo religioso também é fundamental preparar grupos de pessoas especializadas para o acolhimento das famílias e de quem sofre profundamente, sem julgamentos, sem rótulos, sem juízos do tipo “falta fé”. Cada espaço poderia enfrentar essa preparação sem preconceito, com coragem, de maneira respeitosa.

A Fiocruz lançou uma Cartilha sobre Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Pandemia Covid-19, com muitas informações, orientações e sugestões práticas para o enfrentamento. Sabe-se que 51% das mortes por suicídio aconteceram em casa, e nem a metade chegou aos serviços de saúde. Essa cartilha está disponível na internet.

Uma das melhores formas de enfrentamento é a criação de grupos de apoio. Temos muitas dificuldades para tratar dessa questão, muitos preconceitos alimentados na história especialmente formas equivocadas de agir que deveriam ser evitadas. Os especialistas apontam seis práticas que poderiam estar presentes em todos os espaços, escolas, Igrejas, associações, etc. Esses lugares poderiam assumir o papel de conscientização em vista de diminuir o estigma e prevenir o suicídio.

As campanhas como essa precisam ser mostradas e ganharem efetividade nas comunidades. A campanha setembro amarelo deveria ser refletida o ano inteiro, pois as situações acontecem a todo momento. E sua comunidade, paróquia, está fazendo alguma ação nessa direção? Ou iremos continuar alimentando aquelas expressões de brincadeira diante de alguém que está sendo convencido a desistir do ato de suicídio como tem acontecido em alguns lugares na grande Vitória com trânsito parado.

Temos que reconhecer nossa incapacidade de compreender um fato tão complexo e multifatorial como o suicídio. Daí ser fundamental a capacitação permanente para ensinar as pessoas e os profissionais como lidar e tratar do suicídio. Será que nossos líderes religiosos, padres, pastores, ministros, etc., recebem preparação para cuidar pastoralmente dessa realidade? É preciso competência para saber como usar esses conhecimentos adquiridos.

Por fim, é preciso superar o medo de falar sobre o suicídio, apresentado quase sempre como crime ou pecado. É comum as pessoas dizerem que alguém “cometeu suicídio”. Implicitamente essas pessoas estão mostrando o suicídio como pecado ou crime. Deveríamos sempre nos referir a alguém que morreu por suicídio e não como alguém que cometeu suicídio. Precisamos de muita conversa para incentivar o diálogo e a possibilidade de se falar abertamente. Não é nos silenciando ou fazendo piada que iremos combater essa prática.

Ainda uma última sugestão concreta. É preciso criar conexão entre as pessoas, especialmente nos núcleos familiares, nas instituições e comunidades. E para início de conversa, como seria bom se os grupos formados iniciassem uma conversa sobre esse assunto trazendo um psicólogo e um médico, especialmente psiquiatra!

É preciso passar do crime, do pecado, para o cuidado. Sabemos que o suicídio é complexo e se apresenta com diversos fatores que motivam. Mas isso não nos exime da responsabilidade de enfrentamento. Quando alguém interrompe sua vida temos a tendência de nos excluir por completo de qualquer responsabilidade nesse ato. Há, na verdade, um contexto que alimentou.

O suicídio nunca será um ato de coragem como se ouve muitas vezes nas rodas de conversas. E nem é a última saída. É a ausência completa de saída, de respostas aos desafios que enfrenta. Não se trata de ter muito ou pouco problema como geralmente avaliamos. Não temos a real dimensão do problema que o outro enfrenta. Para nós pode ser algo pequeno, mas para ele deve ser algo intransponível. A perda da vida por parte de alguém é sempre uma derrota para todos nós. Fomos incapazes de ajudar, de cuidar, de amar.

Edebrande Cavalieri

 

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