“EU ME RENDI A DEUS”

11 dezembro, 2025

De volta para o Vaticano, vindo de sua primeira Viagem Apostólica à Turquia e ao Líbano, o encontro com 81 jornalistas no mesmo avião foi o momento do Papa Leão XIV responder a diversas perguntas. Algumas muito intrigantes. Mas, sempre respeitosas e de muita admiração pelo novo Pontífice. Uma das questões se referia aos bastidores do conclave que o elegeu.

O Papa Leão, então, disse: “Eu pensava em me aposentar, mas em vez disso me rendi a Deus”. De fato, depois de tantos anos como missionário no Peru, ocupando cargos de Prior e Provincial da Ordem de Santo Agostinho, escolhido bispo da Diocese de Chiclayo também no Peru em 2014 e chamado à Roma em 2023 para ajudar o Papa Francisco na Congregação dos Bispos, agora atingindo os 70 anos de idade, realmente em termos humanos pode-se afirmar que a aposentadoria é o horizonte mais próximo. Mais cinco anos ele seria Bispo emérito e estaria vivendo numa casa para descanso.

Porém, “tudo está nas mãos de Deus”. Chegar a este momento é dos mais desafiadores para qualquer pessoa. Implica em uma “oração permanente e espiritualidade profunda onde simplesmente entregamos nossa vida ao Senhor e permitimos que Ele nos guie”. Ainda esclarece aos jornalistas que naquele momento do Conclave, vendo como estavam as coisas e as votações com seu nome elevando-se a cada votação, disse que respirou fundo e respondeu ao Senhor: “Eis-me aqui, Senhor. Tu és o chefe, Tu guias o caminho”.

Render a Deus! Estamos diante de uma dinâmica central da vida cristã, característica dos grandes mestres da espiritualidade e da mística cristã. Santa Teresa d’Ávila dizia que “aquele que deixa tudo nas mãos de Deus, em breve verá as mãos de Deus em tudo”. Outra grande Santa e mística, Edith Stein, martirizada em campos de concentração nazista, seguiu esse mesmo caminho. Para ela, o ser do homem que descobre o seu “nada”, o seu vazio, percebe que não se pode dar a vida a si mesmo, a qual lhe é dada continuamente.

Trata-se de um caminho bem oposto àquele com o qual nos formamos na sociedade e nas escolas da vida. Somos “catequisados”, não para a entrega total de si, mas para a construção de nossos projetos pessoais de emprego e sucesso financeiro. Até mesmo em algumas igrejas se prega esse caminho de prosperidade material a partir da fé. Somos educados a buscar respostas para os desafios do mundo, a ter controle de nossas atividades e de nosso tempo e a confiar nos resultados materiais.

Há poucos dias nossos jovens realizaram a prova do ENEM. O que ronda a cabeça desses estudantes? Geralmente, a definição de uma vocação, uma escolha profissional, que represente sucesso financeiro e status social. Quando um jovem se rebela contra essa imposição social parece que o mundo vai acabar em seu entorno. A vocação é pensada apenas na dimensão material. Nunca suspeitamos que Deus sempre nos chama. Como ouvir a voz de Deus se nossos ouvidos estão repletos de outros chamados, outras vozes?

O Papa Leão XIV adiantou que, se alguém quiser conhecer seu caminho espiritual, basta percorrer o livro do Irmão Lawrence – A prática da presença de Deus – onde se apresenta um caminho espiritual marcado pela beleza da simplicidade no cotidiano. A forma de caminhar continuamente com Deus não nasce de uma atitude da cabeça, mas a partir do coração. Qualquer pessoa, independentemente da idade e das circunstâncias da vida, pode praticar este caminho que leva a conhecer a paz e a presença de Deus.

Render-se à vontade de Deus implica em reduzir nosso apego tão radical aos nossos projetos pessoais. Mesmo na vida eclesiástica, há muitos líderes religiosos que estão mais apegados ao sucesso religioso que à entrega às mãos de Deus. A experiência do conclave na eleição do Papa nos mostra um certo conflito entre os projetos pessoais de pontificado e a proposta de Deus, que é o caminho mais seguro para a sua Igreja. Muitas vezes, na história, os homens venceram a vontade de Deus, mas Ele nunca desistiu de nós.

Percorrendo sua história de vida, olhando fotos e vestimentas usadas como padre e bispo, e agora sete meses de Pontificado, podemos resumir em duas palavras: humildade e serviço. Este é o segredo do caminho espiritual que lhe permite dizer: “eu me rendi à Deus”. E nossa oração é na intenção de que o mesmo Deus conduza cada passo seu guiando a Barca de Pedro.

Edebrande Cavalieri

Compartilhe:

VÍDEOS

Nenhum evento encontrado!

Facebook