FORMAÇÃO LITÚRGICA EM VILA VELHA

19 setembro, 2023

Na noite da última segunda-feira (18), mais de 500 fiéis se reuniram para dar início a Formação Litúrgica da Área Pastoral Vila Velha. Neste ano, o encontro acontece na Comunidade Matriz da Paróquia Santa Mãe de Deus – Ibes, nos dias 18, 19 e 20 de setembro.

A formação tem como tema “3ª Edição Típica do Missal Romano”, e apresenta a seguinte programação de estudo: Para o primeiro dia “Resgate histórico a partir do Concílio Vaticano II”; no segundo dia, será abordado sobre “Introdução e atualização na terceira Edição do Missal Romano”; o terceiro e último dia tratará sobre as “Inclusões de orações e Novas formas de suscitar a aclamação memorial”.

A assessoria do encontro está por conta do Padre Márcio Pimentel, que gentilmente nos concedeu uma entrevista. Confira, na íntegra, a seguir: 

Pascom: Na noite de ontem (18), o senhor iniciou o encontro ressaltando a quantidade significativa de pessoas presentes. Qual a importância de momentos formativos como esse?

Pe. Márcio Pimentel: A reforma litúrgica requerida pelo Concílio Vaticano II (re)propôs à Igreja inteira de rito romano o contato com as fontes da Revelação. Neste sentido, a formação litúrgica é indispensável, de modo que torne competentes todos os fiéis para que tenham acesso a esta fonte do Evangelho que é a Liturgia mesma, como coluna da Tradição juntamente com as Escrituras Sagradas e os padres da Igreja. Para que tenham este contato e desfrutem dele através do próprio ato celebrativo e se deixem formar por ele, não só no sentido de serem “educados”, mas transformados. A Constituição litúrgica antes mesmo de traçar as normas da reforma, se exprime sobre o lugar que uma adequada formação deve ter no processo.

Pascom: Sobre a 3ª Edição Típica do Missal Romano, quais são as principais mudanças que poderão ser observadas?

Pe. Márcio Pimentel: Falar em mudanças na terceira edição típica terá que esperar um pouco, pois necessitamos do Missal em mãos para percebê-las. O livro litúrgico não “contém” a Liturgia, mas guarda a preciosidade de uma tradição bimilenar na forma de um “programa”. A Liturgia não está nos livros, mas no sujeito eclesial, na comunidade cristã concreta que celebra.

Neste sentido, “novidades” as encontraremos certamente não tanto nos textos mas nos resultados do adequado emprego do Missal. O que podemos antecipar é que o livro litúrgico que está prestes a ser “lançado” oficialmente pela CNBB no próximo dia 19, não é um livro “novo”. É a tradução da terceira edição típica do Missal Romano que foi primeiramente promulgado em 1970 (primeira edição), em seguida, com revisões e acréscimos em 1975 (segunda edição) e finalmente, em 2002, a terceira edição à qual estamos nos referindo, agora traduzida para o uso do povo brasileiro, em língua portuguesa. A grande novidade veio em 1969 com a Instrução Geral do Missal Romano e em 1970 com a publicação do sacramentário e do ordinário. Mas não se pode negar que a terceira edição traz novidades pontuais, por exemplo: as orações sobre o povo para o tempo da Quaresma, que estarão disponíveis para que as empreguemos em nossas celebrações muito em breve.

No entanto, estas “novidades” nos chegam pela tradução, pois já estão lá há 20 anos quando a terceira edição típica, em latim, tornou-se disponível às Conferências Episcopais para seu trabalho de tradução. Evidentemente, ao traduzir os textos do Missal, há elementos novos que aparecerão, pois todos os textos foram retomados à luz de diretivas que não existiam antes de 1991, quando a segunda edição foi traduzida para o Brasil. Então, encontraremos diferenças interessantes, ricas até, que poderão ser aos poucos estudadas. Mas é bom ressaltar que não é um “novo Missal”, mas se trata do Missal Romano que foi promulgado por São Pio V em 1570, após a reforma (muito limitada, inclusive) por ordem do Concilio de  Concilio de Trento, que recebeu modificações com os passar do tempo até a última  em 1962 por São João XXIII; este mesmo Missal Foi completamente revisto por ordem do Concílio Vaticano II, mediante a Constituição litúrgica Sacrosanctum Concilium que trazia já em seu bojo não só orientações concretas para a reforma posterior, mas apontava elementos rituais a serem reconsiderados, mudanças a se observar, “novidades” a se implementar no intuito de recuperar a integridade da Tradição celebrativa da Igreja latina que, em parte, havia sido esquecida (e às vezes, perdida). 

É este mesmo Missal completamente reformado que foi promulgado pela Santa Sé em 1969 (a IGMR) e em 1970 (O “sacramentário” e “ordo”), seguido aos poucos dos outros elementos (Lecionário, Evangeliário, Gradual, etc.). É este mesmo livro que foi modificado em algumas partes, com acréscimos ou correções, publicado em 2002, feitos ainda alguns ajustes em 2008, que agora temos à disposição em português do Brasil.

Pascom: De modo geral, o senhor acredita que haverá alguma dificuldade para adaptação?

Pe. Márcio Pimentel: A maior dificuldade de adaptação talvez se dê por dois motivos: a) acesso restrito a uma formação adequada; b) a difusão de inverdades sobre o Missal do Concílio Vaticano II nas mídias sociais, que distorcem as razões e decisões do Concílio e desacreditam a reforma litúrgica. Este último ponto é o mais complexo, já que a tarefa formativa em relação à Liturgia é, em primeiro lugar, da Conferência Epicopal Nacional e do Bispo Diocesano  que em comunhão com a Santa Sé e por meio dos organismos de sua Igreja Local (comissões diocesanas, a Pastoral Litúrgica, os seminários e institutos teológicos) oferece os itinerário de educação litúrgica; esta tarefa foi “sequestrada” por padres e leigos que são muito mais “influencers” digitais que evangelizadores, mais confundem que ajudam.

Considero ainda que há um terceiro motivo que pode dificultar, e este está ligado à nossa dificuldade com a ação ritual tal e qual proposta pelo Concílio: está na origem da fé eclesial, não pertence ao clero mas a todo o povo de Deus reunido em assembleia celebrante, pois a Igreja é uma comunidade sacerdotal.

Pascom: O senhor considera que as adaptações realizadas na nova edição foram positivas? 

Pe. Márcio Pimentel: Se estivermos falando da edição típica latina de 2002, há muita coisa positiva, mas há a intromissão ideológica de elementos que confundem. Não é possível descrever estes casos aqui, mas basta pensar na gestualidade – por exemplo – que se tornou elemento de discórdia nas comunidades e não de unidade concreta da assembleia celebrante, como se propõe no Missal. Isso graças a inserção de possibilidades gestuais direcionadas a aqueles que estavam apegados à forma ritual anterior ao Concílio, e que as gerações mais jovens de fiéis influenciados ideologicamente, por movimentos tradicionalistas, foram levados a assumir: por exemplo, ajoelhar-se durante toda a Oração Eucarística, não erguer as mãos para a Oração Dominical. 

Existem imprecisões na IGMR [cita-se a Instrução Geral do Missal Romano], que os estudiosos especialistas desde 2002 têm se ocupado de averiguar, discutir. Há também acréscimos em relação à Instrução anterior que a aproximam mais do chamado “ritus servandus” pré-conciliar (era uma introdução ao Missal com uma série de normativas e prescrições rubricais das quais o padre/bispo deveria servir-se para garantir sobretudo a validade da celebração e um correto estado de espírito) e menos o “ritus celebrandus” do pós-concílio (um documento teológico-pastoral, com finalidade de introduzir mistagogicamente na celebração e ajudar a constituir um adequado ethos celebrativo).

Mas, sim, há muita coisa boa e que a tradução portuguesa certamente dá valor. Não sei até que ponto a nossa tradução responderá aos desafios da terceira edição típica, naqueles elementos que, conforme disse, são às vezes ambíguos e necessitam ser melhor precisados e mesmo implementados de acordo com a realidade do país. As conferências episcopais têm autoridade sobre muitos aspectos no que tange à tradução, sobretudo depois do Motu Proprio Magnum Principium, mas não é uma tarefa simples. Por exemplo, na Itália, desde a tradução da segunda edição típica e a terceira melhorou ainda mais, os bispos italianos recomendam explicitamente que os fiéis ergam os braços durante a Oração Dominical, o Pai Nosso. Na tradução brasileira, temos um acréscimo em relação à monição, que convida a assembleia a erguer as mãos, mas não temos – como no caso do Missal italiano – uma normativa própria e a decorrente rubrica. Mas o caminho está só começando e há muitas portas abertas para que retomemos, depois de um pequeno inverno, a primavera conciliar que se exprime no Missal que floresce agora na tradução portuguesa para o nosso país.

Pascom: Deixe, por gentileza, uma mensagem aos fiéis que dedicam tempo para a formação e também para aqueles que irão se atualizar sobre o tema.

Pe. Márcio Pimentel: Minha mensagem para os fiéis é que se deixem encantar pela tradução da terceira edição típica do Missal. Procurem os organismos oficiais de suas Dioceses e a Conferência Episcopal para certificarem-se do modo mais adequado de formação litúrgica; busquem profissionais da área da teologia – em especial liturgistas e sacramentólogos – que tens instrumentos adequados para uma correta e mais rica apreciação do livro litúrgico e podem oferecer formação substanciosa. Sobretudo: valorizem a Pastoral Litúrgica que, na Diocese com suas paróquias e comunidades, é a primeira responsável pela formação litúrgica do povo.


SOBRE O ASSESSOR

Márcio Pimentel, presbítero da Arquidiocese de Belo Horizonte, é mestre em teologia na área de sacramentos pela FAJE, atualmente doutorando em Liturgia pelo Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua (Santa Giustina); possui licenciatura em Música (UEMG) e especialização em Liturgia e Cultura, em Antropologia e em Música Ritual. É membro da Rede Celebra de Animação Liturgia.

Veja, a seguir, alguns registros da primeira noite de formação:

 

Texto: Renann Siqueira

Fotos: Área Pastoral Vila Velha

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