FUNDAMENTOS DO ATO DE EDUCAR

3 fevereiro, 2022

Estamos novamente diante de uma Campanha da Fraternidade que toma o tema da educação como um dos modos de vivermos a espiritualidade quaresmal, conforme nos relatam em diversos lugares as Sagradas Escrituras. Muitas pessoas acham que a espiritualidade do tempo de quaresma deva ser baseada naquele modo penitencialista de um catolicismo tradicional e devocional. Em Isaías 58, Deus nos diz que espécie de jejum Ele quer e elenca uma realidade que deve ser mudada.

Então Deus nos pede que esse jejum esteja em sintonia com a libertação dos prisioneiros, da retirada do jugo que é imposto sobre as pessoas, que se libertem os oprimidos, que se partilhe a comida, que se dê vestimenta aos nus, que se pare de oprimir os fracos, que se abandone a falsidade, que se pare de espalhar mentiras, que se dê comida aos famintos. Tudo isso encontramos em diversos lugares nas pregações de Jesus Cristo conforme nos descreve o Novo Testamento.

Em razão disso, a Campanha da Fraternidade que se inicia ainda nos tempos do Concílio Vaticano II, em 1964, cujo primeiro tema foi “Lembre-se: você é Igreja”, nos convoca para um despertar de solidariedade durante o tempo da quaresma e assim melhor celebrar a Paixão e Morte de Jesus Cristo. A cada ano, a Igreja Católica nos coloca um tema mais específico para a prática concreta dessa espiritualidade. Como temos observado nos últimos anos, o caminho apontado pelos temas está na luta por políticas públicas.

Em sintonia com o Magistério do Papa Francisco que nos convoca para um Pacto Educativo Global e diante dos estragos provocados pela pandemia da Covid no setor da educação, esse tema reaparece focando dimensões mais concretas da vida escolar nos diversos níveis do ensino, e também aprofundando a questão de modo a incluir todas as instâncias envolvidas na educação de uma nova sociedade. Portanto, todos estamos envolvidos e implicados e não apenas a escola, sobre quem recai grande parte de nossas cobranças educacionais.

Aqui gostaríamos de refletir sobre o que constitui o ato de educar, tantas vezes discutido tanto nas escolas como na própria Igreja. E dois modos ficam bem evidentes. Há um modo tradicional que fora adotado pelos escribas e fariseus dos tempos de Jesus que partiam daquilo que estava escrito na Lei. Era a partir da Lei que se impunha um modo de conduta, uma educação para todo o povo. Para essa pedagogia a educação é dada a partir de cima para baixo, da autoridade de quem ensina. Educador e educando estariam em posições distintas. Ao educando caberia apenas submeter-se ao que era ditado pelos professores da Lei.

Contudo Jesus em toda a sua vida pública e especialmente na cena da mulher pega em adultério e levada para que o mestre se pronunciasse sobre o que deveria ser feito a ela nos mostra outro modo de educar. Estamos diante de uma grande cena pedagógica, um grande ambiente educativo. Os acusadores da mulher usavam o recurso da Lei que deveria ser aplicada e, portanto, aquela mulher deveria ser apedrejada. Diríamos que Jesus estava diante de uma “fria”, “se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come”.

Quantas vezes pais, professores, e demais agentes da educação ficam diante de situações semelhantes, embaraçosas. Jesus, vendo a arapuca em que estavam querendo colocá-lo, não diz nada e começa a escrever no chão. Levanta os olhos e diz: “Quem não tiver nenhum pecado, atire a primeira pedra”. E volta a escrever no chão em silêncio. Ao levantar novamente os olhos, percebe que apenas ele e a mulher ali permanecem. E dá-lhe a palavra para que fale. Ela não tinha direito a isso, mas Jesus lhe restitui o poder da palavra. E lhe pergunta sobre onde estão os que queriam apedrejá-la. Ela responde que todos se foram. Então Jesus lhe diz que ele também não a condenaria, e que daqui em diante ela deveria ir e não pecar mais.

Esta cena pedagógica reflete o fundamento do ato de educar. Jesus foi ao longo de sua vida o grande mestre, o grande educador de seus discípulos. Alguns elementos desse ato são essenciais. Antes de tudo é preciso haver proximidade entre educador e educando, postos no mesmo plano, em condições de se estabelecer um diálogo entre eles, e entre aqueles que adotam outra postura pedagógica. Nunca haverá diálogo quando impera o domínio de um sobre o outro. Portanto, jamais haveria uma educação transformadora nas condições de dominação. Teríamos apenas uma educação bancária, como nos dizia Paulo Freire.

Outra dimensão fundamental para uma educação transformadora é a restauração do direito à palavra. Jesus faz com que a mulher adúltera seja dona de sua palavra. Uma pessoa silenciada é uma pessoa dominada. Jesus faz com que ela fale. Não haveria educação transformadora no silenciamento das pessoas. Jesus ouve seus acusadores e suas razões, mas não deixa de ouvir a mulher ali prostrada em sua frente. Colocar-se na posição de escuta é elemento chave para que o outro retome sua palavra. Ele precisa ser ouvido.

Dessa forma podemos concluir como a educação cristã irá sempre remeter à superação do pecado, à transformação da realidade, à superação da injustiça. O chão sobre o qual se apoia a pedagogia de Jesus é a misericórdia. Não haverá outro caminho de superação do pecado a não ser por essa via. Então poderemos ter uma pedagogia misericordiosa nas famílias, nas escolas, nas Igrejas, na sociedade em geral. E assim podemos antever uma nova sociedade. Enquanto famílias e escolas forem apenas reprodutoras dos mecanismos de dominação não teremos uma nova sociedade.

Edebrande Cavalieri

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