GERAÇÃO PERDIDA

21 setembro, 2022

Pesquisa encomendada pelo Fundo da Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e realizada pelo IPEC divulgada no dia 15 de setembro passado traz dados alarmantes a respeito da situação de nossa juventude (brasileira) compreendida entre 11 e 19 anos. São mais de dois milhões desses jovens que evadiram da escola nos últimos anos sem ter concluído a educação básica. Representam um quadro sombrio diante do futuro e nesses tempos de eleição deveria ser objeto do olhar mais responsável por aqueles que pleiteiam um cargo político.

Ao olharmos os motivos pelos quais esses jovens abandonaram a escola verificamos que 48% deles deixaram de frequentam as aulas porque precisam trabalhar fora. Nesse caso buscam qualquer atividade que possa contribuir para acrescentar a renda necessária da família para a sobrevivência, inclusive pedindo dinheiro nos sinais e nas ruas. Outro motivo do abandono representando 30% é a dificuldade em acompanhar as explicações dadas pelos professores e a realização de atividades em casa. Logo abaixo vamos encontrar 29% desses jovens precisam cuidar de pessoas na família, 18% deixaram por falta de transporte e 14% por gravidez.

Esse quadro sombrio e desolador ficaria ainda maior caso fossem incluídas as crianças na faixa de 4 a 10 anos. Ainda poderíamos incluir muitos que estão na escola. Mas na iminência de abandono. Estariam numa situação de abandono, pois são afetados pelos fatores acima mencionados.

O INEP divulgou também os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) referente ao 2º ano mostrando como os níveis de alfabetização pularam de 2019 (15,5%) para 2021 (33,8%). Isso demonstra como a alfabetização foi a área mais afetada durante a pandemia e tem consequências ao longo do caminho escolar dos alunos. Esses dados avaliativos são gritos para que se recupere essa tragédia exigindo muita atenção dos gestores e educadores nos próximos anos. Os resultados do SAEB refletem o aprofundamento das desigualdades durante a pandemia. Falta de computador, de internet e o pequeno conhecimento dos pais que acompanhavam os filhos em casa afetaram o desenvolvimento de milhares de alunos pelo Brasil a fora.

Os noticiários capixabas registraram a performance dos alunos do Espírito Santo com os resultados do IDEDB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) colocando o Estado em terceiro lugar no quadro nacional. Em maiores detalhes vemos que nas séries de 1º ao 5º ano o Estado ficou em 7º lugar e nas séries de 6º ao 9º ano ficou em 12º lugar. E no Ensino médio alcança a marca do 3º lugar. Esses dados analisados friamente nos levariam à comemoração, contudo algumas ressalvas devem ser feitas. Foram objeto de avaliação os dois anos de pandemia e nesse contexto as escolas foram orientadas a não reprovarem seus alunos. Essa variável mostra um comportamento avaliativo bem artificial em termos de melhoras. Em razão disso, a pesquisa do IPEC torna-se essencial para se pensar em ações adiante.

Não podemos desconsiderar que a metade dos jovens que abandonaram a escola teve como motivo a necessidade de trabalhar, seguido da dificuldade de acompanhar os estudos e da necessidade de ficar em casa cuidando de alguém da família. Não podemos fechar os olhos diante de uma realidade de nossas crianças que deixam de ir para a escola para ficar em casa cuidando dos irmãos menores porque os pais precisam trabalhar e não há creches onde deixar aqueles que possuem até quatro anos de idade. Ter creches públicas nos bairros é uma grande ação de política pública. Fico a pensar se cada comunidade religiosa, cada paróquia ou templo religioso, fizessem um levantamento do número de creches em seu entorno! Não é sonho utópico, mas de homens de boa vontade.

Ao mesmo tempo precisamos superar um preconceito em relação aos alunos das escolas públicas como se fossem pessoas que não possuem interesse e estão na escola por obrigação. A mesma pesquisa do IPEC constatou que 84% dos estudantes nesse quadro de referência e estão na escola afirmam que possuem muito interesse nos estudos, 71% se sentem animados e 70% acreditam num futuro melhor. Portanto, o quadro é altamente positivo. Nossos jovens não estão buscando o caminho das drogas como muitos pensam achando que seja por desinteresse nos estudos. O caminho do tráfico envolve como questão crucial a necessidade econômica de sobrevivência.

A pandemia veio para aumentar ainda mais o fosso da desigualdade social no que se refere à educação. Estamos numa crise urgente na Educação e urge um esforço radical de toda a sociedade para a inclusão escolar e para a recuperação da aprendizagem. Daí a necessidade de termos políticas públicas referentes à educação que sejam fortes e consistentes, e que atinjam essas crianças e jovens. Caso contrário, estamos diante de uma geração perdida com graves consequências sociais. É preciso de maneira urgente reverter o fracasso escolar e o cenário de exclusão.

A pandemia não acabou para a educação. Até mesmo a adoção da prática de aprovação automática durante a pandemia vem trazendo impactos, pois os índices altíssimos de aprovação não refletem a realidade que os professores encontraram com o retorno do ensino presencial. A aposta que o governo federal vinha fazendo com o ensino domiciliar com atividades de alfabetização em casa iniciado antes mesmo da pandemia mostrou que o buraco é mais em baixo. Como isso poderia funcionar em famílias cujos pais nada possuem em termos de educação escolar?

Essas avaliações são muito importantes para gestores da educação pública e atores que agem nas escolas. Resultados positivos são ótimos e nos dão mais ânimo para trabalhar. Contudo é preciso ter os pés fincados na realidade socioeconômica de nossos alunos. O apelo da UNICEF para se evitar uma geração perdida aponta para a necessidade de enfrentar a pobreza na aprendizagem com alunos incapazes de compreender um texto simples.

Por fim, a luta que se apresenta é no sentido de retomar o movimento para a intensificação das matrículas escolares, recuperando aqueles que evadiram ajudando-os a resolver a questões pelas quais abandonaram a escola. Esses não perdem apenas a oportunidade de aprender, mas perdem também a escola como espaço importante de proteção contra os diversos tipos e formas de violência. Esse trabalho é da responsabilidade de cada cidadão, de cada instituição social, política ou religiosa. Fico imaginando um líder religioso em sua comunidade fazendo um levantamento das crianças que estão fora da escola e não apenas que não frequentam a catequese. Eu diria bem alto “Glória a Deus”!

Edebrande Cavalieri

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