I Assembleia Eclesial sob os rostos de Aparecida e Guadalupe

7 junho, 2021

Edebrande Cavalieri

A I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe que ocorrerá entre os dias 21 a 28 de novembro do próximo ano na Cidade do México nos mostrará, de maneira próxima e carinhosa, os dois rostos de Maria: o rosto moreno da Mãe Aparecida e o rosto indígena da Mãe de Guadalupe. E sob o olhar desses dois rostos de mãe a Assembleia quer ser uma genuína expressão de uma presença que acolhe, com o coração de mãe, as esperanças e os desejos das pessoas que compõem a Igreja desse espaço geográfico.

Essas duas festas marianas são celebradas no mesmo mês de outubro nos dias 12 com a Mãe Aparecida e no dia 21 com a Virgem de Guadalupe. Sob seus olhares as pessoas vão se colocando como discípulos missionários em saída. Essa Assembleia aponta na direção de um horizonte muito próximo dos 500 anos do evento de Guadalupe a ser celebrado em 2031 e dos 2.000 anos do evento Redentor de Jesus Cristo em 2033.

A memória de Aparecida, celebrada em 2007, se une ao momento atual da realização dessa Assembleia de Guadalupe. Os dois eventos são expressão de um trabalho de muitas forças e uma grande experiência de comunhão com o povo. O Magistério do Papa Francisco traz consigo as grandes intuições de Aparecida e vai penetrando na Igreja do mundo todo. A Assembleia de Guadalupe, além de firmar ainda mais as intuições de Aparecida, será uma nova primavera para nossa Igreja na América Latina e no Caribe.

Da memória de Guadalupe temos o encontro de Juan Diego, representante das culturas e sociedades da América Latina e do Caribe, como mensageiro a serviço da transmissão da fé, da comunhão e da solidariedade entre os povos. Na celebração do dia 13 de dezembro de 2019, o Papa Francisco, em sua homilia, destacou três adjetivos para Maria, e um deles se refere à Guadalupe quando ela quis ser mestiça, não apenas para Juan Diego, mas mestiça para todos. Ela se tornou mestiça! E nos diz o Papa: “Maria mãe mestiça do verdadeiro Deus e verdadeiro homem”. E completa: “Que ela fale conosco assim como falou com São Diego desses três títulos com ternura, com candor feminino e mestiça”.

Essa devoção é tão forte que desde o início de seu pontificado Francisco celebra uma missa em horário compatível com o fuso horário da América Latina, para que se possa acompanhar essa celebração.  Assim, em Aparecida estivemos sob o olhar de “Maria negra” e agora na Cidade do México estaremos sob o olhar de “Maria mestiça”. Duas grandes devoções marianas! Nossa Senhora de Guadalupe desde 24 de agosto de 1910 foi declarada Celestial Padroeira da América Latina pelo Papa Pio X. E a Virgem Aparecida, declarada padroeira do Brasil desde 1930 pelo Papa Pio XI.

A devoção mariana de Guadalupe tem origem com um indígena asteca Juan Diego Cuauhtlatoatzin em 1531, quando se dirigia para a Cidade do México para receber a catequese e tem três aparições de Nossa Senhora. Em uma delas, ela solicita ao indígena Diego que peça ao Bispo que construa um santuário na colina de Tepeyac para honra e glória de Deus. Mas o Bispo relutava em iniciar essa obra e pediu um sinal da Virgem ao indígena, que ocorreu na terceira aparição. Maria disse a Juan Diego: “Filho querido, essas rosas são o sinal que tu levarás ao bispo. Diz-lhe em meu nome que, nessas rosas, ele verá minha vontade e a cumprirá. Tu és meu embaixador e merece a minha confiança […] Quando chegares diante do bispo, desdobres o teu manto e mostra-lhe o que carregas, porém só na presença do bispo”. E naquele momento sublime do encontro entre o indígena e o bispo, surge no manto a linda pintura da mãe de Jesus.

As flores caíram no chão e no manto de Juan Diego apareceu a imagem de nossa Senhora de Guadalupe. No mesmo instante o tio de Juan que estava doente diz ter recebido a visita de Nossa Senhora e ficou curado de uma enfermidade.

Era o dia 12 de dezembro de 1531. E nesse dia o bispo Dom Juan de Zumárraga aprovou o culto a Nossa Senhora de Guadalupe e em 25 de maio de 1754 o Papa Bento XIV aprovou a celebração litúrgica a nossa Senhora de Guadalupe. Em 2002, o Papa São João Paulo II canonizou Juan Diego tendo o dia 09 de dezembro como festa litúrgica.

Consta na história que Juan Diego nesse momento tinha 57 anos de idade e a partir desse evento, ele transferiu seus bens para o tio e passou a viver numa sala ao lado da capela onde ficou depositado o manto com a sagrada imagem. E logo se dedicou a propagar por toda a vida o evento das aparições de Nossa Senhora a seus irmãos nativos demonstrando profundo amor à Eucaristia e assim recebeu a autorização do Bispo para comungar três vezes por semana, coisa raríssima na época. Diego representa a transformação do homem marginalizado pela sociedade, perseguido pelas forças colonizadoras dos espanhóis, a evangelizador.

O nome “Guadalupe” tem sido motivo para diversos debates, não havendo um consenso sobre sua origem. Para alguns estudiosos esse nome se refere a uma imagem de Nossa Senhora venerada em Extremadura, na Espanha. Para outros, quer indicar a forma como o Bispo que era espanhol entendeu o nome indígena de Juan Diego. Outros dizem que “Guadalupe” é de origem árabe e significa leito do rio. Seja como for, Guadalupe representa a identidade do povo mexicano. A própria viagem em 2016 do Papa Francisco ao México foi motivada por Nossa Senhora de Guadalupe.

A respeito do templo solicitado por Nossa Senhora, sabemos que o Bispo depois do evento da imagem de Maria estampada no manto iniciou em 1531 a construção do “Templo Expiatório a Cristo Rey”, tendo sido concluído em 1709. Foi transformado em Basílica em 1904 e em 1921 uma bomba colocada sob o altar por um ativista anticlerical explodiu causando grandes prejuízos. Na década de 1970 o piso da basílica começou a afundar e foi necessária a construção de uma nova basílica com 350 pilares de fundação que abriga 10 mil pessoas, mas em ocasiões especiais comporta até 40 mil pessoas. Hoje o templo de Guadalupe é a segunda basílica mais visitada do mundo, com 20 milhões de pessoas por ano, perdendo apenas para a Basílica de São Pedro.

Dessa forma nasceu e se desenvolveu a devoção a Nossa Senhora de Guadalupe representando sempre a esperança de novos céus e nova terra, cumprimento da justiça social. Na festa do ano passado no dia 12 de dezembro o Papa Francisco nos dizia em referência a Guadalupe que nesse devoção estão presentes a mãe, – mãe do filho de Deus e Mãe da Igreja -, a mestiça e a mulher de todos os nossos povos que “tornou mestiço também Deus”.

A devoção iniciada em 1531 a partir de um primeiro milagre serve como memória viva de tudo. No encontro de Maria com Juan “Deus despertou a esperança de um povo, despertou e desperta a esperança dos mais humildes, dos atribulados, dos deslocados e marginalizados, de quantos sentem que não tem um lugar digno nessas terras”, nos diz o Papa Francisco. São Juan naquele momento experimentou de maneira concreta em sua vida o que é a esperança, o que é a misericórdia de Deus.

O Santuário construído não tinha por objetivo a imponência arquitetônica, mas servir de indicativo do caminho da esperança de um povo. São Juan “é escolhido para vigiar, cuidar, proteger e incentivar” a construção da fé e da esperança de um povo. E o Papa Francisco dizia aos Bispos mexicanos em sua visita que “a virgem morenita ensina-nos que a única força capaz de conquistar o coração dos homens é a ternura de Deus”. E conclui: “Quando nos contam histórias, não devemos nos perder atrás de bobagens, Maria é mãe, mãe do seu Filho e da Santa Mãe Igreja hierárquica, e é mestiça, mulher dos nossos povos que tornou mestiço também Deus”.

A realização da I Assembleia Eclesial sob o olhar da mãe de Guadalupe nos mostra com clareza e audácia como as propostas para concretização do processo de renovação da Igreja conduzida pelo Papa Francisco nos faz tomar consciência que, através da unção do Espírito Santo, a Igreja Latino-americana é agora a fonte da Igreja universal e os processos sinodais postos em marcha hão de se transformar em tesouro para a Igreja universal. Por isso, a Assembleia de Aparecida, que foi um processo sinodal, desemboca em Guadalupe.

A Igreja peregrina nesse caminho sinodal não é uma monarquia política ou uma democracia, mas uma “assembleia eclesial que escuta, discerne e procura superar as tensões e discórdias, na expectativa da ação do Espírito Santo”, nos mesmos moldes do Concílio de Jerusalém dos tempos apostólicos descritos no livro dos Atos. O caminho sinodal assim deverá ser a expressão da ternura de Deus expressa nas imagens da Mãe Aparecida e da Mãe de Guadalupe e da misericórdia nesses tempos tão difíceis em que vivemos.

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