IGREJA E SINODALIDADE

17 fevereiro, 2022

Tenho ouvido algumas pessoas dizendo que a questão da sinodalidade se refere a uma vontade do Papa Francisco, demonstrando assim um certo desconhecimento teológico e um caminhar eclesial aos moldes do mundo. Essas pessoas demonstram até desconhecer as Sagradas Escrituras especialmente o livro de Atos capítulo 15, conhecido como o texto do Concílio de Jerusalém. Naquele momento, os apóstolos reunidos em torno do problema da prática da circuncisão nos ambientes não judaicos mostraram como a Igreja deveria ser conduzida ao longo da história no discernimento do Espírito.

Apresentaremos aqui algumas ideias que nos parecem centrais e que foram inseridas no documento preparatório ao Sínodo dos Bispos, e que serve para a fase diocesana da escuta sinodal. Em 2015, o Papa Francisco nos disse que “aquilo que o Senhor nos pede, de certo modo está já tudo contido na palavra “Sínodo”. Caminhar juntos – leigos, pastores e Bispo de Roma – é um conceito fácil de exprimir em palavras, mas não é fácil pô-lo em prática”.

A Arquidiocese de Vitória, depois de três anos, concluiu em 2009 seu I Sínodo Arquidiocesano. Portanto, já temos uma experiência bem prática da caminhada sinodal. Naquela Sínodo tínhamos como tema “Caminhar juntos na acolhida fraterna e na esperança”. Lembram? Sentimos concretamente que em alguns grupos havia muita dificuldade no caminhar juntos. O momento da escuta sinodal teve até resposta formal às questões propostas sendo o coordenador da comunidade ou da paróquia o responsável pelas mesmas. Outros grupos nem participaram daquela caminhada. Era desejo da Igreja conduzida por Dom Luiz Mancilha Vilela ouvir todas as forças vivas da Igreja e as pessoas que se afastaram da vida eclesial.

No ano passado fomos convocados pela Igreja latino-americana para caminhar juntos na I Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe ocorrida na cidade do México, sob o olhar de Nossa Senhora de Guadalupe. Como a nossa Igreja particular manifestou sua participação naquele evento? Tivemos muitas dificuldades na escuta do povo de Deus em função da pandemia da Covid. Isso é verdade, mas de alguma forma deveríamos participar, mesmo de maneira virtual, como fizemos com as celebrações e festas. A escuta sinodal é sempre um grande desafio para a Igreja, pois pressupõe sempre o caminhar juntos.

O documento preparatório nos alerta dizendo que o conceito de sinodalidade é até fácil de ser compreendido. O difícil mesmo é realizar uma experiência de sinodalidade de maneira vivencial. É muito mais que organizar grandes celebrações encantadoras, ou encontros de lideranças e retiros, e assembleias de Bispos. A experiência da sinodalidade envolve o tema do Sínodo dos Bispos como comunhão, participação e missão. Trata-se de uma experiência que se apresenta como sinal profético.

Querer reproduzir a sinodalidade com as formas políticas de organização social não nos leva ao cerne do caminho. A sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja nos tempos atuais. É um dom e uma tarefa, caminhando lado a lado, ouvindo cada um e todos, discernindo o caminho a partir da escuta da Palavra. Somente assim o nosso caminhar juntos será o que mais implementa e manifesta a natureza da Igreja como Povo de Deus.

São João Crisóstomo dizia que “Igreja e Sínodo são sinônimos” e por isso ninguém nela deve ser elevado acima dos outros. O Papa Francisco nos diz que muitas vezes o Bispo deve ir a frente, outras vezes no meio ou atrás. Quem desejar se aprofundar nos estudos da sinodalidade tem a sua disposição publicado em 2018 o documento “A sinodalidade na vida e na missão da Igreja” produzido pela Comissão Teológica Internacional com aprovação do Papa Francisco. Nesse documento há uma grande síntese em forma de 121 parágrafos a respeito da teologia da sinodalidade e pode ser encontrado no Portal vatican.va. Além desse texto, podemos refletir um pouco mais tendo o documento preparatório do sínodo como referência.

O esforço para estudo é importante contudo, o principal é a nossa experiência vivida como sinodalidade na Igreja. Um grupo que se fecha no seu cantinho separado dos demais não leva a vida numa experiência sinodal. Grupos que disputam audiência na mídia, grupos que se isolam numa diocese, mesmo sendo forças vivas, não caminham na perspectiva sinodal. Os apóstolos saíram em missão no mundo inteiro da época, contudo estavam caminhando juntos, enfrentando juntos até mesmo a morte. A história dos mártires nos mostra como caminharam juntos para o suplício testemunhando a fé e por isso mesmo se dizia nos corredores dos palácios romanos que o sangue dos mártires era semente de novos cristãos.

A sinodalidade é a grande semente da Igreja para os tempos atuais, tão desafiadores. Ou caminhamos juntos, ou nos perdemos no meio do mundo e das disputas político-ideológicas. As divisões na Igreja são nossas grandes feridas, nossas fraquezas, nosso falso testemunho. Mas os sinais de esperança aparecem em cada cantinho eclesial presente no mundo.

O Sínodo dos Bispos que terá a assembleia em outubro de 2023 em Roma deverá ser expressão da colegialidade episcopal, e dentro de um Igreja toda sinodal, nos adverte o Papa Francisco. A Igreja de Jesus Cristo tem no vértice o colégio apostólico onde Pedro é a “rocha”, mas numa pirâmide invertida demonstrando assim o sentido da ministerialidade enquanto serviço.

A sinodalidade nos conduz no caminho de uma Igreja servidora que se realiza nas Igrejas particulares, nas Regiões episcopais, nas Conferências Episcopais e no último nível na Igreja universal conduzida pelo Papa. Somente assim de maneira plena podemos falar de uma Igreja Povo de Deus que se realiza concretamente no ser comunhão e na participação ativa de todos os seus membros na sua missão evangelizadora. A sinodalidade então se efetiva numa Igreja em saída de si, não auto-referente, rumos às periferias geográficas e existenciais.

Edebrande Cavalieri

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