A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) acaba de publicar as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) para o período 2026-2032. Trata-se de um plano de evangelização. Foi a partir do Concílio Vaticano II que a Igreja do Brasil passou a trabalhar com a proposta de Plano de Pastoral de Conjunto lançado em 1966. Tempos depois, essa ideia evoluiu para Diretrizes Pastorais Gerais a serem implementadas nos Planos Pastorais de cada (Arqui)Diocese.
À luz da Lumen Gentium, a Pastoral de Conjunto é ação evangelizadora orgânica, articulada e em comunhão, superando a pastoral isolada com ações desarticuladas em que cada um cuida do seu “quadrado”. Por isso, todas as pastorais, todos os movimentos e todos os serviços devem formar um corpo orgânico, atuando em sintonia, pela evangelização.
As novas Diretrizes estão estruturadas em torno do conceito bíblico da “Igreja como Tenda do Encontro” e divididas em cinco caminhos centrais: Animação Bíblica, Iniciação à Vida Cristã, Comunidade, Liturgia e Piedade Popular e Serviço à Vida Plena. O que significa o conceito de “Tenda do Encontro” para designar a Igreja?
Esta imagem é descrita no Livro do Êxodo (33). A Tenda foi montada por Moisés logo após a saída do Egito, com o povo em peregrinação no deserto rumo à Terra Prometida. Aconteceu logo após a quebra da aliança retratada no episódio do bezerro de ouro. Foi nesse momento que Moises construiu uma Tenda fora do acampamento, servindo como espaço sagrado de comunhão com Deus, de refúgio, de intimidade, onde o Senhor falava com ele “face a face”, como um verdadeiro amigo.
Como o povo estava peregrinando pelo deserto, a Tenda do Encontro era uma espécie de santuário móvel, sempre do lado de fora do acampamento e um pouco distante, servindo como lembrete da santidade divina e de comunicação com Deus. Mais tarde, a Tenda do Encontro passou a significar o Tabernáculo, instalada no centro do acampamento, abrigando a Arca da Aliança e os objetos sagrados.
Conforme o texto bíblico, cabia ao povo trazer óleo de azeite puro para manter a lâmpada da Tenda do Encontro sempre acesa. No Novo Testamento, o evangelista nos diz que o “Verbo armou sua tenda entre nós” (Jo 1, 14). Ele não veio fazer uma visitinha ao povo, mas habitar em seu meio.
O Sínodo dos Bispos e as Diretrizes recuperam o conceito de Tenda descrito no Livro de Isaías (54) em que se diz: “Aumente o espaço de sua tenda, ligeira estende a lona, estique as cordas, finque as estacas, porque você vai se estender para a direita e para a esquerda, seus filhos herdarão nações e povoarão cidades desabitadas”. As cidades serão renovadas.
A Tenda do Encontro representa a imagem da Igreja peregrina, missionária, acolhedora, com portas abertas aos pobres e disposta a alargar seu espaço para abrigar a todos. Ela renovará as cidades. É um abrigo para quem sofre nos desertos existenciais; espaço que acolhe os vulneráveis, os feridos, os migrantes e os que buscam refúgio; uma Igreja que caminha com seu povo. Uma Igreja Povo de Deus.
Por onde começar esse processo de alargamento da Tenda do Encontro? O Apóstolo São Paulo, escrevendo aos Coríntios, nos questiona: “Não sabeis que vosso corpo é santuário daquele que habita em vós, o Espirito Santo que recebestes de Deus e que não pertenceis a vós mesmos”? E, em outro texto, afirma: “Nós somos templos do Deus vivo”. Sendo assim, também em nós deve haver uma lâmpada sempre acesa. É a nossa Tenda da intimidade com Deus. A luz que brilha em nossos corações é a própria presença do Espírito Santo que habita em nós. Santo Agostinho dizia que em nossos corações temos as pegadas de Deus.
Por isso, é essencial uma vida segundo o Espírito, com uma luz alimentada por azeite puro que brilha e resplandece. Uma vida segundo o Espírito se constitui do amor a Deus e do amor ao próximo, pois quem diz que está na luz, mas odeia o seu irmão ainda está nas trevas (1Jo 2, 9-10). Um coração repleto de ódio se mantém nas trevas.
Seguindo as conclusões do Sínodo, as diretrizes propõem um caminho de compromisso que parte da conversão. Alargar a Tenda do Encontro pressupõe a conversão das pessoas a partir de seu próprio coração, a conversão das relações especialmente em relação à questão da proteção de menores e da comunicação, a conversão dos processos que acontecem nas Igrejas locais com suas assembleias, grupos, pastorais e a conversão dos vínculos relativos aos organismos e projetos missionários.
A Tenda do Encontro não se destina a um recolhimento emotivo, individual, mas deve estar profundamente conectada aos desafios concretos da sociedade, de compromisso com a vida, com a justiça e com uma sociedade mais integrada e integradora, marcada pelos valores do Evangelho.
A Tenda do Encontro não é um recinto para poucos escolhidos, mas espaço bem alargado, aberto a todos. Não basta manter o que já existe, mas alargar para acolher. E nem se fechar sobre si mesma como uma instituição autorreferencial, mas ser leve, móvel e aberta.
A Igreja não é a dona de Deus, mas sinal de sua presença entre nós. Então, a Tenda do Encontro nos faz irmãos e nos torna solidários, nos faz ser uma comunidade em saída, sem muros rígidos, mas abrigo seguro.
Edebrande Cavalieri

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