II Domingo da Quaresma

13 março, 2022

Victor Nodari|

Dando seguimento a nosso itinerário penitencial, neste segundo domingo da Quaresma, a liturgia nos propõe o evangelho da Transfiguração de Jesus: ́ ́Naquele tempo, Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante.“ (Lc 9, 28). Enquanto no domingo passado o Evangelho nos apresenta Jesus tentado pelo Diabo, afirmando assim a natureza humana de Jesus, o relato de hoje atesta que a sua humanidade não esgota o mistério de sua pessoa, porque nos permite vislumbrar que ele também é Deus plenamente.

Assim, de forma pedagógica a Igreja os coloca em sequência no início do tempo da Quaresma, nos apresentando pela reflexão destes, o mistério do Deus-homem, bem como, ensina o Papa Emérito Bento XVI, antecipam o mistério pascal, isto é, a luta de Jesus com o tentador introduz o grande duelo final da Paixão, enquanto a luz do seu Corpo transfigurado antecipa a glória da Ressurreição. Por um lado vemos Jesus plenamente homem, que partilha conosco até à tentação, por outro, contemplamo-lo como Filho de Deus, que diviniza a nossa humanidade. Deste modo, poderíamos dizer que estes dois domingos servem de pilares sobre os quais se baseia todo o edifício da Quaresma até à Páscoa, e aliás, toda a estrutura da vida cristã, que consiste essencialmente no dinamismo pascal: da morte à vida.

Lucas escreve que Jesus subiu ao monte Tabor para rezar e que está em oração enquanto se transfigura, indicando que só num profundo caminho de interioridade podemos descobrir a beleza de pertencer a Deus. Irmãos e irmãs, precisamos urgentemente redescobrir em nossa fé o aspecto da oração, do encontro íntimo e fecundo com a Palavra de Deus, para torná-la uma leitura orante, prolongada e que produza frutos, um encontro íntimo e pessoal com Deus. Neste sentido o Papa Francisco nos faz um convite, indicando um caminho para bem vivermos a Quaresma: Subamos ao monte com a oração: a prece silenciosa, a oração do coração, a oração, sempre à procura do Senhor. Permaneçamos alguns momentos em recolhimento, um pouquinho todos os dias, fixemos o olhar interior na sua face e deixemos que a sua luz nos invada e se irradie na nossa vida. Assim poderemos ressuscitar para uma vida, na presença constante de Deus.

É justamente para a ressurreição que Jesus busca preparar os discípulos com a visão da montanha, de forma pedagógica, Ele antecipa a visão de Cristo Glorioso, transfigurado, que eles terão quando depois de vê-Lo ser desfigurado e morto na cruz, Ele se apresentar tangivelmente vivo. Também porque, relata o evangelista, Moisés e Elias falaram com Jesus “sobre o seu êxodo, que estava para acontecer em Jerusalém”. Falavam, portanto, da Páscoa, ou seja, passagem, da morte e ressurreição do Deus-homem, considerada como mais um êxodo.

O primeiro é o dos israelitas que, do Egito, onde eram escravos, Deus conduziu, por meio de Moisés, à terra prometida. O novo êxodo é o de Jesus, que estava prestes a deixar este mundo e entrar plenamente na glória divina. Mas não sozinho! “Vou preparar-vos um lugar”, disse antes de subir ao céu: morreu, ressuscitou e voltou para o Pai, para permitir que cada homem faça o seu próprio êxodo pessoal, a sua própria Páscoa, passando deste mundo, marcado pela escravidão do mal, para a verdadeira terra prometida, o mundo perfeito, onde Ele está, Ressucitado, Glorioso. Não é por acaso que esta página do Evangelho é lida na Quaresma: o episódio vale como preparação para a nossa Páscoa, aquela que celebraremos daqui a um mês e por sua vez antecipação da Páscoa definitiva.

Assim como com os Discípulos, também nós somos convidados a subir ao monte Tabor na companhia de Jesus, para fazer a experiência com o Cristo transfigurado, a experiência que transforma a vida, mas atentos, para não cairmos no comodismo de permanecer no monte. Mas por que descer? Por que deixar a paz e serenidade do monte, para descer ao vale, onde teremos provações, guerras, pandemia. A resposta é clara: porque a experiência do encontro com o Senhor Transfigurado e Glorioso deve nos encorajar e nos levar a descer do monte, a ir ao vale, junto aos pobres e marginalizados, nas periferias existenciais, levando a luz do Transfigurado àqueles rostos e vidas desfiguradas pelo desânimo, pela falta de fé e por tantas outras dificuldades, sem jamais esquecer que Ele desce conosco, que vai junto a nós.

Somente empenhando-nos, doando verdadeiramente nossa vida no vale, é que poderemos subir definitivamente ao monte, para vivermos a eternidade junto a Nosso Senhor Jesus Cristo. Somente passando pelo monte Calvário é que podemos chegar definitivamente ao Monte Tabor. Que neste tempo da quaresma, possamos refletir se nossa vida tem sido verdadeiramente Luz para os rostos desfigurados, se temos ido ao encontro dos irmãos necessitados, se temos direcionado nossa caminhada da vida em direção ao monte Tabor, a eternidade com Cristo. Olhando a Virgem Maria possamos aprender a permanecer com Jesus, pois somente permanecendo com Ele veremos a sua glória.

 

Victor Antenor Ferrari Nodari

Seminarista do 1º ano de Filosofia.

Paróquia de origem: São Pedro, Jacaraípe, Serra-ES.

Paróquia de pastoral: Santa Isabel, Santa Isabel, Domingos Martins-ES.

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BENTO XVI. Angelus. Praça de São Pedro, 17 fev. 2008. Não paginado. Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/angelus/2008/documents/hf_ben-xvi_ang_20080217.ht ml . Acesso em: 09 março 2022.

FRANCISCO. Angelus. Praça de São Pedro, 17 mar. 2019. Não paginado. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2019/documents/papa-francesco_angelus_2019 0317.html. Acesso em: 09 março 2022.

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