IMAGINAÇÃO POÉTICA E FÉ

31 maio, 2023

Na audiência do dia 27 de maio passado, o Papa Francisco reuniu-se com os participantes da revista La Civiltà Cattolica e da Universidade de Georgetown dos Estados Unidos; solicitou aos presentes naquele evento que “ajudem a ler o mistério da vida humana”. Estavam presentes poetas, escritores, roteiristas e diretores e, entre eles, o cineasta Martin Scorsese e sua família. O tema do evento era “imaginação poética e inspiração católica”.

O Papa aproveitou aquele momento para se dirigir a um conjunto de atores sociais e culturais que muitas vezes a Igreja acaba ignorando, vindos de várias partes do mundo. No mundo contemporâneo, a fé tem apresentado diversas questões à vida humana em busca de respostas à “fome de sentido”. Na verdade, o homem atual é cada vez mais carente de sentido. Vive uma vida vazia. E tantas vezes preenche-a com fugas e subterfúgios. O homem contemporâneo perdeu em grande parte sua capacidade de sonhar. Sua imaginação foi levada para desvios, foi domada pelas ideologias ou perdeu-se nas inutilidades midiáticas, especialmente das redes sociais.

Adélia Prado considerada uma das maiores poetisas brasileiras nos diz que “a poesia é o rastro de Deus nas coisas”. Em outra ocasião confessou que temia os doutores e a excomunhão. Mas “a Deus não temo. A poesia me salvará. Por ela entendo a Paixão que Ele teve por nós, morrendo na cruz”. Para ela a elevação poética é o experimento de uma realidade anterior a você, que te observa e te ama. “Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta”.

As palavras do Papa Francisco parecem confessar uma leitura dos poemas de Adélia Prado, muito improvável. Na verdade, trata-se de uma certeza: a literatura e a poesia nos conduzem à contemplação. “As palavras dos escritores ajudaram-me a entender a mim mesmo, o mundo e meu povo; mas também a perscrutar o coração humano, minha vida pessoal de fé e a ação pastoral”, confessa o Papa.

Foi durante a pandemia que também iniciei meu caminho pela poesia lançando dois livros – “Navegando por outros mares” e “Versos pelo caminho”. Estamos vivendo uma época bem mesquinha, e isso nos parece ser o grande desafio para a fé. Semear versos pelos caminhos para que se tornem árvores frondosas que nos ajudem a superar a mesquinhez do cotidiano. O caminho feito em versos é um convite para sonharmos juntos, percorrendo cada curva da vida, cada colina, cada floresta. No último livro eu digo: “Adentrar o movimento da imaginação à escuta dos seres viventes, mas também à escuta do céu, do mar, da montanha nua, do silêncio”. A poesia tornou-se vacina contra a Covid-19 antes mesmo do remédio. Também posso dizer que a poesia me salvou.

Para aquele grupo seleto de pessoas, o Papa não teve dúvida em reconhecer neles um serviço ministerial, pois “são os olhos que veem e sonham”, que impelem à contemplação e indicam o caminho. “O artista é o homem que, com os olhos, vê e sonha ao mesmo tempo; vê mais a fundo, profetiza, anuncia um modo diferente de ver e compreender as coisas, que estão diante dos nossos olhos. Na verdade, a poesia não fala da realidade a partir de princípios abstratos, mas observa a realidade, como o trabalho, o amor, a morte e tantas outras coisas da vida”.

O olhar poético e literário nos ajuda a entender a voz de Deus também a partir da voz do tempo, pois “representa a voz das preocupações humanas. A inspiração artística também é inquietante, apresenta coisas belas e trágicas da vida de todos os tempos, inclusive a guerra. O ministério literário e artístico busca “dar vida e formar o que o ser humano vê, sente, sonha, sofre, criando harmonia e beleza”. “Vocês são os que moldam nossa imaginação”, concluía o Papa Francisco.

Termino essas reflexões com a voz feminina na pessoa da poetisa Adélia Prado, cuja fé questiona e faz pensar, vai além daquela da frequência aos cultos e celebrações, bem adequada para os tempos de mesquinhez em que vivemos. Para além da vanglória de poder dos homens da sociedade e até de religiosos, ela então ora assim:

Meu Deus, me dê cinco anos.

Me dá a mão, me cura de ser grande”!

Edebrande Cavalieri

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