Ipês floridos e seu grito de primavera

1 setembro, 2021

Uma das coisas mais encantadoras que começa a aparecer ainda em meados do inverno é o florescimento da variedade de ipês pelas matas do país. São nas cores roxa, amarela, branca, rosa, que enfeitam nossos caminhos e satisfaz nosso olhar, deixando nossa vida mais prazeirosa. Como é bom percorrer uma rodovia com florestas em seu trajeto! Até arriscamos cometer infrações e sofrer acidentes em vista de tanta beleza a ser contemplada.

O cenário vai se completando de forma maravilhosa, pois com menos calor os pássaros também começam a organizar seus ninhos. É o início da reprodução de muitas árvores e plantas; o tempo em que os animais polinizadores, especialmente abelhas, têm mais atividade para garantir o ciclo reprodutivo. Estamos diante de um tempo de expansão de cores e beleza. Até as buganvílias trazem seu colorido maravilhoso com suas folhas coloridas. Mudam a coloração num cenário lindíssimo para atrais animais polinizadores, pois suas pequenas pétalas são amarelo-esbranquiçadas.

Vontade enorme de falar mais dessa planta com ares europeus afinal seu nome mais conhecido é bougainvillea; seu ar francês está apenas no nome, pois é natural da América do Sul mesmo. Que elas não fiquem com ciúmes, mas hoje preciso falar de outra planta/árvore, os ipês. Há muitas outras flores que se apressam a mostrar sua beleza antes da data inicial da primavera. A todas a minha mais alta estima e admiração!

Por falar em admiração, os gregos especialmente Platão e Aristóteles diziam que a admiração era o princípio fundamental do filosofar, o ponto de partida e se apresenta como um verdadeiro momento de espanto que nos leva à descoberta de nossa própria ignorância e indagação sobre o nosso estar no mundo. Observa-se que o homem moderno ao longo da história foi perdendo essa capacidade e tudo parece ser descrito com caracteres matemáticos como dizia Galileu. Mas como descrever uma flor de ipê com caracteres matemáticos? Como descrever o tempo da primavera? Qual a fórmula da beleza?

Passeando com meu neto por uma cidade do interior de São Paulo, em determinado momento, ele correndo bem à frente de bicicleta, deixa-a no chão e senta debaixo de um ipê florido. Sem ninguém por perto, pois eu não aguentei correr tanto, notei que ele estava em puro êxtase contemplativo e o deixei ali envolvido com tantas flores pelo chão, flores caindo com o vento, flores no pé. Confesso que ali eu vi que não poderia deixar de falar desta árvore tão imponente e única quando antecipa a vinda da primavera.

Até na arte esse tempo foi exaltado. Uma das obras mais lindas de Antônio Vivaldi chama-se “As quatros Estações”, concerto para violino e orquestra, com destaque para o movimento da primavera que abre o conjunto de maneira alegre (num Allegro em Mi maior).

O que acontece com a natureza para que em seu meio mais forte esses tipos despontam de forma tão linda pelas matas e ruas quando são plantados?

Com o inverno temos a queda da umidade relativa do ar com o chamado tempo das secas. Período muito marcado pela prática das queimadas enfumaçando tudo e chegando em nossas cidades. Aeroportos ficam fechados devido à fumaça cinzenta que brota no horizonte infinito das terras e matas. Cada ponto cinzento é uma queimada, intencional ou não, que demarca uma paisagem triste, contrastando com a alegria orgíaca das floradas dos ipês.

Esses heróis lutam desesperadamente para sobreviver principalmente em seu habitat, o cerrado. Esse espaço parece ser o mais cobiçado pela ambição humana, assassina do ambiente, hipócrita em sua fé. O cerrado morre um pouco todo ano, mas resiste. Tenho a impressão que o homem do cerrado herdou dos ipês uma resistência incomum e também mostra suas flores em seus casebres feitos de estuque. De junho a setembro temos assim um tempo de luta contra a morte e de mensagem ao tempo com beleza e encanto.

As matas transformam-se em verdadeiros murais. Até nossas ruas acabam entrando nessa brincadeira de florir quando alguns humanos mais humanos plantam árvores de ipês em suas avenidas. As pessoas, como meu neto, nesse momento, olham os murais que aparecem de todo lado. E ali se põem a contemplar, fotografar, embebedar-se com sua beleza e cores.

O tempo para esse deleite não ultrapassa uma semana. Como eu gostaria de ver essa beleza por mais tempo, mas tudo é determinado pela concentração de água na atmosfera. Dizem que a florada do ipê roxo vem por último, pois anuncia a chegada das chuvas. Então essas plantas que se tornaram árvores, que resistiram às queimadas provocadas pelos humanos menos humanos, expõe seu lindo mural, como mensagem linda, mas profética. Profética?

Os caçadores de heresias poderão ficar preocupados com a indicação de uma simples árvore como um ser profético. É compreensível. Entender a criação de Deus não é algo fácil. Muitos disseram que Francisco de Assis estava enlouquecendo quando chamava as criaturas de irmãos e irmãs. Para mim, os ipês são plantas proféticas. Sua profecia se mostra nesse mural, todo ano, por um curto período, mas mais que suficiente. Quem não consegue ouvir em uma semana não irá ouvir nunca.

A beleza dos ipês não pode ser destruída, pois ainda representa uma voz profética que clama nas matas. Por uma semana! Depois eles se calam para que os humanos reflitam e tomem alguma atitude. Parece até que ao final da florada eles batem os sapatos para tirar a poeira da insensatez e retornam a viver como todas as demais árvores driblando fogos e balões. No ano seguinte, mais triste pois tantas plantinhas, futuros profetas do ambiente, foram queimadas e não mais puderam escrever nesse mural a sua beleza, o seu encanto, dá mais uma tentativa com grito. A fumaça cinzenta é o luto por tantas mortes, dos massacres ambientais. As lágrimas desses seres não abastecem as represas. Evaporam-se nas nuvens de fumaça. A água vai secando. As profecias do ano anterior não foram ouvidas, apenas consumidas para seu orgasmo egoísta irracional.

Estamos iniciando o mês de setembro e somente no dia 22 teremos o início da primavera, mas ela já foi anunciada pelas floradas dos ipês. O mural já foi apresentado com denúncias, com anúncios, com alegria e beleza. A primavera no mundo religioso cristão representa a esperança, uma das três virtudes teologais como nos diz Paulo na Carta aos Coríntios. Trata-se de um tempo de renovação daquilo que parecia ter perdido a vida. Os ipês florados antes ainda do início cronológico, mais que o início da primavera, expressam a força da esperança.

Edebrande Cavalieri

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