Diante de um contexto tão tenebroso de violência contra as mulheres chegando ao ponto de termos quatros assassinatos por dia no Brasil, considerados como feminicídio, hoje queremos refletir tomando as Sagradas Escrituras em um fato narrado por Mateus (1, 18-25) que se refere à concepção de Maria.
Vamos de imediato ao texto bíblico: “A origem de Jesus, o Messias, foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu marido, era justo. Não queria denunciar Maria, e pensava em deixá-la, sem ninguém saber”.
José, além de “justo”, também era conhecedor da Lei contida em Deuteronômio (22, 23): “Se houver uma jovem prometida a um homem, e um outro tiver relações com ela na cidade, vocês levarão os dois à porta da cidade e os apedrejarão até que morram: a jovem por não ter gritado por socorro na cidade, e o homem por ter violentado a mulher de seu próximo”.
O cenário é muito claro. A suspeita de infidelidade deve ter causado profunda dor em José e, como homem, desejos de vingança (talvez). Afinal, ele pertencia a uma cultura terrivelmente patriarcal e machista, tanto a romana como a judaica. Contudo, José em nenhum momento pensou em assassinar Maria ou denunciá-la aos tribunais. Buscou uma saída de modo a não a expor à difamação na cidade. Muito menos queria levá-la à morte por apedrejamento. Ele estaria amparado pela Lei. O fato de ser “justo” o impedia que agisse com violência. Na verdade, esse é o amor de verdade, que brota de Deus.
Qual a saída imediata pensada por José? Não foi tomar uma arma e “fazer justiça com as próprias mãos”, em nome da honra como se diz por aí. Nem saiu pelas ruas difamando aquela jovem mulher chamando-a pelos piores apelidos machistas que circulam hoje pela internet nos smarthphones de nossos adolescentes. E nem colocou o nome de Maria na listinha das meninas fáceis. Ao contrário, José pensou em deixá-la, sem ninguém saber.
Alguns intérpretes como São Bernardo de Claraval entendem que José quis se afastar por se sentir indigno de participar do mistério da Encarnação e não por acreditar que Maria o teria traído. Como nossa intenção não é fazer exegese do texto bíblico, deixemos nossa reflexão seguir o caminho mais visível.
O certo é que José não queria denunciar Maria e nem a abandonar publicamente por meio de delação aos juízes ou por acusação formal e escrita entregue a eles. Também podia rescindir o contrato de casamento na frente de duas testemunhas. Mas, José não podia duvidar da inocência de Maria. Ele acreditava no amor que existia entre eles. Sendo justo, não podia fazer juízo temerário de uma situação que não compreendia.
Olhando todo o conjunto dessa história sagrada, encontramos inúmeras lições de como devem ser as relações entre homens e mulheres. Nada de “macho alfa” ou “mulher beta”. Mas, homens justos. José buscou em todos os momentos proteger Maria e jamais puni-la. Buscou sempre estar ao lado dela em todos os momentos posteriores, cuidando da criança que veio a nascer.
Vivemos no Brasil um ambiente que se diz cristão o tempo todo, que se diz respeitador da família, que põe Deus acima de tudo. Somos um país cristão, mas a lei que parece valer é aquela descrita no livro do Deuteronômio e não aquela descrita no Evangelho de Jesus Cristo.
Dom Luiz Fernando Lisboa, Bispo da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, publicou uma “Carta Dirigida aos Homens” fazendo um forte apelo contra a violência doméstica. Convoca os homens a romperem o silêncio. Está passando da hora de rompermos o silêncio da conivência. É preciso discutir as formas de violência de gênero nas escolas e nas salas de catequese de nossas comunidades eclesiais. Como nos diz Dom Luiz, é preciso que os homens assumam a responsabilidade de agirem como “promotores da vida e não cúmplices da violência”. É preciso educarmos nossas crianças e nossos jovens.
O Papa Francisco condenou veementemente a violência contra a mulher, classificando-a como um insulto a Deus e uma “erva venenosa”. Sim, esse veneno está entrando em nossas redes sociais, em nossas escolas e nossas comunidades, em nossas famílias. A violência doméstica nos diz o Papa é “quase satânica”. O machismo mata a humanidade. Enfim, “ferir uma mulher é ultrajar a Deus”. É preciso que barremos a matança de tantas Marias da Penha, tantas Dayse Barbosa. José não matou Maria!
Edebrande Cavalieri

por 