JUBILEU 2025: PEREGRINOS DA ESPERANÇA

6 junho, 2024

A cada 25 anos, a Igreja celebra um ano jubilar desde os fins da Idade Média. Desta forma, no próximo ano estaremos celebrando esse grande momento de fé. Como nasceu a prática do ano jubilar? Como estamos nos preparando para esse ano?

A celebração nasceu no meio judaico, conforme ordem dada em Levítico 25, que deveria ocorrer a cada cinquenta ano. O primeiro ano jubilar israelita provavelmente deve ter ocorrido em 1.445 a.C. Na Igreja cristã essa prática foi institucionalizada a partir do ano 1300, com o Papa Bonifácio VIII, que convocou a cristandade para uma peregrinação à Roma e aos lugares santos com a promulgação da indulgência plenária; daí passou a ser a cada cem anos. Posteriormente, ficou definido que o jubileu seria celebrado a cada 33 anos em memória da idade de Cristo como uma peregrinação penitencial. Porém, no ano 1475, ficou definido que essa celebração seria realizada a cada 25 anos.

O Papa Francisco em 11 de fevereiro de 2022 publicou uma Carta convocando-nos a “realizar uma preparação que permita ao povo cristão viver o Ano Santo em todo o seu significado pastoral”. Então nos aponta o texto bíblico como guia.

O Evangelista Lucas (4, 18-20) nos diz que Jesus foi à cidade de Nazaré onde nascera, num sábado, e entrou na Sinagoga. Então deram-se o livro de Isaías para que fosse lido: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ANO DE GRAÇA DO SENHOR”.

Que motivações servem para fortalecer essa peregrinação? O Papa Francisco nos lembra que a pandemia da Covid-19 nos escancarou o drama da morte na solidão, a incerteza e o caráter provisório da existência, com toda a realidade estagnada, igrejas e comércios fechados, espaços vazios.

Ao mesmo tempo, vivemos nos dias atuais um clima de política antissocial do desmonte de ações solidárias e políticas públicas, violação dos direitos humanos, uma guerra mundial em pedaços, cumplicidade de amplos setores das Igrejas cristãs e seus pastores com práticas nada evangélicas, destruição da herança judaico-cristã da ideia de um ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, e “graves violações da dignidade humana”, conforme nos diz o Papa na Encíclica Dignitas infinita.

Então, nesse contexto até desesperador da vida humana e planetária, há que se “manter acesa a chama da esperança que os foi dada e lutar para que cada um recupere a força e a certeza de olhar para o futuro com espírito aberto, coração confiante e mente clarividente”. O Jubileu deverá favorecer a recomposição de um clima de esperança e confiança. Daí o tema  Peregrinos de Esperança. Mas isso somente será possível se recuperarmos o sentido da fraternidade universal, se  não fechamos os olhos diante do drama da pobreza crescente, o crescimento de refugiados forçados a abandonar as suas terras. “Que as vozes dos pobres sejam escutadas”.

A chama da esperança nos remete para uma dimensão fundamental da vida humana, que nos faz olhar para frente, levantar a cabeça, sentir vontade de viver. Não decorre de uma palestra de motivação aos moldes de autoajuda, uma espécie de anestésico para a vida sofrida. A esperança faz da vida uma obra inacabada e uma tarefa permanente. É aquela força que nos desinstala e nos mobiliza, nos põe a caminho.

O que a Igreja nos pede nesse ano de 2024 em termos de preparação para o Jubileu da Esperança? Ela nos pede “uma grande ‘sinfonia’ de oração para recuperar o desejo de estar na presença do Senhor, escutá-Lo e adorá-Lo. Orar também em agradecimento por tantos dons recebidos e ação concreta e responsável para sua salvaguarda. Oração nos moldes de “um só coração e uma só alma” que se traduz em solidariedade e partilha do pão cotidiano. Para que todos os corações se abram para receber a abundância da graça, fazendo do Pai Nosso a oração que Jesus nos ensinou como programa de vida de todos os seus discípulos.

A fonte última da esperança é a presença salvífica e recriadora do Espírito de Deus no mundo. Ao mesmo tempo, o Senhor nos pede para sair, ir em missão. Nesse caminho peregrinante da esperança é necessário ousar, arriscar romper muros e fronteiras, inventar novas práticas, abrir-se. A esperança nos implica no cotidiano de fé, que transforma o mundo, que se faz de maneira ativa e criativa e chega até a se tornar resistência nas lutas cotidianas.

A superação da mentalidade fatalista e determinista de que nada vai mudar, o conformismo diante da realidade dada, a resignação diante das injustiças e o silêncio, o pragmatismo político fruto de conchavos e negociatas com as elites dominantes em um mundo globalizado, são posturas que não apenas inibem a esperança, mas transformam a fé numa prática ritual e devocional, que nos faz perder a dimensão profética da vida cristã.

A esperança nos implica concretamente nas “graves violações da dignidade humana”. Para sermos verdadeiramente peregrinos da esperança é preciso clamar em voz como de trombeta, denunciando ao “meu povo a sua maldade, aos descendentes de Jacó os seus pecados, porque eles pretendem dar uma aparência de piedade, de religiosidade, vindo todos os dias ao templo, mas correm atrás dos próprios desejos e negócios e continuam a oprimir os vossos trabalhadores” (Is 58).

Cada um de nós precisa de esperança, pois estamos com nossas vidas tantas vezes cansadas e feridas, corações sedentos de verdade, bondade e beleza. Não queremos escuridão em nossos sonhos. Assim o Papa Francisco nos deseja que esse jubileu faça “a esperança preencher os nossos dias”.

Edebrande Cavalieri

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