“JUNTOS” É O NOME DA PAZ EM 2023

11 janeiro, 2023

Iniciamos um novo ano com esperanças e também com muitos medos. O Réveillon como momento de renascer para um novo tempo não esperou sequer o apagar dos fogos. Voltamos ao ponto em que nos separamos, nos odiamos, nos destruímos. Não apenas os palácios foram depredados, mas também nosso espírito cívico, nosso desejo de paz. Não aguentamos mais! Chega! Não queremos um mundo dividido! Não queremos uma Igreja polarizada! Forças ocultas movem nossas vontades. Forças do mal! Da guerra.

A CNBB imediatamente ainda no mesmo dia dos ataques em Brasília manifestou-se contra esses atos “criminosos ao Estado Democrático de Direito” exigindo que esses ataques sejam “imediatamente contidos e seus organizadores e participantes responsabilizados com os rigores da lei”, pois “os cidadãos e a democracia precisam ser protegidos”. Como podemos avançar no caminho da paz tão desejada?

As mudanças que foram acontecendo na realidade brasileira, especialmente no contexto cultural, estão levando muitos fiéis a abandonarem as comunidades eclesiais tornando-se “desigrejados” que o Censo do IBGE classifica como “sem religião”. As divisões políticas invadiram as Igrejas cristãs e algumas emprestaram fielmente seu apoio a projetos políticos.

Os interesses políticos tornarem-se poderosos e descobriram que a religião seria o terreno mais valioso a ser conquistado. E partiram para um processo de colonização das Igrejas, dos lugares sagrados, dos atos religiosos. De joelhos esses poderosos postam-se como os soldados fascistas dos tempos de Mussolini na Itália, são capazes de rezarem da mesma forma que cantam o hino nacional. Assim estamos vendo uma Igreja cada vez mais colonizada, tornando-se cansada e desencantada.

É possível ver esse quadro desolador em várias partes do mundo e não apenas aqui no Brasil. Facilmente é perceptível a polarização partidária e ideológica que divide as comunidades e separa famílias. A transformação da política em religião é responsável pela confusão religiosa disseminada nas comunidades. A “verdade” transforma-se assim em objeto de disputa e veste-se de mentira, de fake News. A política foi assumindo nesse processo colonizador, de maneira sutil e perversa, o controle da religião, o controle das Igrejas.

A Igreja católica tem insistido na pregação da Doutrina Social tentando levar as pessoas, os fiéis batizados, a se conduzirem pela “melhor política”. Mas a força do mal que campeia pelas avenidas e praças parece mais forte. Até mesmo a Campanha da Fraternidade foi colonizada pelos interesses políticos ideológicos que tendem a dominar tudo. Como foi difícil vivenciar a Campanha da Fraternidade de maneira ecumênica!

Nesse quadro sombrio uma voz clama no deserto. E clama também nos mares de altas ondas, de tempestades. Essa voz ecoa a partir do primeiro dia do ano conhecido como “dia mundial da paz”. É tudo que desejamos, queremos e precisamos. Não basta desejar a paz para quem está do nosso lado. A voz forte é emitida por um homem que já não suporta o peso do corpo e caminha em cadeira de rodas. E nesse lugar sua voz parece ainda mais forte. Viva Francisco!

Ele nos pergunta ao falar da paz sobre o que aprendemos com a situação de pandemia. Não aprendemos nada? Até a Covid-19 parece ter sido colonizada pelos poderes da negação da vida. Francisco nos responde: “A maior lição que a Covid-19 nos deixa em herança é a consciência de que todos precisamos uns dos outros, que o nosso tesouro, ainda que o mais frágil, é a fraternidade humana, fundada na filiação divina comum e que ninguém pode salvar-se sozinho”. No auge da dor por tantas mortes, com templos religiosos fechados, como foi duro sentir a ausência do outro!

O isolamento foi necessário e crucial, mas jamais deveria ser a expressão da ausência da fraternidade. A ausência da convivência fraterna se opõe à vida comunitária. Qualquer divisão que rompe a unidade comunitária nos enfraquece e nos asfixia. Foi no exemplo – “vejam como eles se amam” – que os primeiros cristãos testemunharam sua fé e tornaram-se sementes de novos cristãos.

O Papa nos lembra da necessidade urgente de buscar e promover, todos juntos, os valores universais que marcam o caminho da fraternidade humana. Valores que foram fundamentais no tempo da pandemia como a humildade diante da incerteza, a redução de pretensões consumistas como gastos, viagens caríssimas, um renovado espírito de solidariedade entre as pessoas, o empenho de muitos adotando posturas quase heroicas de doação como os profissionais da saúde. Sentimos não apenas a falta do outro, mas como ele nos faz bem, como ele é essencial em nossas vidas.

O segredo está nessa postura de “estarmos juntos” e não em campos separados, em polos opostos, em trincheiras de guerra. Essa guerra colonizadora precisa acabar logo senão definharemos em nossa fé e em nossa construção de um mundo mais fraterno. Não foram destruídos apenas os bens da democracia brasileira em Brasília, mas os bens espirituais que cada pessoa cultiva. Alimentamos o ódio em cada vidro estilhaçado, em cada banco destruído, em cada agressão aos símbolos da convivência fraterna.

Cristãos que alimentam a mentira, o ódio, a guerra, contribuem para a construção de um mundo de morte. A aliança fatal entre fé e poder político não representa a vontade do Senhor quando rezava ao Pai pedindo que todos fossem um assim como Ele e o Pai eram um.

Diante do quadro atual onde as distorções e mentiras produzidas e compartilhadas pelas redes sociais, com o crescimento da desinformação, com a apologia forte ao culto às armas e à violência, fortalecido pelo fundamentalismo religioso que instrumentaliza até mesmo a Palavra de Deus em seu proveito, é preciso que as lideranças religiosas, ordenadas e instituídas, estejam a serviço da missão da Igreja e em comunhão com o Papa Francisco. Nenhum altar ou púlpito deveria servir como palanque político. Nenhuma bênção deveria ser concedida a elementos portadores do ódio e da morte.

Uma coisa é preciso ser registrada de maneira contundente: o mundo não está dividido entre direita e esquerda como se apregoa tanto nas redes sociais. O mundo em nossa volta é plural. A Igreja que nasce com os apóstolos constituiu-se como ambiente plural e diverso, tendo por opção fundamental os escravos, os pobres, os marginalizados, os doentes, os leprosos. O que nos pede hoje a Igreja conduzida por Francisco é que caminhemos juntos, de maneira sinodal. A sinodalidade nos tempos atuais é a força que precisamos para romper as altas ondas, para superar as guerras, o ódio, a intolerância, a morte. A democracia é o caminho político mais adequado dos tempos atuais para a “melhor política”. Todos juntos, sim, rumo à Paz!

Edebrande Cavalieri

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