A grande festa cristã, esperada e celebrada todos os anos, é muito mais que um evento natalício que se comemora na vida de cada pessoa. Não é a comemoração do aniversário de alguma pessoa famosa. Muitas vezes, transformamos esta celebração em algo mundano, do cotidiano histórico, como se naquele tempo longínquo do passado alguém tivesse nascido como fruto da união entre um homem e uma mulher. Estamos, na verdade, diante do grande mistério da Encarnação do Verbo. O Evangelista João inicia seu escrito nos seguintes termos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1, 1). “E a Palavra se fez homem e habitou entre nós” (Jo1, 14).
Celebramos no Natal a Encarnação do Verbo, momento mais concreto da história da salvação, expressão da Aliança de Deus com a humanidade, com o mundo criado. O Natal pode ser assim definido como o grande laço sagrado entre Deus e o mundo. Nenhuma outra religião ousou apresentar um Deus que se encarna na história, no mundo. O cristianismo nos apresenta um Deus que se torna menino, que nasce numa estrebaria sem nenhuma pompa. Numa manjedoura onde os animais se alimentavam. O que isso significa em termos de fé nos dias atuais? Onde o sinal desse laço sagrado deveria estar concretizado em nosso cotidiano?
Enquanto muitas pessoas procuram fazer uma faxina em nossas ruas, retirando irmãos ali dormindo sobre as caçadas e enroladas em caixas de papelão, outro grupo de pessoas se dedica ao acolhimento dessas mesmas pessoas em situação de rua. Era a Pastoral do Povo de Rua da Paróquia de Jardim da Penha que no dia 17 passado realizou um encontro com esses excluídos para um jantar sob o céu estrelado. Para algumas das sessenta pessoas que ali se encontraram, aquela janta era sua primeira refeição. O mesmo Jesus que nasceu numa manjedoura em Belém também quer nascer num prato de comida de quem passa fome.
O Papa Francisco denunciou recentemente que o Cardeal Patriarca de Jerusalém foi impedido pelo comando da guerra de entrar em Gaza e crianças foram bombardeadas. O mesmo Jesus que não teve hospedagem em Belém em seu nascimento deseja estabelecer o vínculo da esperança com o povo que sofre os horrores da guerra. Milhares de famílias no mundo atual estão desalojadas, sofrendo fome e sede pelo mundo afora em decorrência de tantas guerras. O Natal de Jesus é o laço sagrado de Deus com o mundo para que todos tenhamos paz, e não apenas alguns. As guerras são a ruptura dos laços humanos e divinos.
Em nossa Igreja o Natal desse ano está sendo marcado pela força de dois laços sagrados: a Campanha da Fraternidade do próximo ano que tem como tema a “Ecologia Integral” e o Jubileu da Esperança de 2025 que se inicia no próximo dia 24 em Roma com a abertura da Porta Santa. Sem a construção da fraternidade que integra o grito do pobre e o grito da terra o Natal do Senhor fica muito distante em nossa fé. Será um natal de fachada.
Por fim, nossa esperança se fundamenta no compromisso de um Deus que se fez homem para nos salvar. Daí a nossa esperança. Caminhamos como peregrinos nesse mundo, mas sempre guiados pela esperança. A mesma esperança precisa ser concretizada nas pessoas excluídas de nossa sociedade, em situação de rua, nos refugiados de guerra, nos migrantes forçados. Não podemos em nossa fé esquecer de tantos que hoje vivem nas manjedouras”.
Os Bispos do Brasil em sua mensagem natalina nos dizem que “A estrela do Natal e o Papa Francisco nos convidam a ‘esperançar’ nosso povo, de forma dinâmica e não passiva, promovendo a vida em todas as suas formas e dimensões”, cuidando uns dos outros e colaborando na construção de um mundo de paz, diálogo amoroso, no olhar com amor para os idosos, doentes, encarcerados, crianças sem lar, migrantes e pobres.
Que a estrela da esperança guie cada um de nós na efetivação do Laço Sagrado na concretude de nossa história, em nosso entorno e em nossas casas. Feliz Natal!
Edebrande Cavalieri

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