MAGNIFICA HUMANITAS: BABEL OU JERUSALÉM?

26 maio, 2026

A primeira Carta Encíclica denominada Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV inicia-se colocando-nos diante de uma escolha decisiva enquanto humanidade: construir a cidade de Babel com uma grande torre bem alta ou reconstruir a cidade de Jerusalém onde Deus e a humanidade habitam juntos. Duas imagens bíblicas muito significativas. Duas escolhas decisivas! Não se trata entre um sim e um não, entre a tecnologia ou sua negação.

Em Babel, os habitantes almejam construir uma torre que atinja os céus, para obter estabilidade e poder e assim tornarem-se famosos. Trata-se de um projeto com única língua, única tecnologia, única direção. Porém, é um projeto sem nenhuma referência a Deus, sustentada por uma uniformidade que elimina a diversidade e, em vez de comunhão, escolhe a homogeneização. A unidade transformou-se em dispersão. Sacrificou-se a dignidade das pessoas em nome da eficiência e da ambição de alcançar o céu sem a bênção de Deus.

A outra imagem refere-se à reconstrução de Jerusalém após o exílio da Babilônia, toda devastada conforme descreve o livro de Neemias. Parte do povo exilado retornou, mas a cidade estava em ruínas. O que fazer? Neemias, antes de tomar uma decisão, jejua, reza e intercede pelo povo. Depois convoca as famílias e cada um vai assumindo a reconstrução das muralhas. Neemias ouve as pessoas, coordena os esforços, enfrenta as oposições, e através de uma responsabilidade partilhada com todo o povo a cidade vai sendo reconstruída.

Um verdadeiro mutirão! A linguagem comum aqui não é a uniformidade, mas a da comunhão, da harmonia que brota quando cada um assume sua responsabilidade e todo o povo reconhece a força que vem do Senhor. Santo Agostinho chamou depois de “Cidade de Deus”.

As duas escolhas que o Papa nos coloca como humanidade é Babel ou Jerusalém, domínio ou comunhão, eficiência ou dignidade. Sofremos uma síndrome de Babel idolatrando o lucro, sacrificando os mais fracos, impondo a uniformidade que anula as diferenças, assumindo uma linguagem única que reduz tudo a dados e algoritmos, inclusive o mistério da pessoa. O alerta do Papa é bem claro: “Uma cadeia de exploração que permanece deliberadamente invisível”.

Não se trata de renunciar à tecnologia, mas retirá-la da lógica da competição armada. É preciso desarmar a inteligência artificial, nos diz o Papa. É preciso retirar a tecnologia do poder dos monopólios, e torná-la discutível, contestável e habitável. “A era digital não será pós-colonial. Será colonial de outra forma”. “As novas formas de trabalhar não são necessariamente melhores, pois a inteligência artificial promete impulsionar a produtividade, mas os trabalhadores frequentemente são obrigados a adaptar-se à velocidade e às exigências das máquinas em vez de estas serem concebidas para ajudar quem trabalha”.

Temos diante de nós duas escolhas: Babel ou Jerusalém. “Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos”? O desafio está posto para a nossa escolha: “A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa Comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças”.

Como filho de Santo Agostinho, o Papa Leão XIV conclui a Encíclica reforçando a necessidade da espiritualidade eucarística que é, na verdade, uma espiritualidade da unidade eclesial no amor, dizendo que Agostinho se referia ao pão e vinho no altar como sacramento da unidade dos fieis em Cristo: “O que se vê tem um aspeto material, o que se compreende produz um efeito espiritual. Se quiseres compreender [o mistério] do corpo de Cristo, escuta o que o Apóstolo diz aos fiéis: Vós sois o corpo de Cristo e os seus membros (1 Cor 12, 27). Se vós, portanto, sois o corpo e os membros de Cristo, sobre a mesa do Senhor está depositado o mistério de vós mesmos: recebei o mistério de vós mesmos”. “E dizei Amém”. Comungando o Corpo de Cristo nos comprometemos na construção da Jerusalém celeste na terra. Aqui e agora. Ali está o alimento que nos dá força.

Desta forma se constrói a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos, formando uma civilização do amor. A antiga Jerusalém reencontra uma linguagem comum, a da comunhão. “Sede membros do corpo de Cristo, para que o vosso Amém seja verdadeiro”, pois nossa força provém do Senhor.

Edebrande Cavalieri

Foto capa: @Vatican Media

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