MEMÓRIA DE DOIS RIOS –A PROFECIA AO CONTRÁRIO –

26 outubro, 2020

Prof. Dr. Pe. Arthur Francisco Juliatti dos Santos.

No livro do profeta Ezequiel, capítulo 47, versículos de 1 a 12, encontramos uma profecia belíssima: um rio brota do templo de Deus e, serpenteando entre vales, chega até o mar levando vida, curando, trazendo alegria por onde passa e, por fim, afirma o versículo 12: Junto ao rio, à sua margem, de um e de outro lado, nascerá toda a sorte de árvore que dá fruto para se comer; não cairá a sua folha, nem acabará o seu fruto; nos seus meses produzirá novos frutos, porque as suas águas saem do santuário; e o seu fruto servirá de remédio. A metáfora de Deus como fonte de água significa a bênção capaz de tudo curar, facultando, assim, a todos os seres humanos, uma vida destituída de ansiedades e sofrimentos.

No profeta Jeremias encontramos uma metáfora que faz referência a Deus como fonte de água viva, indicando-o como potência vivificante, aquele que torna possível a fertilidade, a salvação e a justiça (cf. Jr 17,13). O abandono de Deus traz a necessidade de escavar cisternas, mas que não conseguem reter a água (cf. Jr 2,13), e que conduzem a morte à humanidade.

Aqui nos deparamos com essas duas realidades, a da Palavra de Deus e aquela que nos traz à memória duas tragédias/crimes, ou seja, o rompimento das barragens em Mariana (2015) e em Brumadinho (2019), que trouxeram uma lama que brota, não do templo do Deus vivo e verdadeiro, mas do templo da ganância humana, cujo Deus é o lucro. Aquela lama não cura, não dá vida e nem frutos que servirão como alimento, e cujas folhas serão como remédio. Aquela lama, mais uma vez, fruto não da criação de Deus, mas da ambição humana, destrói a misteriosa beleza da criação, com aquela mesma despreocupação de Caim: E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão? (Gn 4,9).

Será que nossa sociedade perdeu a capacidade de gerir as águas capazes de regenerar o ser humano e a sociedade, servindo-lhe e fecundando sonhos e realidades? A falta de sintonia com Deus criador gera a sociedade do mercado, que contempla o lucro na bolsa de valores, enquanto descarta o ser humano.

Será que não estamos construindo sobre fundamentos errados, contrários à vida e à fecundidade do amor? Será que não estamos nos tornando estéreis e perdendo a força vital para a qual fomos criados? Temos um grande desafio, pois a qualidade da nossa existência será julgada por Deus, mas também pela história, a partir de nossa capacidade para construir, nos dizeres de Puebla, a Civilização do amor.

A lama estéril que escorreu no leito do Rio Doce e do Rio Paraopeba é a expressão de uma sociedade estéril, cujo Deus é o mercado, o lucro, o dinheiro, em detrimento do ser humano, imagem e semelhança do verdadeiro Deus, e da natureza, expressão de equilíbrio e fonte de vida para os seres humanos, expressão central do amor de Deus, na criação (cf. Sl 8).

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