Celebração, presidida pelo padre Kelder Brandão, reuniu agentes do Vicariato para Ação Social e destacou a missão da Igreja diante da realidade das periferias e da promoção da dignidade humana.
A Missa das Pastorais Sociais na Festa da Penha 2026, reuniu agentes de diversas pastorais, movimentos e iniciativas sociais da Arquidiocese de Vitória no Campinho do Convento da Penha, na manhã do último dia da festa.
Presidida pelo padre Kelder Brandão, coordenador do Vicariato para Ação Social, Política e Ecumênica, a celebração foi guiada pelo tema da paz, em sintonia com a proposta da Festa deste ano. Em sua homilia, Kelder destacou a urgência de construir a paz a partir da realidade concreta das comunidades, especialmente aquelas marcadas pela violência, desigualdade e vulnerabilidade social.
Ao refletir sobre os desafios vividos nas periferias, o padre também chamou atenção para a necessidade de promoção da dignidade humana e do compromisso com a justiça social, reforçando o papel das pastorais sociais na defesa da vida e dos direitos, em consonância com a missão do Vicariato de fortalecer o diálogo entre Igreja e sociedade e atuar na promoção integral da pessoa humana .
A seguir, confira a homilia na íntegra:
Reunidos nesta manhã, alegramo-nos com a Mãe do Ressuscitado, Nossa Senhora da Penha, Senhora das Alegrias, nossa Padroeira, celebrando o seu dia, nesta que é a maior manifestação religiosa do Estado, recém-elevada a Patrimônio Cultural do Brasil. Nosso reconhecimento e agradecimento ao senador Fabiano Contarato por esse presente. Viva Nossa Senhora da Penha!
“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”! Esta súplica bonita e sincera de São Francisco de Assis, que inspira a Festa neste ano, ecoa na história e no nosso peito, fazendo-se ainda mais necessária neste tempo sombrio em que vivemos, ameaçado pelos horrores das guerras, em várias partes do mundo.
Todo cristão deve ser um instrumento da Paz, ou não será cristão! Mas não da paz que o mundo dá, como disse Jesus ao se despedir dos apóstolos, porque essa paz é uma farsa, imposta pela violência, pelo medo e pela opressão. Ela nega ao outro o direito sagrado de dizer o que pensa, o que sente e como quer viver. Ela não é paz! É medo, é subjugação, é silenciamento, é violência disfarçada.
A paz que o mundo dá é a paz imposta pelos imperadores, pelos tiranos, pelos déspotas, pelos idólatras, pelos falsos deuses e seus sacerdotes, que governam o mundo e se impõem na história. A Paz que Deus nos dá é tecida por todos e é para todos. Ela nasce junto com a justiça, o respeito, o diálogo, a participação, a consciência e o desejo sincero de ver a felicidade do outro.
Ao longo dos anos, a Arquidiocese de Vitória, através das pastorais, projetos sociais e demais forças vivas que atuam com a dimensão social da evangelização, tem sido uma artesã perene da Paz que vem de Deus, tecida por mãos amorosas de homens e mulheres, com os fios da conscientização, da solidariedade, do compromisso ético, do ecumenismo e do compromisso com a vida e a dignidade dos vulnerabilizados e excluídos da sociedade.
Homens e mulheres, instrumentos da paz, que consomem seus dias, suam o rosto e calejam os pés, indo ao encontro das pessoas em situação de rua; das pessoas encarceradas; dos idosos e enfermos, em casa ou nos leitos hospitalares; das crianças, adolescentes e jovens empobrecidos e vulnerabilizados; das crianças e adultos com o vírus da AIDS; das famílias empobrecidas que passam fome; das famílias sem moradia digna; das mulheres vítimas do machismo e da violência doméstica; dos trabalhadores e trabalhadoras explorados; das pessoas que têm seus direitos humanos básicos violados; das juventudes negras e periféricas, exterminadas por agentes do Estado; dos atingidos e atingidas por barragens; dos pescadores e ribeirinhos; do meio ambiente, que sofre com o descaso do poder público e com as ações humanas depredatórias.
Homens e mulheres generosos, que tecem com essas pessoas um projeto de vida e de mundo pacífico, que seja a manifestação do Reino de Deus na história, profetizado no canto de Maria, Mãe do Senhor.
As palavras de Maria que acabamos de ouvir no Evangelho de São Lucas manifestam o amor e a predileção de Deus pelos empobrecidos, humildes e fragilizados, contestando as formas de governos que desprezam a vida e a dignidade das pessoas, valorizando tão somente o poder e a riqueza.
Elas condenam com veemência a humilhação e a opressão dos empobrecidos e excluídos, vítimas de sistemas políticos e econômicos que idolatram o lucro, estimulam a competição e promovem guerras, como faz o neoliberalismo em nossos dias.
Maria denuncia as práticas desumanas e cruéis de governos autoritários e propõe uma nova ordem social e política, alicerçada na justiça divina, onde os humildes são elevados em dignidade, os famintos são saciados de pão, os poderosos são destituídos de seus tronos e os ricos são despedidos de mãos vazias.
Ela propõe a inversão da ordem dos sistemas políticos que se impõem com o uso de armas, fazendo guerras que destroem povos e nações ao longo da história e que, hoje, colocam em risco a nossa própria existência.
É nesse contexto extremamente desafiador em que vivemos que a súplica de São Francisco de Assis deve ecoar com mais intensidade em nosso interior: Senhor, fazei-me instrumento de Vossa Paz!
Precisamos ser instrumentos da Paz de Deus para transformar o mundo, a começar pela nossa realidade local. Nós vivemos em um Estado extremamente violento. Nossas comunidades sofrem dia e noite com a violência. Sequer conseguimos dormir direito com tantos tiros ao longo das madrugadas. Embora seja noticiado que houve diminuição de homicídios no Estado, nossas comunidades estão muito longe de serem comunidades seguras.
Em nome do combate ao tráfico de drogas e de armas, travam-se verdadeiras guerras nas periferias em que vivemos. O próprio Estado pratica violência. São mais de vinte e cinco mil encarcerados, em sua maioria absoluta jovens empobrecidos, negros e periféricos, sem mencionar o rastro de sangue e de corpos tombados diariamente nas periferias do Estado. Jovens e adolescentes negros, empobrecidos, moradores de periferia, tratados como inimigos do Estado, sob o nosso olhar complacente e os aplausos dos serviçais da morte.
No fundo, todos nós sabemos que essas ações não têm o objetivo de acabar com o tráfico de drogas ilícitas e de armas. Todos nós sabemos que os jovens das periferias, que atuam no tráfico, logo serão presos ou mortos, porque a vida deles é descartável, tanto pelos seus chefes quanto pelas nossas instituições.
Sabemos que não são eles que comandam e enriquecem com o tráfico. Na verdade, eles pagam a conta para o deleite da classe média e rica que consome as drogas em larga escala. Sabemos que o lucro do tráfico financia campanhas políticas, compra igrejas e está na conta dos investidores do coração financeiro do país e dos paraísos fiscais.
Sabemos que “o maior traficante de drogas do Estado é um policial”. Um policial responsável pela delegacia de combate ao tráfico de drogas e de armas. Essas palavras não são de um padre e, sim, de um delegado de polícia. Mas isso não deve ser — e não é — novidade para ninguém do Espírito Santo. Nós sabemos dos interesses e das blindagens institucionais que as corporações policiais têm no Estado, e isso não é de hoje:
Há quantos anos as ações violentas e desproporcionais dos agentes de segurança do Estado, violando os direitos dos moradores de periferia, são denunciadas sem que os órgãos de controle externo das polícias tomem providências?
Há quantos anos é denunciada a inoperância das corregedorias, quando os direitos dos pobres são violados por agentes do Estado?
Há quantas décadas a sociedade civil reivindica uma ouvidoria independente, sem que seja ouvida?
Há quantos anos reivindicamos o uso de câmeras nos uniformes dos policiais que fazem operações nas periferias e somos ignorados?
E o país inteiro ouviu que um policial denunciado há quase uma década na corregedoria por envolvimento com traficantes atuava no principal órgão de repressão ao tráfico. Que vergonha para a Segurança Pública do Espírito Santo!
Mas isso só veio a público porque existe uma crise institucional instalada em um dos órgãos de segurança pública, a polícia civil. Mas porque isso está acontecendo? A quem interessa essa lambança toda? Quem é beneficiado e quais grupos políticos serão fortalecidos com essa crise na segurança pública?
A página do crime organizado nunca foi virada no Espírito Santo. Ela continuou sendo escrita por novos autores e com letras diferentes, livremente, nos submundos sombrios das instituições e, agora, se sente fortalecido para emergir à luz do dia. Porque quase trinta anos depois é que se volta a falar em crime organizado com tanta ênfase no Estado? Essa é uma pergunta que todo capixaba se deve fazer e esperamos que Nossa Senhora da Penha ilumine essa dimensão obscura das instituições capixabas.
Precisamos ser instrumentos da paz para acabar com a violência nas periferias perpetrada pelas instituições e para acabar com a violência de gênero no Estado.
Quantas mulheres ainda serão assassinadas, vítimas do machismo? Só este ano já foram mais de 30 mulheres. Isso é horrível! O machismo é um pecado grave, que destrói a vida e a dignidade das mulheres. Como uma praga, ele está presente em toda parte, infestando mentes, corações e as instituições, principalmente as instituições religiosas, como a nossa Igreja.
Nós, Igreja, temos uma dívida histórica com as mulheres e precisamos refletir sobre isso.
Quantas Daniele Toneto, Francisca Chaguiana Dias Viana, Deyse Barbosa, Thais Rios, Juliana El-Aouar, Fabiane Rizzo, Andreia Cristina da Silva, Juliana dos Santos, Sara da Cruz Moulin Merçon, Milena Gottadi, Araceli, serão enterradas, até que nós, cristãos, compreendamos, que precisamos enfrentar os discursos e as práticas machistas, naturalizadas em nosso meio, por pessoas e pelas instituições?
Senhor, fazei-nos instrumentos da paz para acabar com a violência contra as mulheres, contra as crianças e contra os adolescentes.
Senhor, fazei-nos instrumentos da paz para acabar com o racismo estrutural que exclui, humilha e mata diariamente a juventude negra do nosso país.
Senhor, fazei-nos instrumentos da paz para acabar com a fome que ainda atinge milhares de famílias em nosso Estado e em nosso país.
Senhor, fazei-nos instrumentos da paz para defender a vida em todas as suas dimensões e promover a dignidade humana, fundamento de toda a ação evangelizadora da Igreja.
Queridos irmãos e irmãs, ser instrumento da paz é assumir uma postura firme diante das injustiças, sem medo das consequências. É denunciar o pecado estrutural que gera exclusão, violência e morte. É anunciar a esperança que nasce do Evangelho de Jesus Cristo.
A paz que Jesus nos oferece não é ausência de conflitos, mas a presença da justiça. Não é silêncio diante da opressão, mas coragem para enfrentar as estruturas que geram desigualdade e sofrimento.
Celebrar a Festa de Nossa Senhora da Penha, Senhora das Alegrias, é renovar em nós o compromisso com a construção da paz verdadeira, aquela que nasce do amor e se concretiza na justiça.
Neste tempo Pascal, quando celebramos a vitória da vida sobre a morte, somos convidados a renovar nossa fé e nossa esperança.
Que Maria, Mãe do Ressuscitado, interceda por nós e nos ensine a ser instrumentos da paz em nossas famílias, em nossas comunidades e em toda a sociedade.
Que Nossa Senhora da Penha, Padroeira do nosso Estado, nos ajude a caminhar com coragem, fé e esperança, comprometidos com a construção de um mundo mais justo, fraterno e solidário.
Amém.




























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