Nasce a Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe

26 janeiro, 2021

Edebrande Cavalieri

Na Exortação Apostólica pós-sinodal “Querida Amazônia”, o Papa Francisco nos apresenta quatro sonhos e um deles é o sonho eclesial que tem como características a sinodalidade, a colegialidade, a inculturaçao, a participação das mulheres e a itinerância apostólica. E no que se refere à sinodalidade, Francisco nos aponta a necessidade de uma renovação na forma de estruturar as Igrejas locais em cada região e país. Um dos exemplos inspiradores da sinodalidade foram as comunidades eclesiais quando souberam integrar a defesa dos direitos sociais com o anúncio missionário e a espiritualidade.

Foi nesse espírito de renovação que o Conselho Episcopal Latino-americano (Celam) anunciou a caminhada sinodal rumo à Assembleia Eclesial Latino-Americana e Caribenha que acontecerá entre os dias 21 a 28 de novembro de 2021 na Cidade do México. O Papa Francisco anunciou no último dia 24 de janeiro essa grande novidade definindo-a como “um encontro do Povo de Deus”.

O Pontífice enviou uma mensagem para esse momento indicando dois critérios para a caminhada que nos abrirá novos horizontes de esperança. Que seja realizada junto com o povo de Deus, “que não seja uma elite separada do santo povo fiel de Deus”, pois somos parte desse povo e dele nascemos. É do povo de Deus “que surgem as elites, as elites iluminadas por uma ideologia ou outra, e esta não é a Igreja”. Essa questão é fundamental para os dias atuais em que grupos ideológicos, apoiados em visões de Igreja do passado que foram redimensionadas pelo Concilio Vaticano II, tentam impor seu próprio caminho como eclesial para toda a Igreja, muitas vezes, pondo em risco a própria unidade.

E nos esclarece ainda mais nessa mensagem. “A Igreja se dá no partir do pão, a Igreja se dá com todos, sem exclusão”. Ser Igreja é bem diferente de seguir uma escola filosófica, um guru iluminado, um astro de TV. Há uma diferença profunda entre o palco e o altar e ela está alicerçada na Eucaristia enquanto comungamos e nos encontramos como povo de Deus. O pão é para todos. “Uma Assembleia de Igreja é o sinal de uma Igreja sem exclusão”. A Assembleia Eclesial não pode ser um encontro de notáveis, como se fosse uma espécie de Congresso. A mesa da Palavra nos reúne e nos alimenta, e somente dessa forma pode ser dita Assembleia Eclesial. Ninguém deverá estar nessa Assembleia para apresentar os últimos resultados de uma pesquisa, mas para levar as vozes, as dores, os anseios, as esperanças do Povo de Deus.

O segundo critério que o Papa nos pede para levarmos em conta de maneira séria é a oração, pois “o Senhor está em nosso meio. Que o Senhor se faça ouvir, daí nosso pedido de que Ele esteja conosco”. Uma caminhada sinodal dará frutos na medida em que integrar esses dois princípios. A Arquidiocese de Vitória já fez uma experiência de caminhada sinodal de três anos por ocasião do I Sínodo Arquidiocesano concluído em 24 de agosto de 2009, que tinha como lema “Caminhar juntos na acolhida fraterna e na esperança”. Foi uma grande experiência de caminhada. Nada fácil, pois temos o hábito de caminhar sozinhos ou somente com quem anda na mesma direção e velocidade.

Essa caminhada que ora se inicia, seguindo esses princípios norteadores, será feita com três momentos fundamentais de preparação: a dimensão espiritual numa perspectiva de uma “mística da caminhada”, o momento da escuta do povo de Deus para que suas vozes possam repercutir no Encontro que acontecerá na Cidade do México.

Essa Assembleia é também uma retomada da reflexão sobre os importantes aspectos do Documento de Aparecida resultante da V Conferência Episcopal Latino-americana ocorrida em 2007. Dom Walmor de Azevedo, presidente da CNBB, nos lembra que assim concebida a Assembleia da Cidade do México se destina não a uma elite eclesial, mas “aos leigos e leigas, religiosas e religiosos, diáconos, seminaristas, sacerdotes, bispos, cardeais e pessoas de boa vontade”, que farão parte das mais diferentes formas deste grande evento eclesial.

Alguém poderia nos perguntar pela Conferência Episcopal. Ela continuará a existir, mas já demonstra uma reestruturação dotando-a de uma organização mais leve, mais flexível e eficaz. Desde setembro do ano passado, quando ocorreu uma reunião de todas as conferências que compõem o CELAM, essa organização eclesial apresenta-se na linha de renovação da Igreja desejada pelo Papa Francisco, promovendo “uma Igreja mais evangelizadora, missionária, sinodal e em saída”. O sonho dos participantes dessa reunião do ano passado era “tecer uma ‘rede de redes’, articular e integrar os organismos eclesiais e fortalecer as alianças institucionais para que, numa chave de colegialidade e sinodalidade missionária, se promova uma conversão integral, descentralizada e profética na Igreja na América Latina”.

A retomada de Aparecida é muito significativa, configurando “uma proposta restauradora e regeneradora”, que se expande além do perfil episcopal para se tornar sinodal. Não se trata de revisar Aparecida, mas incorporar nesse momento a caminhada do povo com maior presença. Muitas vezes, quem está à frente de uma determinada comunidade se esquece que tem pessoas que caminham devagar, alguns quase parando, outros correm. Aparecida representa uma caminhada extraordinária, com um enorme apelo de renovação da vida da Igreja em nosso continente, como discípulos missionários. Agora a Assembleia que acontecerá na Cidade do México quer continuar essa caminhada de Aparecida com maior força sinodal, com todo o Povo de Deus caminhando junto.

Segundo dom Odilo Scherer, vice-presidente do CELAM, essa assembleia é uma oportunidade de “recordação dos principais pontos da Conferência de Aparecida, que ainda talvez precisam ser destacados mais e ser retomados”. Na verdade, essa Assembleia está fincada no Magistério do Papa Francisco não apenas retornando ao Documento de Aparecida em que teve papel destacado como redator, mas avançando com novos caminhos, para uma Igreja de discípulos missionários, rumo ao sonho de uma “fraternidade universidade e amizade social”.

Aparecida foi muito marcante na vida da Igreja Latino-Americana em diversos aspectos. A metodologia adotada acabou trazendo o povo para bem pertinho. Todas as manhãs a Conferencia de Aparecida se iniciava com uma Eucaristia da qual participavam as multidões de fiéis no Santuário. E foi exatamente no dia 16 de maio, quando o Cardeal Bergoglio que era o principal redator do Documento concluía sua homilia ele foi aplaudido por toda a assembleia, algo não comum nas celebrações. Aquele aplauso que ecoou pelo Santuário despertou em muitos a consciência de que algo muito importante havia sido dito e o povo de Deus tinha entendido.

Talvez muitas comunidades ainda não tenham se dado conta da importância do evento que ocorreu em Aparecida em 2006. O próprio Bergoglio confessa que na redação daquele documento já estava cansado de tanto ouvir falar da Amazônia e se perguntava: “O que a Amazônia tem a ver com a evangelização?” Em 2015, ao publicar a Laudato Si’ confessa: “Eu tive um caminho de conversão, para entender o problema ecológico. Antes eu não entendia nada”.

Desta forma nasce a Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, colocando-se na esteira da Evangelii Gaudium dando um novo impulso às Conferências Episcopais e retomando a visão do Concílio Vaticano II. Será um tempo de conversão e renovação. Abre-se o caminho a nossa frente! Um horizonte a ser desbravado, não por aventureiros isolados, ou pelos que se acham os melhores conhecedores do caminho, mas pelo Povo de Deus peregrino. 

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