NATAL: O AMOR TORNOU-SE POBRE DEMAIS

21 dezembro, 2023

Nesses tempos natalinos o mundo se enche de luz, de música e tantos movimentos. Muita pressa! O comércio parece ser o movimento predominante. Mercado nervoso, pois é preciso vender. É preciso comprar. Vive-se um tempo bem na contramão do sentido profundo do Natal. Ao mesmo tempo a Igreja conduzida pelo Papa Francisco nos convoca para vivermos a amizade social, pois somos todos irmãos.

Envolvido nesses pensamentos contraditórios de um mundo que parece não abrir mão das guerras e do ódio, da divisão e indiferença, busquei inspiração numa música de natal muito conhecida na Itália e também entre nós. Trata-se da composição (letra e música) de Santo Afonso Maria de Ligório – “Tu scendi dalle stelle” (Tu desces das estrelas), composta em 1754. Trata-se de uma obra lindíssima de admiração pelo Mistério da Encarnação, e uma das canções natalinas mais famosas na Itália com interpretação marcante de Luciano Pavarotti.

Santo Afonso é uma das pessoas mais cultas e comprometidas com o Evangelho. Como advogado tornou-se muito famoso e defensor das causas dos menos favorecidos da sociedade. Aos trintas anos foi ordenado padre tendo como lema de ordenação “Deus me enviou para evangelizar os pobres”. Sua vocação sempre foi pautada por esse objetivo, e por isso criou a Congregação dos Padres Redentoristas que possuem como missão a pregação do Evangelho aos pobres.

Nesse sentido, a composição natalina que estamos fazendo referência nessa reflexão nos toca profundamente, mostrando o verdadeiro sentido espiritual do Natal. Não se trata de uma crença ou devoção religiosa apenas, uma festa como tantas outras, mas de um comprometimento com o mistério da Encarnação.

Esse Mistério deve ser admirado a partir do lugar onde se deu o fato: numa gruta, ao frio, ao léu. Tu desces das estrelas, não para sentar em trono real, mas para uma pobre manjedoura. Lugar de alimentação dos animais. Não era berço lindamente preparado para o nascimento. Santo Afonso fica chocado com essa beleza, divina. E exclama: “Que preço tu pagaste por ter-nos amado”!

O sentimento de admiração ao qual aponta a canção é um processo atrativo através do qual não passamos indiferentes. Não é um olhar que passa, uma cena que se vai. Não é uma noite festiva como tantas outras. A admiração mística nos carrega e nos sustenta. Essa admiração nos compromete com o sentido mais profundo da fé cristã.

Como Jesus nasceu no hemisfério norte, era tempo de inverno rigoroso. Santo Afonso não se contém e conversando com o Menino Deus diz: “Eu te vejo a tremer de frio, faltou roupa, faltou fogo para aquecer”. Não faltou comida, pois tinha o leite materno, contudo seus pais devem ter sentido fome naquela noite santa.

Tu desces das estrelas não carregado em carruagens douradas, entre fogos explodindo no horizonte, mas no silêncio frio de uma simples gruta. “Como esta pobreza me apaixona demais”, exulta o santo. “Que preço que pagaste”!

Santo Afonso termina sua canção admirando a Encarnação do Verbo dizendo que “o amor tornou-se pobre demais”. Não temos capacidade para entendermos racionalmente tal mistério. Por isso, o Natal nos chama para a admiração desse cenário. Esse é o presépio descrito pelo fundador dos Redentoristas. Essa é a missão que decorre dessa contemplação da noite de Natal. Foi nessa compreensão que outro santo, Francisco, dizia bem antes que “somos todos irmãos” (Fratelli Tutti), e a Igreja hoje, conduzida pelo Papa, nos convoca para a “amizade social”.

Edebrande Cavalieri

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