Naufrágio civilizacional

7 dezembro, 2021

Entre os dias 2 e 6 de dezembro passado, o Papa Francisco realizou sua 35ª viagem apostólica para Chipre e Grécia, denominando-a de “peregrinação às fontes”, indicadas como a fraternidade, Chipre como a antiga fonte da Europa pois representa um galho da Terra Santa no continente europeu e a humanidade. Esta terceira fonte é representada pela visita a Mytilene-Lesbos, ponto emblemático do problema migratório que ele visitou há cinco anos atrás. Tristemente confessa o Papa que pouca coisa mudou desde aquele momento.

Foi ali em Lesbos que o Papa demonstrou toda sua dor mencionando “um naufrágio civilizacional”. É urgente mudar a mentalidade da humanidade que acha como solução o fechamento de fronteiras e a construção de muros. Nem para a pandemia o fechamento de fronteiras impede a disseminação do vírus. Se cada país pensar apenas em si mesmo para se salvar, toda a humanidade irá naufragar cada vez mais em seus problemas e pandemias. A vacinação deve atingir a todos os povos e não apenas os mais ricos que imaginam estarem salvos desse mal. Por outro lado, o Mediterrâneo que foi um símbolo de vitalidade para as diversas nações em seu entorno, hoje está se tornando um grande cemitério.

O Papa manifesta toda sua dor dizendo: “Não deixemos que o nosso mar se transforme num mar desolado de morte. Não deixemos que este ponto de encontro se transforme num teatro de conflito. Não deixemos que este mar de memórias se transforme num mar de esquecimento. Irmão e irmãs, por favor, vamos pôr fim a este naufrágio civilizacional”. E antes de viajar de volta, em Atenas, fez um apelo aos jovens para que “não se contentem com encontros virtuais, mas procurem encontros reais”. Sente como ilusória a proximidade virtual, mesmo importante durante a pandemia.

Essa visita à Grécia e Chipre está marcada pelo grande problema da crise humanitária decorrente dos processos migratórios. O Papa reconhece que foram feitas muitas coisas, mas ainda o mundo está preso a medidas paliativas. Esse é um problema mundial, que diz respeito a todos os povos. A pandemia nos mostrou como estamos no mesmo barco, tendo os mesmos temores e morrendo com o mesmo vírus. “Compreendemos que as grandes questões devem ser enfrentadas em conjunto, porque, no mundo atual, são inadequadas as soluções fragmentadas”.

Conclui o Papa pedindo que todos os povos acordem da indiferença com os mais pobres. É preciso que toda a humanidade seja vacinada e a questão migratória seja resolvida por todos, pois não é um problema grego ou europeu apenas. E nos diz: “Está em jogo o futuro de todos, que, só poderá ser sereno se for integrador. Somente se reconciliado com os mais frágeis é que o futuro será próspero. Pois quando os pobres são repelidos, repele-se a paz. A história nos ensina que fechamentos e nacionalismos levam a consequências desastrosas. A história, repito, nos ensina, mas ainda não aprendemos”. E pede a Deus para que nos ajude a acordar da indiferença, a superar a paralisia do medo, a indiferença que mata, o desinteresse cínico que com luvas de pelica condena à morte quem está colocado à margem, à periferia do mundo.

A opinião pública é levada pelos diversos noticiários ao medo do outro. Mas porque não se fala da mesma forma da exploração dos pobres, das guerras esquecidas e financiadas por potências poderosas, dos acordos econômicos assinados na pele do povo, das manobras secretas para contrabandear armas e fazer prosperar o seu comércio de importação pelos países pobres? Os pobres são até usados para as campanhas políticas com programas de governo contra os próprios pobres. Quantas reformas trabalhistas foram feitas alegando o crescimento do emprego e renda, mas o que se viu prosperar é o aumento dos desempregados, dos que buscam a sobrevivência com “bicos”.

O naufrágio civilizacional é de grandes proporções. Cria-se de maneira veloz uma sub-humanidade com os descartados. Para recomeçar basta “olhar nos olhos das crianças, mas é preciso ter coragem para nos envergonhar à vista delas, que são inocentes e constituem o futuro”. E conclui o Papa sua viagem pedindo que não deixemos que o mare nostrum se transforme num desolador mare mortuum, mar do esquecimento, mar da morte. Foi às margens desse mar que Deus se fez homem. Ele nos ama como filhos e nos quer irmãos. Muitos até justificam em nome de valores cristãos o vaivém da indiferença, mas a fé “pede compaixão e misericórdia, exorta à hospitalidade”.

Edebrande Cavalieri

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