NOVO CONSISTÓRIO E A REFORMA DA IGREJA

27 setembro, 2023

No dia 30 de setembro desse ano, será realizado o novo Consistório que é uma assembleia solene convocada pelo Papa Francisco quando serão empossados 21 novos cardeais que formam o colégio cardinalício. Ele será o responsável pela escolha de novo papa e também de prestar assistência colegialmente ao Pontífice na condução da Igreja. Esse é o nono consistório convocado pelo Papa Francisco.

O título de cardeal vem da terminologia latina cardo, que significa eixo sobre o qual gira uma porta. Ele está presente desde os tempos primitivos da Igreja quando o segundo sucessor de Pedro, o Papa Anacleto nomeou 25 presbíteros das comunidades primitivas em Roma. Contudo, na forma de título deu-se pela primeira vez com o Papa Silvestre que governou a Igreja entre 314 e 335. O período medieval sofreu alguns reveses em sua composição, com muitas disputas entre famílias romanas, e por esse motivo em 1.050 o Papa Nicolau II decidiu que a eleição do seu sucessor daí em diante seria realizada pelo colégio dos cardeais.

A convocação de um consistório pode ocorrer de maneira ordinária ou extraordinária para tratar de assuntos fundamentais da vida da Igreja. Portanto, trata-se de um conselho que está em permanente vigília em relação à Igreja do mundo inteiro em comunhão com o Papa. Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo de Belo Horizonte e ex-presidente da CNBB, nos diz que a convocação de um Consistório é um “forte apelo a todos os batizados e batizadas para assumirem com empenho a missão de anunciar a Boa Nova do Evangelho, trabalhando incansavelmente pelo Reino de Deus”.

Entre os requisitos exigidos previstos no Código de Direito Canônico e observados na escolha dos novos membros do Consistório destacam-se “homens que receberam a ordenação sacerdotal e se distinguem pela sua doutrina, piedade e prudência no desempenho dos seus deveres”. São escolhidos livremente pelo Romano Pontífice.

Como se apresenta no novo colégio de cardeais que se completa com a nomeação de 21 novos membros? A primeira coisa que nos salta aos olhos é sua proveniência, mostrando assim a universalidade da Igreja. O Papa Francisco diminuiu a força numérica dos cardeais europeus e aumentou o peso da África e da Ásia que atinge o percentual de 48%. Também a Itália perdeu representação passando de 24% para 13%. Porém, esse grupo menor se apresenta mais homogêneo.

Entre os novos membros destaca-se a escolha do bispo argentino, Victor Manuel Fernandez, que é amigo pessoal de Francisco e grande colaborador em textos importantes como Amoris Laetitia. Também merecem destaques os nomes de três bispos que estão em países muito tensos – Jerusalém, Sudão do Sul e China.  É motivo de grande alegria para alguns países que viram pela primeira vez um cardeal como Lesoto, Albânia, Timor Leste e Tonga.

A maioria dos cardeais escolhidos no pontificado do Papa Francisco com menos de 80 anos – eleitores no conclave – vivem longe de Roma e dos seus boatos. Há uma desromanização e uma expressão maior da catolicidade no corpo cardinalício. Porém, tem vantagens e inconvenientes. Um deles confessa: “Por um lado, você escapa das intrigas de Roma e sem dúvida é mais consciente da real necessidade da Igreja. Mas, por outro lado, não nos conhecemos, ou apenas através da imprensa, com o consequente risco de caricatura”. Em razão disso, o próximo conclave deverá gastar mais tempo até a saída da fumaça branca.

A linha reformadora da Igreja defendida no Concílio Vaticano II e retomada com força pelo Papa Francisco, antes mesmo de sua eleição, era o maior desejo dos cardeais que o elegeram, porém esse grupo precisará de tempo para se conhecer. A valorização do Sul global traz essa consequência, especialmente na valorização da África e da Ásia.

É preciso destacar dois brasileiros estão entre os 21 membros: o Arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner. É o primeiro cardeal da Amazônia brasileira e já foi secretário da CNBB por duas vezes. O outro é Arcebispo de Brasília, Dom Paulo César Costa, que também é representante da CNBB junto ao CELAM.

Além deles, também se destacam dois arcebispos e um religioso que se distinguiram pelo serviço à Igreja. O religioso é o padre Luís Pascual, de Buenos Aires, com 96 anos e com grande e significativo trabalho dedicado à Igreja conforme nos diz o próprio Papa Francisco.

Dom Walmor destaca o papel fundamental do Colégio Cardinalício, a comunhão vivenciada em torno ao Sucessor de Pedro. Textualmente assim nos diz: “Essa comunhão estimula a Igreja a continuamente concretizar a comunhão em todas as suas instâncias, tornando-se uma Igreja sempre mais solidária e sinodal, capaz de ‘escutar com o coração’ o clamor dos que sofrem, ‘falar com sabedoria e ensinar com amor’”.

Pergunta-se: então o Papa Francisco estruturou um colégio cardinalício “a sua imagem e semelhança”? Seria muita ingenuidade nossa acreditar que esse corpo seja homogêneo em todas as questões. As resistências às reformas por diversas vezes confessadas pelo próprio Papa Francisco estavam presentes na própria Cúria Romana. O Papa que veio lá “do fim do mundo” enfrentou e enfrenta cotidianamente resistências. Não se trata de resistências doutrinárias como a Direita Cristã quer atribuir, mas pastorais. O Papa Francisco é o primeiro que foi ordenado sacerdote após o Concílio Vaticano II.

Os quatros pontos de sua fala às Congregações Gerais durante o conclave que o elegeu continuarão a repercutir no espírito do colégio cardinalício, que são direções apontadas pelo Concílio. Não deverá desaparecer a “evangelização como zelo apostólico” que supõe uma Igreja capaz de “sair de si mesma”, que abandone sua autorreferencialidade e sua autossuficiência que são raízes das diversas patologias eclesiais.

E por fim, com esse movimento de sair de si mesma, esse colégio de cardeais sinaliza o caminho que leva a Igreja “rumo às periferias geográficas e existenciais”. Como o Papa sinalizou na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium em 2013, esse colégio de cardeais traz em suas fileiras uma composição que deve ajudar a Igreja na alegria de evangelizar, com uma espiritualidade que se liga a um vigoroso compromisso social e missionário.

Edebrande Cavalieri

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