Francisco, um papa incansável e preocupado com as dores do mundo, lança a IVª Encíclica de seu pontificado no contexto de um mundo que parece ter perdido o coração diante de tantas guerras, mortes, crises de vários tipos, novas tecnologias. Às vezes ou quase sempre, ao vermos os noticiários, temos a impressão de estarmos perdendo nossa essência humana. A crueldade cresce diante dos homens com matanças em guerras entre países, culturas, ideologias e guerras urbanas. A crueldade diante dos habitantes da casa comum, incendiada, queimada, destruída, completa o cenário de um mundo que parece ter perdido o coração. O que leva o Papa a escrever essa Encíclica?
Diante desse cenário catastrófico, o Papa Francisco nos convoca para olharmos para o Coração Sagrado de Jesus. O coração revela a unidade de um ser, sua interioridade e sua capacidade de pensar e agir. Quando essa essência se desfigura dizemos popularmente que alguém age sem coração. A Igreja, ao trazer para os fiéis a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, quer mostrar o imenso amor do Filho de Deus que O levou a entregar-se por nós na cruz e a dar-se como Eucaristia, como Sacramento do Altar.
Trata-se de uma devoção que nos insere no Mistério da Salvação, da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Ela já existia na Igreja, porém sua difusão cresceu muito com as três aparições à freira da Visitação, Santa Margarida Maria Alacoque, no convento de Paray-le-Monial na França. A primeira delas ocorreu no dia 27 de dezembro de 1673 num momento de profunda oração e recolhimento da santa diante do Santíssimo exposto no altar. A festa foi instituída em 1856 pelo Papa Pio IX em meio às crises em que a Igreja vivia na Itália com as lutas políticas pela unificação deste país.
Ao olharmos a imagem do Sagrado Coração se manifestando sobre um trono em chamas, rodeado por uma coroa de espinhos simbolizando os pecados dos homens que vão ferindo e sangrando o coração, nos colocamos em oração para podermos mudar nosso modo de olhar os outros e o mundo, mudar nossas perspectivas de vida e nossos objetivos. A devoção deve nos levar a um processo de conversão de nosso olhar, de mudança de nosso coração.
O Papa Francisco sempre se mostrou sintonizado com essa devoção e chega a relacioná-la à missão dos sacerdotes. A eles indica a necessidade de orientar seu coração sempre para a ovelha perdida, para aquele que está distante, para os últimos, para os corações feridos pela guerra e pela violência. Em tantos momentos de seu pontificado ele mostrou estar com o coração partido diante do sofrimento das pessoas. Sentiu do fundo de seu coração como há tantas pessoas agindo sem coração ou parecendo não ter coração, alimentando as guerras feitas em pedaços pelo mundo a fora.
Seu antecessor, Papa Bento XVI, ao celebrar o 50º aniversário da Encíclica Haurietis aquas do Papa Pio XII, destaca que o mistério do amor de Deus por nós “não constitui apenas o conteúdo do culto e da devoção ao Coração de Jesus: ele é, da mesma forma, o conteúdo de toda verdadeira espiritualidade e devoção cristã”. Tal devoção tem o amor como princípio, meio e fim; por isso o título Dilexit nos – Ele nos amou.
Na aparição a Santa Margarida Alacoque Jesus lhe diz que não recebe senão “da maior parte dos homens desprezo, ingratidões, ultrajes, sacrilégios, indiferenças” e pede que seja realizada uma festa na sexta-feira depois de Corpus Christi dedicada para honrar o seu nome com um ato de desagravo para reparar as indignidades que recebe.
A nova Encíclica do Papa Francisco também aponta o caminho para todo o conjunto de devoções que movimenta a espiritualidade cristã atualmente. Não podemos estacionar nossa espiritualidade numa determinada prática devocional, mas caminhar para o Coração de Cristo que é o centro da misericórdia revelada por Deus.
Ao lermos as doze promessas feitas por Jesus Cristo à Santa Margarida Maria Alacoque podemos perceber como essa devoção alarga o horizonte da espiritualidade cristã. As promessas nos remetem para “a paz nas famílias”, o “consolo nas aflições”; promessas onde os “pecadores encontrarão inesgotável misericórdia”, “e as almas tíbias encontrarão forças” e “os sacerdotes encontrarão poder para tocar os corações mais endurecidos”.
Dessa forma, a nova Encíclica representa uma atualização da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, em novos contextos históricos, representando um valor e com respostas profundas para toda a humanidade.
Assim com essa devoção, a Igreja é chamada a ser sinal da misericórdia “que se suja, toca, se envolve, quer se comprometer com o outro…empenha-se com uma pessoa, com sua ferida”, nos diz o Papa Francisco. É preciso que nossa espiritualidade nos leve a recolocar o lugar do coração nas pessoas, nas relações, nos grupos, nos países. O caminho da devoção nos deve levar para uma “renovação eclesial” e “dizer algo significativo para um mundo que parece ter perdido o coração”.
Edebrande Cavalieri

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