Na tarde desta Sexta-feira Santa, a Catedral Metropolitana de Vitória foi tomada por um grande silêncio. Fiéis reunidos, passos contidos, olhares voltados ao altar despido: ali, mais do que uma celebração, vivia-se um mergulho no mistério central da fé cristã: a Paixão de Cristo.

Presidida por Dom Ângelo Ademir Mezzari, a liturgia seguiu o rito austero próprio do dia. Sem a celebração da Eucaristia, a Igreja se detém na escuta da Palavra, na oração universal e, sobretudo, na adoração da Cruz, gesto que sintetiza dor, entrega e esperança.
Em sua homilia, o arcebispo conduziu os fiéis a uma contemplação profunda. Mais do que recordar um acontecimento histórico, ele convidou a assembleia a um encontro pessoal com o Crucificado. “O convite deste dia santo é que nos coloquemos diante da Cruz e olhemos com os olhos da fé, do amor, da misericórdia e da gratidão”, afirmou.
Ao longo da celebração, a narrativa da Paixão segundo o Evangelho de João ressoou como um fio que costura sofrimento e redenção. A cruz, instrumento de morte no mundo antigo, foi apresentada como sinal paradoxal de vida. Dom Ângelo destacou esse contraste ao recordar que, na fé cristã, a dor não é o ponto final.
“A Cruz não gera medo, não gera angústia; é nela que podemos nos aproximar com confiança”, disse, sublinhando que o sofrimento de Cristo não afasta, mas aproxima, humaniza a dor e a transforma em caminho de esperança.

O momento da adoração da Cruz foi o ápice da celebração. Um a um, os fiéis se aproximaram, alguns em silêncio absoluto, outros em oração sussurrada. Ao contemplar o Cristo crucificado, Dom Ângelo lembrou dos “crucificados” de hoje: os pobres, os doentes, os esquecidos, os que carregam cruzes invisíveis no cotidiano. A Paixão, assim, deixa de ser apenas memória litúrgica e se torna lente para enxergar o mundo.
No fim da celebração, poderiamos pensar na pergunta: o que significa, hoje, olhar para a cruz?
Talvez a resposta não esteja em compreendê-la totalmente, mas em aceitá-la como espelho da própria condição humana. A cruz é dor, mas também é caminho. É limite, mas também abertura. Nela, o sofrimento não é negado, é atravessado.
E é justamente aí que reside sua força: no mistério de um Deus que não elimina a dor, mas a habita e, ao habitá-la, a transforma em possibilidade de vida.













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