O crescimento das Igrejas Evangélicas e Pentecostais

1 julho, 2021

Edebrande Cavalieri

Esse é outro tema que o Documento para o caminho da I Assembleia Eclesial nos apresenta nesse momento de escuta: o crescimento cada vez maior das Igrejas evangélicas e pentecostais no nosso continente, com acentuado declínio do número de católicos em decorrência da emigração para outras realidades eclesiásticas. Segundo projeções das pesquisas sobre questões da religião, em 2022 teremos no Brasil 49,9% de católicos contra 31,8% de evangélicos e pentecostais. Em 2032 a projeção apresenta um país com 38,6% de católicos e 39,8% de evangélicos. Esse processo se acentuou a partir de 1991 com o declínio de católicos a uma taxa de 1% ao ano.

O Documento da Assembleia Eclesial nos põe a questão: o que é que as pessoas procuram noutras igrejas? Por que é que não o encontram na Igreja Católica? O que é que está faltando? Na Conferência de Aparecida em 2007 falava-se do “êxodo de fieis para seitas e outros grupos religiosos”. As filiações evangélicas são consistentes e também cresce o grupo dos chamados “sem religião e ateus.

Vamos apresentar alguns dados históricos que nos permitem compreender esse processo de crescimento tão forte das Igrejas Pentecostais, conhecidas como evangélicas. Não há um consenso em relação à distinção entre protestantes da Reforma e pentecostalismo, pois esse nasce das próprias Igrejas protestantes, em função de uma busca de renovação espiritual. Suas bases estão fincadas no território norteamericano com o movimento de santificação levado sob a liderança de pregadores itinerantes que acreditavam na promessa do derramamento do Espírito Santo.

Ao mesmo tempo, desde o início, esse movimento religioso tendia a reduzir tudo ao nível espiritual. Acreditam de maneira absoluta que “tudo depende da vontade de Deus”; daí um discurso predominantemente mágico-religioso. As três Igrejas que compõem esse início são a Assembleia de Deus, a Congregação Cristã e a Evangelho Quadrangular. Dessa forma, vamos compreender o crescimento do pentecostalismo em toda a América Latina tendo sua origem a partir dos Estados Unidos e não dos países europeus que foram berço da Reforma protestante.

O protestantismo europeu, em função dos acordos entre o Papa de Roma e os monarcas de Portugal e Espanha, conhecidos como Padroado, encontrou muitas resistências nas colônias espanholas e portuguesa. Era praticamente impossível romper a cristandade colonial. A vinda dos primeiros evangélicos aconteceu meio às escondidas com os imigrantes alemães e suíços, só recebendo autorização para a implantação de Igrejas com a Proclamação da República em 1889.

O grande marco para a entrada dos pentecostais no Brasil foi a separação entre Igreja e Estado pela Constituição de 1891, pondo fim ao regime de padroado que conferia à Igreja Católica o direito de ser a Religião Oficial. Em 1910 a Congregação Cristã, e no ano seguinte a Assembleia de Deus compõem a primeira onda de presença pentecostal em terras brasileiras. Nas décadas de 50 e 60 foi a vez de O Brasil para Cristo, Deus é Amor, e Evangelho Quadrangular, formando a segunda onda. Por fim, nas décadas de 70 e 80 temos o nascimento da Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja Internacional da Graça em 1983. Daí em diante, os grupos religiosos foram se multiplicando numa verdadeira progressão geométrica.

O crescimento do pentecostalismo no Brasil pode ser marcado em três grandes movimentos: a disseminação da Assembleia de Deus entre as camadas mais pobres e de pouca escolaridade, as Igrejas eletrônicas e o ingresso na política partidária.

No primeiro momento, os adeptos do pentecostalismo, especialmente da Assembleia de Deus, foram muito discriminados pelos protestantes históricos e até perseguidos por determinados grupos católicos. Logo e de maneira rápida foram fincando pequenas igrejinhas nas periferias dos centros urbanos e lugares mais afastados. Nesse momento, a posição da Igreja pentecostal era de afastamento de qualquer assunto relacionado à política.

O segundo marco de expansão está na linha das Igrejas eletrônicas, com evangelistas que usam de maneira intensa os meios de comunicação, especialmente rádio e TV. Se no início o objetivo era a pregação transmitida e espalhada de maneira rápida através de revistas, panfletos, pregações nas ruas, nas Igrejas eletrônicas os meios são basicamente suas próprias redes de TV e Rádio e as redes sociais.

A grande guinada da Assembleia de Deus e outras denominações pentecostais é bem recente e foi feita de maneira deliberada com o ingresso na política partidária e na busca do poder, da visibilidade pública e da respeitabilidade social. A maior expansão desse tipo de postura está nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória. Foi nesse movimento de ingresso na vida política partidária que Eduardo Bolsonaro, membro da Igreja Batista do Rio de Janeiro, foi eleito com quase 2 milhões de votos. Na mesma linha Joice Hasselmann, nascida na Assembleia de Deus e frequentadora da Igreja Batista recebeu mais de um milhão de votos. Não devemos esquecer dos parlamentares Eduardo Cunha da Igreja Sara Nossa Terra, Marco Feliciano da Assembleia de Deus e tantos outros.

O ingresso do pentecostalismo na esfera do poder político foi determinante na vida política brasileira. Alguns analistas consideram esse segmento como determinante nas eleições. Hoje a Frente Parlamentar mais atuante com pauta própria e interesses particulares é a Evangélica com mais de 180 parlamentares de 20 partidos. Essa Frente foi decisiva na eleição do Presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Nas últimas eleições foi possível constatar o aumento de candidatos religiosos com os nomes de pastor ou missionário, demonstrando que a via política parece ser definitiva para as Igrejas pentecostais na defesa de seus interesses.

Diante desse quadro, ficam algumas questões que o Documento para o caminho da I Assembleia Eclesial: o que é que as pessoas procuram noutras igrejas? Por que é que não o encontram na Igreja Católica? O que é que está faltando? São questões que devem ser objeto de muitas reflexões nas comunidades católicas. Aqui queremos colocar um problema que nos parece importante refletir. Tem aumentado a percepção de que a grande guinada para o crescimento do meio evangélico no Brasil decorre da decisão de algumas Igrejas de usarem o espaço político como forma de fortalecer sua posição de poder na sociedade.

Em 2016 Damares Alves, pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular e da Igreja Batista de Lagoinha em Belo Horizonte, dizia que “é o momento de a Igreja ocupar a nação. É o momento de a Igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a Igreja governar”. Essas palavras estão ligadas diretamente às palavras de Deus descritas no Salmo 33, 12: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor, cujo povo ele escolheu para si mesmo”. Uma leitura fundamentalista e descontextualizada do texto bíblico leva automaticamente as pessoas a acreditarem em alguém que, ao ser batizado no Rio Jordão, seja visto como ungido de Deus. Expressões e ações de cunho religioso tem crescido em todas as esferas de poder político, tanto federal, como estadual e municipal. A própria nomeação de ministro do STF tem sido pautada com essa intenção – “ministro terrivelmente evangélico”.

Essa é a questão mais importante a ser refletida pelos católicos no caminho da I Assembleia Eclesial.  A América Latina e o Caribe, e não apenas o Brasil, tem presenciado o crescimento desse tipo de posicionamento religioso-político. A união entre política e religião na história da humanidade gerou tantas mortes, tantos sofrimentos. Os homens mataram-se em nome de Deus. Mas de qual Deus? Conhecemos tantas histórias das cruzadas medievais, das guerras de religião nos tempos modernos, das “guerras santas” dos muçulmanos. A luta pelo poder político com uso da religião e seus elementos simbólicos atenta contra o Estado democrático de direito. Não é compatível com o princípio do Estado laico. O que compete a qualquer Estado é garantir a liberdade de consciência, a liberdade religiosa plural, a liberdade de expressão da diversidade cultural e religiosa.

A formação de um pluralismo religioso no mundo atual é inconteste. As peias que amarravam as pessoas em seu recinto religioso caíram por terra. A liberdade de escolher o próprio caminho dentro de uma mesma família é comum nos dias atuais. O pluralismo religioso é uma questão essencial e o Papa Francisco nos coloca o caminho de uma “Igreja em saída” e não de uma fixação identitária. Ele nos pede “deixar-se surpreender por Deus”, que nos afastemos de um proselitismo tradicional que é “pecado problemático”. Ele proclama um Deus que surpreende, um Deus acolhedor e misericordioso. “Não é um Deus católico, mas que vem colorido pela diversidade”. Trata-se de um Deus acolhedor, feito de doçura e gratuidade nesse contexto de pluralidade.

Dessa forma, o crescimento das Igrejas Evangélicas e Pentecostais não deve ser motivo de desespero para os católicos, de uma nova cruzada aos infiéis que abandonaram a Igreja. É motivo sim para um verdadeiro exame de consciência de cada batizado, pois muitas pessoas abandonaram a Igreja por falta de acolhimento. A vontade misteriosa de Deus é insondável. Quem sabe Ele nos coloca esse caminho da pluralidade e em meio a ela Ele nos pede para deixarmo-nos surpreender com sua presença! O caminho para o Mistério maior que é Deus não é compatível com um fanatismo religioso que se espalha e cresce com movimentos afirmando certezas absolutas e convicções petrificadas.

O Papa Francisco nos diz que “se alguém tem a resposta a todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ele. Quer dizer que é um falso profeta, que usa a religião para si próprio. Devemos deixar espaço ao Senhor, não às nossas certezas”. Diante do crescimento das Igrejas evangélicas e pentecostais no continente latino-americano e no mundo o caminho a seguir é a construção de uma cultura do encontro e do diálogo. Não apenas diálogo com Igrejas, mas com as diversas espiritualidades presentes no mundo. Há que se derrubar os muros para a construção de pontes, tornando nova a própria humanidade.

 

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