O CUIDADO PASTORAL DE DOM GERALDO MAJELLA

28 agosto, 2023

A morte de Dom Geraldo Majella, cardeal e arcebispo emérito de Salvador, repercutiu intensamente nos meios de comunicação e na mídia em geral, independente do vínculo religioso. Os noticiários dedicaram grandes espaços para informações sobre a morte e o velório, porém o que mais nos chama a atenção é a vinculação quase automática com um dos organismos mais impactantes na sociedade que é a Pastoral da Criança, criada por ele em Londrina com a médica Zilda Arns, em 1983. Juntava-se a Dom Paulo Evaristo Arns que um ano antes teve um encontro com o diretor da UNICEF mostrando a preocupação com a mortalidade infantil objetivando enfrentar essa grande chaga social.

É nesse horizonte que o seu cuidado de pastor numa Igreja que se faz luz do mundo, transformando aquela realidade cruel, começa a mostrar resultados práticos. A taxa de mortalidade infantil era de 127 por cada 1000 habitantes. Um ano depois essa taxa caiu para 28 mortes no município de Florestópolis onde deu início. Hoje no Brasil a taxa de mortalidade infantil está em torno de 16 mortes por 1000 habitantes, contudo as desigualdades regionais mostram que no Norte do país a taxa atinge 21 mortes e no Nordeste 19.

O primeiro lugar para iniciar o movimento de cuidado com as crianças foi o município de Florestópolis. A morte das crianças era causada por diarreia que levava à desidratação e à desnutrição. Diagnóstico traçado em termos médicos. Como enfrentar essa realidade difícil? Dom Geraldo e a médica Zilda Arns iniciaram com uma receita simples composta do soro caseiro e uma mistura de farinhas. Nas mãos de voluntários, esse cuidado foi dando resultados altamente significativos, e foi crescendo até atingir o Brasil inteiro, a África, a Ásia e América Latina.

Sabemos que a Igreja não deve substituir as mãos do poder público. Porém, não podemos negar que foi a ação da Igreja nesse campo que pressionou os governos para políticas públicas eficazes. Mesmo assim, ainda hoje a Pastoral da Criança conta com mais de 260.000 voluntários, atuando de maneira ecumênica, promovendo educação e planejamento alimentar, hortas caseiras, aleitamento materno, etc. A mortalidade infantil é indicadora de saúde e condições de vida de uma população. A partir de 2010, o governo brasileiro estabeleceu uma política de vigilância do óbito infantil e fetal nos serviços de saúde, públicos e privados, que integram o SUS em vista do planejamento de ações para prevenção.

Podemos dizer com muita segurança que Dom Geraldo Majella exerceu o profetismo evangélico de maneira muito prática, acolhendo com amor, promovendo a fraternidade e a paz. Dom Sérgio da Rocha, atual arcebispo de Salvador, diz que ele marcou a Igreja pelo “jeito simples, fraterno, bondoso e delicado”. Sempre que o víamos nas mídias ficava e fica a imagem da mansidão. Aquela mansidão evangélica que Jesus tanto se referia. Não importam os cargos que ocupamos. Importa para qual finalidade os ocupamos. Alguns usam desses cargos para engrandecimento pessoal, mas Dom Geraldo sempre os colocava a serviço da Igreja.

A repercussão de sua morte ressalta sempre suas qualidades de “religioso íntegro”, “comprometido com as causas sociais”, “sinônimo de caridade, humanidade e de amor ao próximo”, que apontam sempre para a iniciativa fundadora da Pastoral da Criança.

O Papa Francisco, escolhido no conclave em que participava dom Geraldo escreveu: ‘Minhas orações são também de gratidão a Deus pelos longos anos de seu serviço dedicado à santa mãe Igreja, sempre guiado pelo zelo apostólico, nas várias missões que lhe foram confiadas como bispo de Toledo, arcebispo de Londrina, secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e, por fim, arcebispo primaz do Brasil e presidente da Conferência episcopal”. A sua grande marca foi sempre esse zelo apostólico fundamentado no cuidado que gera mais vida, mais força, une e protege. A CNBB destaca sua grande “afabilidade e virtude de criar laços de amizade e comunhão entre as pessoas”.

De maneira muito especial, a Igreja do Brasil ganha uma herança muito fecunda que sempre irá iluminar e animar a Pastoral da Criança, em sua tarefa de transformação social. Desse poço de águas limpas nasceram tantas outras inspirações, tantas fontes de vida para a superação das desigualdades sociais numa ação evangelizadora de transformação social. A herança deixada por Dom Geraldo Majella serve e sempre servirá para hidratar o caminho pastoral da Igreja. Fica a tarefa deixada por ele no sentido de criar laços de amizade que garantam a vida aos menos indefesos, as crianças. Muito obrigado, Dom Geraldo Majella. Avante, Pastoral da Criança!

Edebrande Cavalieri

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