O ensinamento do mar na pandemia

Edebrande Cavalieri |

As comunidades e grupos católicos ainda precisam avançar com mais força e empenho no estudo e na meditação da Doutrina Social da Igreja Católica. Nesse tempo de Campanha da Fraternidade Ecumênica que tem como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, é imprescindível o estudo dessa riqueza que a Igreja, através de seu Magistério, vem deixando para os fiéis. Muitas vezes, vemos com tristeza as pessoas brigando por causa de uma norma canônica ou litúrgica e, a partir de sua compreensão, vão tirando conclusões e proferindo condenações. Esquecem que há uma riqueza imensurável a seu dispor que é a Doutrina Social, que ampliaria em muito sua compreensão da fé cristã.

No Compêndio que pode ser baixado gratuitamente da internet a partir do site do Vaticano afirma-se que a Doutrina Social é um “instrumento eficaz de diálogo entre as comunidades cristãs e a comunidade civil e política”. Trata-se de uma visão bem abrangente do que vem a ser o diálogo que a Igreja nos aponta, para ser luz do mundo e sal da terra. Sem diálogo não teremos nem luz e nem sal. Tudo morre por inanição. Uma Igreja que se fecha em si mesma, autorreferente, está na contramão de uma “Igreja em saída” desejada pelo Papa Francisco. Uma Igreja fechada na sacristia tende a passar bem longe das feridas do homem. Para ser misericordiosa ela deve se abrir ao mundo.

Através do diálogo as comunidades cristãs enriquecem e fortalecem a relação com a sociedade civil e política. Foi-se o tempo em que a voz condenatória da Igreja era suficiente para pôr fim um determinado conflito entre as nações. O caminho atual se apresenta como uma possibilidade e um desejo de uma fecunda colaboração; jamais troca de favores como algumas vezes aconteceu na Igreja. Quando a Igreja recebe um favor do poder político pode-se ter certeza que o boleto da conta virá mais à frente. O custo é grande, e muitas vezes, vergonhoso, e anti-evangélico.

Nesse tempo de Quaresma com a Campanha da Fraternidade encontra-se um momento forte para que as comunidades cristãs possam denunciar as violências que se cometem contra os menos favorecidos e a violação dos Direitos Humanos. É preciso fazer ecoar a voz profética de Isaias: “Clamem com voz como de trombeta! Denunciem claramente ao meu povo a sua maldade, aos descendentes de Jacó os seus pecados”. Querem ter uma aparência de piedade e religiosidade, frequentam o templo diariamente, ouvem as leis do Senhor como se quisessem obedecer-lhes. Fingem cumprir corretamente os preceitos da justiça. Mas o profeta não teme proclamar sua hipocrisia e denuncia sua falsidade de coração.

A relação com as esferas civil e política não pode se descuidar. Cada pessoa que atua na sociedade e na política encontra na Doutrina Social não apenas apoio e orientação para fundamentar suas ações concretas, mas também como fonte de inspiração. O veredicto que se tornou tão comum para desqualificar qualquer ação social da Igreja como algo “comunista” precisa ser enfrentado e desconstruído com os conteúdos do Magistério da Igreja, com a sua Doutrina Social que se formou ao longo da história.

Hoje os católicos e cristãos são convocados para a defesa da dignidade da pessoa humana e as fontes para seu trabalho social estão no Evangelho de Jesus Cristo e na Doutrina Social da Igreja. É preciso romper alguns preconceitos formados nessa questão. Assim o Documento da Doutrina amplia os setores em que se pode encontrar fundamentos de apoio para a “promoção da paz; na luta concreta e eficaz contra as misérias do nosso tempo, tais como a fome e a indigência, o analfabetismo, a distribuição não equitativa dos bens e a carência de moradas”. Pessoas mal intencionadas irão dizer que esses pontos são da doutrina comunista. Não! Busquem no número 535 e seguintes da Doutrina Social da Igreja. Vivemos também uma epidemia de preconceitos e de compartilhamento de mentiras inclusive contra a própria Igreja.

Ao lermos o texto base da Campanha da Fraternidade deste ano podemos notar de maneira bem concreta como a Doutrina Social serviu de inspiração para a elaboração do texto. Nesse mesmo número acima citado as comunidades cristãs são chamadas para levar a sério isso, pois com esses fundamentos se “acresce a consciência da fraternidade em Cristo facilitando o caminho ecumênico”.

Por fim, o campo do diálogo torna-se ainda mais essencial nos dias atuais diante de tantos muros que separam as religiões e as nações do mundo. A Doutrina Social da Igreja não restringe o diálogo apenas com as Igrejas cristãs, mas aponta para a necessidade de uma diálogo fecundo “com todos os crentes das religiões do mundo, para que saibam compartilhar a busca de formas mais oportunas de colaboração” em vista da paz. O empenho comum é fator crucial para o desenvolvimento integral do homem. Assim todos são convocados para “um testemunho eficaz dos valores comuns a toda a família humana”.

Quero concluir essa reflexão trazendo à memória a imagem que percorreu o mundo, ocorrida no domingo, quando uma Freira em Mianmar saiu às ruas e, de joelhos em frente a uma tropa de soldados, pediu que as forças de segurança não atirassem nos jovens manifestantes que protestavam pacificamente. Sua ação foi eficaz num momento de alta repressão política. O apelo da Freira surpreendeu o mundo e percorreu as redes sociais. De maneira muito concreta, para mim, aquela imagem da Freira ajoelhada diante da tropa de soldados ecoa nos meus ouvidos o grito: “Cristo é a nossa Paz!”

Essa é a imagem de alguém que entendeu o Evangelho de Jesus Cristo e se faz voz profética sem nenhum palco. Para muitos líderes cristãos essa imagem é uma convocação para saírem de suas zonas de conforto, das proteções do medo, da insegurança de perder a referência social. A imagem se torna ainda mais significativa quando olhamos a composição religiosa desse país de 52 milhões de habitantes. A principal religião representando 87,9% da população é o Budismo. Os cristãos totalizam apenas 6,2% da população. Depois vem os muçulmanos, os animistas e os hindus. Afinal, quem era aquela Freira? Silencia-se seu nome, mas o mundo foi incapaz de silenciar seu grito. Diante do apelo daquela Freira a polícia parou. O empenho pastoral, segundo a Doutrina Social, se desenvolve como “anúncio do fundamento cristão dos direitos do homem e da denúncia das violações de tais direitos”. O palco da denúncia pode ser o chão sobre o qual os joelhos se dobram!

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