O JUÍZO FINAL E O DESTINO DAS OVELHAS

28 novembro, 2023

Gostaria de tomar a reflexão feita pelo padre Edemar Endringer da paróquia Bom Pastor em Vila Velha no momento da homilia na festa de Cristo Rei, comentando o Evangelho de Mateus, capítulo 25. (Parabéns, padre, pela linda e preparada homilia!). A imagem do Juízo Final em que o Filho do Homem, como um pastor, vai separando as ovelhas dos cabritos, colocando-os à direita e à esquerda, destinando a posse do Reino que foi preparado desde a criação do mundo para as ovelhas, e o fogo eterno destinado ao demônio e seus anjos. Na verdade, o Rei nada mais faz do que “fazer as contas” sobre o que cada um fez em sua vida na terra.

O Evangelho nos mostra a radicalidade da fé cristã que confere a uns o Reino e a outros o inferno. É a prova final! Que matéria cai nessa prova? O que vai determinar o nosso lado – das ovelhas ou dos cabritos? O amor! O amor na concretude da vida, a partir das ações mais simples e comuns – saciar a fome, matar a sede, vestir as pessoas, dar abrigo ao estrangeiro, visitar os enfermos, visitar os presos…Deus está conosco até o fim do mundo, contudo o que mais importa é o Deus que está em nós. Que Deus está em mim em cada momento da vida? Que Deus está em mim diante dos rejeitados do mundo?

A imagem da ovelha é das mais ricas em toda a Bíblia e aparece mais de 200 vezes, juntamente com a imagem do pastor e a ação de apascentar. Como é lindo esse versículo de Isaías (40, 11): “Como pastor ele cuida de seu rebanho, com o braço ajunta os cordeiros e os carrega no colo; conduz com cuidado as avelhas que amamentam suas crias”. Em quem se fiar? Ezequiel (34, 31) nos diz: “Vocês, minhas ovelhas, ovelhas da minha pastagem, são o meu povo, e eu sou o seu Deus”. Em um dos poemas (Salmo 22) mais lindos do Antigo Testamento, cantado em diversos momentos nas Igrejas, se diz: “O senhor é meu pastor, e nada me faltará”. Jesus Cristo toma a imagem da ovelha para o momento derradeiro, do juízo final. Ele mesmo será o “Cordeiro de Deus” que será entregue como alimento e bebida.

O que esse animal tão frágil nos mostra?

A ovelha é o animal de onde se retira tudo para a vida. Ela produz lã o tempo todo, mesmo sendo tosquiada a cada ano por ocasião do verão. É com esse produto que o povo podia se aquecer no inverno rigoroso e fazer suas vestimentas do dia a dia. Da ovelha também o povo extrai o couro, a carne e o leite. Portanto, do animal mais frágil, que não possui nenhum mecanismo de autodefesa, se extrai os elementos mais importantes para a vida humana. Essa imagem nos traz à lembrança da parábola dos talentos. O povo de Deus nunca pode parar de produzir frutos, alimentos, cuidados, proteção aos mais indefesos. O mesmo amor que Deus nos concede é o parâmetro para o juízo final; como ovelhas seremos julgados ou como cabritos. Depende de nossas ações na concretude da vida.

Esse animal tão frágil carece sempre da figura do pastor. Se ele se distrair, elas poderão tomar caminhos errados, comer ervas venenosas, serem assaltadas e raptadas. O pastor tem função central na vida das ovelhas. Ele não pode cuidar primeiro de si mesmo, de maneira autorreferencial, mas do rebanho ao qual foi confiado. Se uma ovelha cair, é ele que precisa ir em seu encontro para levantá-la. Do contrário, ela morrerá, pois não consegue erguer-se com o estômago cheio de comida, ou vazio e com fome. As ovelhas seguem o pastor porque o conhecem pelo cheiro, por sua voz. Elas dependem dele para tudo. Em troca lhe oferecem lã, couro, carne e leite. Não são seres inúteis, dependentes da caridade do pastor. O bom pastor sabe que mesmo uma apenas que se perdeu é muito importante, e vai em busca dela. Todos e todas fazem falta no rebanho.

Que imagem linda! Todos fazemos falta. Cada um de nós faz falta no rebanho de Deus. O Papa Francisco, no sínodo, tem enfatizado muito essa palavra que se torna um conceito da teologia da sinodalidade: Todos e Todas. Ao mesmo tempo, essa imagem chama para a responsabilidade aqueles e aquelas que foram chamados para cuidar das ovelhas, os pastores e as pastoras. Não se pode reduzir a função de pastor apenas para aquelas pessoas que foram ordenadas. Cada um que recebeu uma determinada quantidade de talentos é chamado a ser pastor ou pastora. Por isso, é através do sacramento do batismo que nos inserimos nesse rebanho de ovelhas. Cada um então tem a exercer algum ministério nesse mundo, e será sobre isso que teremos o acerto de conta ao final.

Alguns que se dizem pastores nesses tempos sombrios de noite escura estão levando as ovelhas para um sentimento de medo do inferno e do demônio o tempo todo. As pregações sobre os pecados estão deixando as ovelhas sem comida com erva boa. O juízo final descrito no Evangelho da festa de Cristo Rei nos apresenta o quadro de ações que serão determinantes para que o Bom Pastor separe as ovelhas e os cabritos, entregando-lhes o Reino dos Céus ou o inferno.

O mundo sente sede, fome; está doente e prisioneiro. Sente frio por estar nu. Não tem onde morar, pois as guerras matam ou afugentam as ovelhas. As ideologias estão infectando as religiões e as Igrejas. O mundo está doente! Se o juízo final acontecesse hoje com toda certeza o Filho do Homem em sua glória iria nos cobrar pelo que fizemos pela paz. Sem ela as ovelhas não têm onde se alimentar de verdes pastagens. Não tem onde beber de águas cristalinas. O reinado de Cristo não se constrói com armas, mas com amor e caridade, com o cajado do bom pastor. Não se constrói com exércitos, mas com pastores cuidadosos e atentos.

Edebrande Cavalieri

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