O Natal nas ruas: entre o desamparo e a solidariedade

24 dezembro, 2020

“Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes.” (Mt, 25:35)

Grupos que atuam enquanto Pastoral do Povo da Rua nos municípios já realizaram ações natalinas em seus municípios. Só em Vila Velha, no último dia 20, 100 pessoas participaram da ceia de Natal distribuída pelos voluntários e voluntárias da Paróquia Nossa Senhora da Glória.

Já em Vitória, na Paróquia Sagrada Família de Jardim Camburi, foi realizado o primeiro encontro com as pessoas em situação de rua no salão da igreja, no dia 18, e uma ceia para o povo da rua. Não poderia ser mais significativo, iniciar o trabalho da Pastoral, no espaço da igreja, oferecendo uma ceia de natal. Foi um encontro marcado por oração, confraternização e doação de roupas.

Na Serra, almoço de Natal do último sábado, organizado pela Pastoral do Povo da Rua de Laranjeiras em parceria com a Igreja Presbiteriana Unida e Pastoral da Juventude, foi um momento muito especial. Após uma reflexão sobre o significado dessa data, foi servido um almoço diferenciado, com sobremesas, brindes e sorteios.

“Mas algo muito perceptível diferencia a nossa relação com o Natal, da relação de nossos irmãos e irmãs em situação de rua com essa data. Enquanto para nós, o Natal é festa, família, presentes, roupas novas, ceia, árvore de Natal e Papai Noel, para eles, significa reviver a narrativa bíblica da perseguição, da migração, da ausência de hospedagem, do lugar improvisado como a estrebaria, mas, sobretudo o renascimento da esperança para uma vida melhor”, diz o relato oferecido pelo grupo.

Em Guarapari, na Paróquia Beato Padre Eustáquio, o almoço especial de Natal foi servido com a ajuda dos jovens do EJC. Com decoração temática, mesas ornamentadas de toalhas vermelhas, equipe responsável pelo cardápio festivo, com sobremesas a base de chocolate branco e limão siciliano, os convidados foram chegando. Um grupo até mesmo alugou uma carroça para não deixar os cachorros para trás e outros os jovens buscaram nos pontos de encontro. Até uma kombi foi utilizada. O dia por lá foi repleto de atividades: corte de cabelo, maquiagem, distribuição de roupas e calçados, caixa de bombons e mantas como presente.

Pessoas em situação de rua

O termo “em situação de rua” não só descreve a carência de moradia, como também identifica um grupo social formado pelos membros mais vulneráveis da nossa sociedade, caracterizado pelo abandono, baixa autoestima e negação da dignidade.

O estreito vínculo entre a negação de direitos e uma identidade social distingue a falta de moradia da privação de outros direitos socioeconômicos. Ou seja, a “situação de rua” não se refere unicamente à falta de refúgio físico, mas também a uma perda de conexão social, o sentimento de “não pertencer a lugar algum”.

“Estar com as pessoas em situação de rua no Natal significa compreender de forma profunda o sentido da encarnação de Deus por meio do seu filho Jesus. Muitas vezes romantizamos ou idealizamos a cena do presépio. Os pastores, no tempo do nascimento de Jesus, eram os últimos da sociedade, os menos valorizados. No entanto, foram eles os primeiros a contemplar o recém-nascido. Para os pastores Deus quis se revelar primeiro, mostrando a humanidade, desde o nascimento de seu filho, a sua opção preferencial pelos pobres. E dentre os pobres, escolhe os mais pobres”, destaca o coordenador da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de Vitória, Júlio Pagotto.

Ele lembra que, nos dias de hoje, as pessoas em situação de rua são como os pastores no tempo de Jesus: desprezados e marginalizados. Para muitos, são considerados subumanos. 

“O lugar onde Jesus nasceu também não pode ser considerado um lugar adequado para alguém nascer, um estábulo. Do mesmo modo, as ruas, as marquises, as praças também não são lugares adequados para alguém morar, se alimentar… Quando estamos com as pessoas em situação de rua no Natal, e não somente no Natal, compreendemos e sentimos que Deus quer subverter a lógica humana, ficando do lado deles e não dos poderosos. Enquanto a maioria de nós só está preocupada em acumular bens, o povo da rua luta para continuar existindo a cada dia, mesmo em condições desumanas”, relata Júlio.

A Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de Vitória crê que o Menino Deus renasce neste Natal em cada maloca, em cada marquise, embaixo de cada viaduto, em cada praça, onde tem um irmão ou uma irmã, afinal não há lugar para eles e elas nas casas da cidade.

“De tudo, o que mais me toca é que o povo da rua é capaz de ter fé. Isso mesmo, como acreditar em Deus em meio a tanta dor e miséria? Muitos de nós estaria xingando Deus por estar naquela condição. No entanto, a maioria acredita que Deus está com eles e que não é o culpado por estarem ali. Reconhecem que Deus os ama e que podem sair daquela situação. Celebrar o Natal com o povo da rua fortalece a minha fé e a minha esperança num mundo novo. E que a transformação de que o mundo precisa e que Deus quer, passa pelos pobres. Não há salvação para a humanidade sem o amor aos pobres”, enfatiza.

Sem solidariedade, não haveria Natal

Nas fachadas de prédios, casas e lojas, espalhadas pelas cidades, as luzes que piscam anunciam a proximidade do Natal. A época do ano em que, tradicionalmente, as famílias se reúnem ao redor da mesa com comida, muitas trocam presentes, outras, sorrisos.

Há o esforço em proporcionar o que de melhor é possível, dadas as condições de vida de cada família que se reúne. Nas calçadas, praças e abrigos, porém, aqueles que vivem sem um teto também vivem o Natal, mas de maneira diferente. Muitas vezes, a saudade é a presença mais marcante. E, se não fosse pela solidariedade, sequer haveria um Natal.

Vendedora de rua e estudante, Miriã Amaro da Silva viveu nas ruas do Centro de Vitória por três anos. Hoje, livre das drogas, consegue pagar um aluguel e vive sob um teto.

“Fiquei três anos no Centro de Vitória em situação de rua, foi muito complicado. Nós, graças a Deus, tivemos muitas pessoas de coração bom que faziam ceia, cultos, vigílias, levavam doação de roupa, alimento. O Natal a gente passava triste porque passava longe da família, eu não tenho família aqui, meus filhos não moram comigo. Lembrar que era Natal e não estar com a família é muito triste. Mas tínhamos a família da rua, porque a rua é uma grande de família”, recorda.

Enquanto muita gente está ocupada, preparando ceia, programando os dias de festividades, a família da rua buscava organizar no Natal algo simples, como uma ida à praia, em grupo. Os recados dos grupos de diversas religiões ou mesmo de nenhuma religião que atuam em prol das pessoas em situação de rua eram sempre os mais esperados: haveria um culto, uma vigília, um jantar, uma ceia.

Não é fácil

Adriano Alves, em situação de rua já há sete anos, era morador de Linhares quando perdeu os avós, não teve mais condições de pagar o aluguel e acabou indo para as ruas. Hoje, reside no município da Serra, sem endereço fixo.

“É uma questão muito difícil de falar, de explicar. Passar o Natal fora de uma casa é difícil. O Natal na rua é complicado. Pela situação de rua, do alimento, da higiene. Natal, pra mim, é confraternização familiar, confraternização com Deus”, destaca.

Se pudesse fazer um pedido às autoridades responsáveis, Adriano pediria uma nova oportunidade não apenas para si mesmo, mas para todos com quem convive e mesmo quem nunca viu, mas que está também em situação de rua.

“Se eu pudesse pedir alguma coisa, seria a mudança da minha situação, a de todo mundo que tá aqui, que tá por aí, em vez de morar na rua, ter um lugar para morar. É difícil. A gente joga muita questão na droga, coloca muita culpa na droga. Eu já tenho um mês que estou sem usar e estou pensando em mudar. O que eu desejo é um lar, desejo a minha família de volta, a minha esposa comigo, a minha saúde.”

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