O Pão da Vida

1 agosto, 2021

Jeferson Klippel I “Eu sou o Pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6,35).

Neste 18° Domingo do Tempo Comum, continuamos a leitura do capítulo sexto do Evangelho segundo João. O texto proposto para hoje (Jo 6,24-35) está em perfeita continuidade com aquele do Domingo passado. Após o sinal da partilha – ou multiplicação dos pães -, a multidão, saciada e impressionada com o sinal cumprido por Jesus teve a tentação de querer proclamá-lo rei, o que fez com que Jesus se afastasse, pois, tal ideia era uma distorção do sinal cumprido e da sua própria missão de enviado de Deus. Uma interpretação equivocada dos sinais cumpridos por Jesus e da sua identidade de Messias servidor colocava em risco a eficácia do seu projeto de redenção e vida plena para a humanidade inteira.

Enquanto Jesus se refugiou para não alimentar os anseios da multidão, esta o procurou até encontrá-lo, já na outra margem do lago, na cidade de Cafarnaum, como aponta o texto. Embora Jesus mesmo tenha se afastado, era compreensível a ânsia da multidão querendo estar ao seu redor, uma vez que essa é a mesma multidão que padecia, abandonada como ovelha sem pastor, de quem o Mestre sentiu compaixão (cf. Mc 6,34). Diante da multidão abandonada, Jesus agiu como pastor e guia, ensinando o dom da partilha como primeiro meio de superação da crise material pela qual passava. Preocupava-se, porém, com as reais intenções da multidão à sua procura, e não queria alimentar falsas e ilusórias expectativas.

Ao encontrar Jesus, a multidão interage com ele, pela primeira vez: “Quando o encontraram no outro lado do mar, perguntaram-lhe: ‘Rabi, quando chegaste aqui?’” (v. 25). A pergunta em si é pouco significativa e carente de profundidade, mas muito importante porque abre caminho para uma interação cada vez maior entre o Mestre – Rabi, em hebraico – e o povo. Ao dirigir essa pergunta, a multidão consegue ver Jesus como alguém acessível, o que poderia ser o início de uma nova compreensão a seu respeito. De fato, essa é a primeira vez que a multidão fala direta e abertamente com Jesus. Ao considerá-lo Mestre, abre-se a possibilidade para o nascimento de um novo discipulado. De fato, fazia parte da pedagogia de Jesus gerar discípulos e discípulas a partir das multidões anônimas.

À pergunta da multidão, Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes os sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos” (v. 26). Com bastante clareza e objetividade, Jesus expõe as intenções da multidão que Lhe procura: não se tratava de reconhecê-lo e aceitá-lo como aquele que Deus enviou ao mundo para salvar e dar vida em abundância (cf. Jo 3,16; 10,10), mas de querer perto de si alguém que fornece pão gratuitamente. Ele sabia que estava sendo procurado pelo que tinha feito, e não pelo que realmente era. Porém, não desperdiçou a ocasião, mas aproveitou para iniciar uma ampla e profunda catequese, recordada pelo evangelista João como essencial para a sua comunidade e para a comunidade cristã de todos os tempos.

De fato, cercado por uma multidão saciada recentemente por poucos pães e peixes, mas já faminta de novo, Jesus a convida a buscar algo muito maior e mais eficaz: “Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará. Pois este é que o Pai marcou com seu selo” (v. 27). Falando à multidão, convida a alimentar-se com um alimento que não se perde, mas que permanece até a vida eterna. Esse alimento só pode ser dado por ele mesmo, pois é ele o Filho do Homem, marcado pelo Pai com o seu selo, o Espírito Santo e o amor que os une.

Com o sinal da partilha dos pães, Jesus tinha ensinado a multidão a superar, por si mesma, as suas dificuldades, principalmente o problema da fome. Com os pães e peixes apresentados, ficou a lição da partilha e solidariedade que brota. Aquele gesto poderia ser feito sem a presença física de Jesus, por isso, ele via como desnecessária a busca da multidão por algo que ela mesma era capaz de fazer. Daí o convite para buscar algo mais profundo e não menos necessário: o alimento para uma vida plena, com sentido e dignidade plenos, a vida eterna, imune até mesmo à morte. O pão que nutre para a vida eterna, de fato, só pode ser dado por Jesus, porque é Ele mesmo na inteireza do seu ser. Alimentar-se desse pão é assumir na concretude da vida o estilo de Jesus, fazendo escolhas semelhantes às suas, amando com um amor à sua maneira. É isso que gera eternidade de vida, pois, uma vida autêntica assim não pode ser destruída nem mesmo pela morte.

Aceitar essa revelação implica criar intimidade com Ele, deixar-se alimentar pela sua vontade e, consequentemente, ter toda a vida conduzida conforme o seu modo de viver. Aqui está o início do grande discurso eucarístico de Jesus no Quarto Evangelho, o qual será continuado na liturgia dos próximos Domingos. Impressiona a pedagogia de Jesus: de uma realidade material e efêmera, o pão partilhado que alimentou a multidão, ele eleva o seu auditório ao conhecimento de algo muito mais profundo, que é o dom da sua pessoa como enviado do Pai para que, nele, o mundo todo tenha vida em abundância. Para isso, a comunidade deve tê-lo como único centro e referência a ser seguida. Se a eucaristia dominical, e até diária, não leva a essa centralidade, não passa de uma versão nova do maná comido pelos antigos israelitas no deserto. A Eucaristia alimenta para a vida eterna quando seus partícipes aderem à maneira de viver de Jesus.

São João Paulo ll nos explica: “A Eucaristia, sendo comunhão com Cristo, é, portanto, participação na vida de Deus, que é eterna e vence a morte”. Apesar de todas as tribulações e ilusões que passamos neste tempo, peçamos ao Senhor a graça de perseverar no Caminho, reconhecendo que Jesus é o Pão da vida e que veio para ser alimento eterno. Não sejamos incrédulos ou desesperançosos, e sim crentes no Evangelho, levando esperança a todos os que se sentem aflitos através de nosso testemunho de Cristãos batizados.

Vivamos o amor em Jesus Cristo.

Jeferson Klippel

Seminarista do 1° ano de Filosofia.

Paróquia de Origem: Santa Ana – Marechal Floriano.

Paróquia de estágio Pastoral: Maria Mãe da Igreja – São Geraldo – Cariacica.

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