O QUE ESPERAR DO I CONSISTÓRIO DE LEÃO XIV?

6 janeiro, 2026

Nos dias 7 e 8 de janeiro de 2026, oito meses após sua eleição no Conclave, sem ter publicado ainda uma Encíclica que mostrasse seu plano de governo da Igreja Católica e uma Viagem Apostólica realizada na Turquia e Síria, o Papa Leão XIV realizará o I Consistório de seu pontificado. Conforme o Direito Canônico (cânon 353), “os Cardeais auxiliam principalmente o Supremo Pastor da Igreja por meio da atividade colegiada nos consistórios, nos quais se reúnem por ordem do Romano Pontífice e sob sua presidência”. O que a humanidade, e especialmente os católicos, podem esperar dessa reunião colegiada?

Antes de responder a esta questão, é bom lembrarmos alguns dados da biografia do Padre Robert Francis Prevost, ordenado em 1982 e enviado como missionário da Ordem de Santo Agostinho ao Peru em 1985, eleito Prior Geral da mesma Ordem por dois mandatos (2001-2013) quando viajou por diversos países escutando e acompanhando as comunidades religiosas. Em 2014, o Papa Francisco o nomeou como Administrador Apostólico da Diocese de Chiclayo no Peru e em seguida foi ordenado Bispo. Ali permaneceu até 2023 quando o Papa Francisco o escolheu para dirigir o Dicastério dos Bispos em Roma.

Este perfil biográfico foi determinante para sua escolha como Papa pelos cardeais. Ele não fez nenhuma campanha eleitoral com promessas nem sempre exequíveis. Esta é a imagem que desponta nestes poucos meses à frente da Igreja. A mensagem de Natal se encaixa perfeitamente no contexto de seu ministério missionário ordenado: “Negar ajuda aos pobres é rejeita Deus […]. Na terra não há lugar para Deus se não há lugar para a pessoa humana […] Até mesmo um estábulo pode se tornar mais sagrado do que um templo”.

Este pequeno raio x de sua vida nos mostra um homem marcado por uma forte ação missionária entre as populações mais pobres do Peru e um homem capaz de ouvir muito como quando esteve em cargos de comandos como Prior da Ordem, Bispo e Presidente do Dicastério dos Bispos. Nestes oito meses de pontificado, podemos comprovar isso. Sempre atento, ouvindo e estando em posição de escuta das pessoas, sem pompa, na simplicidade e humildade de um homem de Deus. Esta é uma marca que estará presente nesta primeira reunião com os Cardeais: vai “perder” o máximo de tempo para ouvi-los atentamente.

Que desafios estão sobre a mesa nesta reunião? A primeira questão é a da unidade da Igreja. Este desafio não se resolve da noite para o dia e nem mediante um decreto. A unidade da Igreja é um processo que depende de muitas coisas, entre elas a lealdade de todos os que estão no poder. A unidade formal pode até acontecer e virar notícia de jornal, contudo a verdadeira unidade é aquela que brota do coração e da fé do povo de Deus. É preciso reconhecer que o Papa Leão XIV herdou uma situação complexa com forte impulso de uma parte da Igreja (os tradicionalistas) e de setores sociais também conservadores que temem que católicos progressistas possam acabar abandonando a Igreja, caso o chefe da igreja deixe de seguir os caminhos abertos pelo pontificado de Francisco.

A segunda questão que está sobre a mesa é o progresso das reformas aprovadas no Sínodo sobre a Sinodalidade. Há muitas resistências na implementação destas reformas tanto na Cúria Romana, como nas Cúrias diocesanas do mundo inteiro. Ficar na zona de conforto em tempos de ebulição política e social é a maior tentação dos seguidores de Cristo. Mas isso seria viver o Evangelho? O costume de se fazer sempre do mesmo modo é muito cômodo e tranquilo. Assim, as reformas correm risco de ficar no papel. Na própria Cúria Romana, após a morte do Papa Francisco, diversas lideranças tentam recuperar a influência perdida.

Aqui está o terceiro desafio do Consistório: como controlar parte dessa Cúria e colocá-la como “um pequeno modelo da Igreja, isto é, como um ‘corpo’ que procura, séria e diariamente, ser mais vivo, mais saudável, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo”, perguntava o Papa Francisco aos Cardeais e colaboradores da Cúria Romana em 2014.

Outros pontos também estão sobre a mesa nesse início de pontificado: a atuação da diplomacia do Vaticano em tempos de tantos conflitos, o desarmamento que foi tema na mensagem de Natal, o meio ambiente e os abusos sexuais que envergonham a Igreja.

Desta forma, a realização do I Consistório cumpre um compromisso do Papa após o conclave que é trazer os cardeais para auxiliá-lo no governo universal da Igreja, assumindo um papel mais ativo. A vontade do Papa é ouvir os cardeais e motivá-los para expressarem suas opiniões. Era esse o desejo de maior participação dos cardeais ao elegerem o novo papa, expressando a disposição de seguirem no caminho do processo sinodal. Ao mesmo tempo, nos parece que Papa Leão XIV deseja realizar uma gestão bem mais compartilhada e sinodal da Igreja. Assim a Barca de Pedro inicia a navegação com seu novo timoneiro no novo ano em mares nem tão calmos como gostaríamos.

Edebrande Cavalieri

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