O trabalho é a vocação do homem

Edebrande Cavalieri

Esse é o título da homilia feita pelo Papa Francisco na celebração do 1º de maio de 2020, em plena pandemia. A Igreja inseriu de maneira muito forte essa temática na Doutrina Social e três documentos são essenciais para fundamentação de uma teologia do trabalho: a Encíclica Rerum Novarum publicada em 1891 pelo Papa Leão XIII, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II publicada em 1966 e a Encíclica Laborem Exercens do Papa João Paulo II, publicada em 1981. Supera-se de maneira profunda a concepção negativa do trabalho presente em Gêneses 3, 17.

Esse texto mostra a aplicação da pena em decorrência do pecado de Adão e Eva tornando a terra maldita e o homem tendo que se alimentar com sofrimento, pois ela dará espinhos e ervas daninhas; com muito suor o homem comerá seu pão. Trata-se de um texto bíblico que não pode ser entendido de maneira literal. Tantas vezes na história esse texto foi usado para justificar a exploração do trabalho escravo! Sendo castigo divino, os proprietários das terras davam-se e continua dando-se o direito de escravizar e fazer sofrer os escravos com castigos diversos como as famosas chibatadas e açoite nos pelourinhos.

O Concílio Vaticano II insere o trabalho como uma realidade superior às demais realidades da vida econômica, pois corresponde ao plano original de Deus, sendo uma realidade iluminada pelo Mistério de Cristo. O Papa Francisco diz que essa realidade nos torna semelhantes a Deus. É através do trabalho que o homem se coloca como criador de tantas coisas, inclusive de uma família para seguir em frente. O homem do ponto de vista teológico é também criador e em razão disso cria o trabalho. Essa é sua vocação. Francisco nos diz que é a primeira vocação do homem.

Por isso tem muito sentido a denúncia profética feita pelo Papa João Paulo II relatando a “inversão economicista” com a coisificação do trabalho e, pior ainda, com a coisificação do trabalhador. Esse não apenas produz mercadoria, mas torna-se mercadoria no mercado de trabalho. O trabalhador então deixa de ser pessoa, perde a dignidade. E mais ainda nos confronta o santo Papa dizendo que os trabalhadores passaram a ser vítimas da injustiça social na medida em que são privados dos meios básicos para a manutenção de sua vida. Nega-se, nessa inversão economicista, o Evangelho de João 10, 10 segundo o qual Jesus Cristo veio para que todos tenhamos vida e a tenhamos em abundância.

É muito triste perceber que ao longo de tantos anos a nossa humanidade não avançou muito na questão social do trabalhador. O Papa Leão XIII dizia que “é preciso de medidas prontas e eficazes que venham em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria”. É triste ver a luta dos trabalhadores para garantir alguns poucos direitos. Em nome de interesses econômicos, governantes logo promovem reformas trabalhistas prometendo melhoria do emprego, mas na verdade trata-se de retirada de direitos conquistados a duras penas.

Aliviamos nossa consciência fornecendo alguma cesta básica que sacia provisoriamente e emergencialmente a fome. Mas a pessoa que busca a mesma cesta básica quer algo maior. Isso não é suficiente. Essa pessoa quer o direito de poder adquirir sua cesta básica, quer dignidade de “fazer” o próprio pão com seu trabalho e levar para casa. Tantos precisam superar a vergonha de pedir para não morrer de fome! O Papa Francisco não diz que “a dignidade do trabalho infelizmente é tão espezinhada”.

Leão XIII dizia que os trabalhadores não tinham outra alternativa senão pedir socorro ou apelar para a religião e para a Igreja a fim de encontrar uma solução eficaz. E continua dizendo que “calarmo-nos seria aos olhos de todos trair o nosso dever e diante de tamanha gravidade temos que demandar de outros a sua parte de atividade e de esforços, isto é, dos governantes, dos senhores e dos ricos, e dos próprios operários, de cuja sorte se trata”.

O Papa Francisco nos conta que no ano passado um empresário lhe pedia para que rezasse por ele porque não queria despedir ninguém. E dizia esse empresário ao Papa: “Pois despedir um deles é despedir-me”. Há muitos e bons empresários e nesses tempos de pandemia foi possível perceber isso. Garantir o emprego nesse momento é essencial para a manutenção da dignidade humana. É muito mais que doar cestas básicas. E Francisco nos dizia no ano passado: “Que não falte trabalho a ninguém e que todos sejam pagos com justiça e beneficiem a dignidade do trabalhador e a beleza do descanso”.

Por fim não podemos esquecer de uma chaga que, mesmo após 133 anos da abolição da escravidão, ainda está presente na realidade brasileira. Trata-se do trabalho escravo. Somente no ano passado foram resgatadas 942 pessoas da situação de trabalho escravo. Em 2019 foram 1.054 pessoas resgatadas. A escravidão moderna equivale a tratar alguém pior que um animal, restringindo sua liberdade, oferecendo um salário muito ruim, violando a dignidade humana. Nos últimos 25 anos foram resgatadas no Brasil em torno de 50.731 mil pessoas conforme dados da CNBB. A pandemia está agravando essa situação, principalmente por falta de notificação e fiscalização.

O aumento da vulnerabilidade das pessoas em situação de extrema pobreza e que não conhecem seu direitos é a principal causa do aumento do trabalho escravo. Há uma espécie de naturalização desse tipo de trabalho e é cada vez mais invisível para a sociedade. Na cidade ocorre com as trabalhadoras domésticas.

A falta de investimentos nas diversas áreas de fiscalização, inclusive em relação às condições de trabalho, colabora enormemente para o crescimento do número de pessoas escravizadas. Há situações inclusive de tráfico de pessoas para o trabalho escravo. É muito perigosa a forma como o governo vem reformulando dispositivos legais que reduzem a força da fiscalização. A redução de investimentos nos órgãos que cuidam da fiscalização do meio ambiente, das condições de trabalho, da proteção aos povos originários, e a mudança da legislação despenalizando os infratores torna-se o maior pecado que se comete e que deve ser objeto de denúncia nesse dia do trabalho.

A Igreja nos chama no dia 1º de maio para a “Marcha pela Vida e Cidadania” que mesmo sendo pela internet (facebook da Pastoral Operária) tem um sentido muito importante. O isolamento necessário nesses tempos de pandemia não nos isenta do compromisso na luta pela dignidade dos trabalhadores em termos de empregos, salários e condições de trabalho. Tantos perderam seus empregos! Tantos sentem falta da comida em suas casas! Nesse compromisso solidário estaremos sendo fieis à nossa vocação de sermos criadores deixando esse mundo mais belo e mais digno. A destruição do mundo em suas diversas formas é a negação da vocação originária dada por Deus.

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